LITURGIA(S) INCULTURADA(S): O VERDE E ROSA NA HOMILIA CONTEMPORÂNEA

Nome do enredo: A verdade vos fará livre
Nome do carnavalesco: Leandro Vieira

O G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira trará ao carnaval 2020 mais um enredo dito
crítico. E qual enredo não é? Ou melhor, qual enredo preferiu não ser? Partindo disso, a
agremiação coloca em voga aspectos da vida contemporânea permeados pelas passagens do personagem principal no desenrolar do texto mestre. Diferente de 2019, o enredo utiliza
apenas um único ícone narrativo onipresente em todos os momentos da sinopse. E pasmem, não é qualquer figura! É justamente aquele que inspirou diversos estudos sobre Iconologia: Jesus Cristo. Através das narrativas cristãs, o carnavalesco Leandro Vieira propõe no enredo uma série de reflexões sobre os assuntos do hoje. O filho de Deus insurge aqui no Rio de Janeiro e bota o/a sambista para pensar. Amamos o próximo como a nós mesmos?

Neste momento, gostaria que você leitor(a) pudesse voltar no tempo. Carnaval 2017.
Mangueira. Escultura na Sapucaí. O frente-verso mudava. Oxalá. Jesus. Você se lembra
disso? Se não lembra, ou não sabia, acredito que valha a pena dar uma procurada. É ditado
popular, “uma imagem vale mais que mil palavras”. Essa imagem foi um dos marcos
carnavalescos daquele ano. Tão polêmica e polemizada – afinal a mídia vive de notícias – que a dimensão e a potência que esta escultura ocasionou no carnaval carioca foi de performance ímpar, fazendo com que a Mangueira abdicasse de levá-la novamente ao desfile das campeãs. Abdicar é uma palavra interessante neste sentido. As reportagens jornalísticas da época comentaram sobre a influência da Arquidiocese na tomada da decisão. Penso em censura. Em tempos de intolerância religiosa, acredito que não problematizá-la seja danoso àqueles que são silenciados. Afinal a casa grande não abrirá as portas da senzala por altruísmo. Quebremos grilhões!

Pois bem, leitor(a). O enredo para 2020 tem a mesma grandeza de impacto. Se ontem foi uma escultura, amanhã será uma escola inteira. O texto mestre não informa de maneira nítida como a escola poderá ser setorizada ao longo do desfile. Entretanto, alguns momentos são marcantes na narrativa apresentada: a figura de Cristo, a filosofia humanista por ele apresentada, a hipocrisia religiosa, como Jesus percebe o hoje, o morro da Mangueira e o próprio Carnaval. Ao contextualizar o Salvador na vivência do agora, Leandro propõe pensarmos em como as liturgias/filosofias, sobretudo cristãs, foram, e continuam sendo, distorcidas ao longo dos tempos. Basta ler a sinopse e veremos que amor está em caixa alta.

Destaco dois momentos do texto que podem dar pano pra manga no desfile. O primeiro deles é justamente a ressignificação morfológica de Jesus. Quem foi à missa sabe que
experimentamos o corpo de Cristo. E qual corpo ele tem? A pantomima ritualística cria todo
um gestual antropofágico de apropriação. Tomo para mim o corpo daquele incubido de nos
salvar. E neste exato momento a sinopse aponta a um Jesus plural. Jesuis. Sim, eu inventei
esse “i” pra reforçar que são vários. Leandro informa que há extensão do corpo santo, que
abarca todxs. Independentemente de cor, credo, classe social, afetividade, gênero, idade,
tamanho, desejo, sonho e, até mesmo, os corpos que o refutam, que o negam. Há, portanto, na construção do desfile a instauração de um salvador horizontal cuja mão é estendida indiscriminadamente.

O segundo momento a ser destacado na sinopse é a questão para própria vivência da
comunidade mangueirense. O local do morro da Mangueira é cenário pensado como parte
essencial nesta nova passagem de Cristo pela Terra. Um Cristo brasilizado, que sobe o morro, vê a bala perdida, vê os poderes paralelos, vê o descaso governamental e vê sua própria escultura de costas pros que estão marginalizados. Estão, de fato, à margem da imagem de Cristo. Mas com toda certeza este mesmo Jesus consegue ver outras nuances de Mangueira, cujos tons nem sempre são valorizados. Afinal é ele quem tem o poder de ressignificar a mazela em sorriso, dando força aos fracos.

E é neste momento, já pro final da sinopse, e, provavelmente, no final do desfile, que o
desfile carnavalesco fala de si em metalinguagem; colocando o período em que o Rei Momo
ganha a chave da cidade em cerimônia solene – ou ao menos deveria ser – para dar abertura aos trabalhos de encantaria. O carnavalesco pensa este momento como aquele em que ocorrem subversões de papéis, mudanças de protagonismos. E agora eu te pergunto, quais protagonismos são aceitos no dia a dia?

O texto mestre dá aberturas a pensar novamente a construção de um carnaval que coloca o microfone na mão de quem não teve oportunidades de cantar. Assim como já feito em 2019, culminando no campeonato, a agremiação se coloca como marco no processo crítico e revisionista dos engendramentos sociais. Acredito que o legado de “Marias, Mahins,
Marielles, malês” possa ser uma faca de dois gumes. Se por um lado pode catapultar o
frenesi popular e instaurar o torpor e a torção da massa rumo a um bicampeonato, por outro pode criar um horizonte de expectativas perigoso. Afinal, superar um campeonato e um samba já antológico não é tarefa simples. Quais cores iremos ver? Quais símbolos iremos identificar?

De todo modo, Leandro e todo o corpo artístico da agremiação vêm nos mostrando seus
empenhos na construção de desfiles marcantes. Para além de desfiles técnicos impecáveis na rigorosidade dos quesitos, Mangueira vem realizando carnavais do povo e paro o povo. Nada de burocracias e monotonismos. A comunidade retomou seu vigor dos tempos áureos e foi à luta, querendo taças e taças. Sendo assim, não se pode esperar pouca coisa da atual campeã do carnaval carioca. Peguem suas fantasias que ela vem! “Me leva que eu vou, sonho meu. Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu.”

Autor: Rennan Carmo – [email protected]
Graduando em História da Arte (EBA/UFRJ)
Membro efetivo do OBCAR
Leitor orientador: Cleiton Almeida – leitor crítico
Graduando em Artes Visuais – Escultura (EBA/UFRJ)
Instagram: @observatoriodecarnaval_ufrj

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