Renascer 2020: Palavras que curam, atos que integram: a importância das benzedeiras no sincretismo religioso brasileiro

Nome do enredo: Eu que te benzo, Deus que te cura
Nome do carnavalesco: Ney Junior

Para 2020, a Renascer de Jacarepaguá apresentará o enredo Eu que te benzo, Deus que
te cura, desenvolvido pelo carnavalesco Ney Junior, em busca de seu segundo título na
Série A do Carnaval carioca. O texto-mestre aponta que a Escola desfilará a importância
de quem benze, as quais são principalmente mulheres, Marias que intercedem,
apresentando a importância do benzimento como ato de integração cultural e como um
dos processos culturais que reafirmam a heterogeneidade da identidade brasileira.

Para tanto, a escola do Largo do Tanque, durante a sinopse, direciona, para o leitor, os
seguintes aspectos sobre o ato de bem dizer que serão abordados no desfile: haverá a
representação de cada uma das etnias formadoras da identidade nacional e seus atos de
benzer – espera-se, em vista disso, a utilização de materiais rústicos, como palha
emadeira; haverá diversos altares em louvação a santos, a orixás e a divindades
indígenas: haverá a representação das mazelas por meio da medicação natural – espera
se, em vista disso, a utilização de essências de ervas e de plantas, colaborando para uma
experiência olfativa; haverá, ao fim do desfile, uma integração cultural, buscando
elucidar o combate à intolerância religiosa – espera-se, em vista disso, a utilização de
materiais na cor branca, elucidando a paz entre os povos, além da pomba da paz,
símbolo da escola; portanto, um grito de basta ao ódio gratuito às religiões
afroameríndias brasileiras.

Do texto-mestre, também, percebe-se, quanto à forma, que ele é uma prece. A sinopse,
dessa forma, remete-se diretamente à questão da transmissão do conhecimento de
benzer pela oralidade. A fala é, dessa forma, canal de integração cultural; ora, se o saber
do benzimento, passado de geração a geração, resiste no Brasil, é graças à conservação
da tradição oral, do saber popular falado. O carnavalesco Ney Junior, portanto,
pretende, no desfile da Renascer de Jacarepaguá, discutir a importância da palavra
falada na construção do Brasil, ou como a oralidade, incorporada de fé, foi um fio
condutor para aproximar realidades sociais tão distintas; é pela fé que todos se tornam
um só.

A Renascer, ainda, ao exaltar as benzedeiras como veículo para integração social pela
religião, traz a representação de alguns grupos minoritários – e frequentemente
excluídos – da sociedade brasileira, como os seguintes: a mulher, na figura de quem
benze; os negros e os índios, os quais aparecem quando a rezadeira afirma que sua
herança é, principalmente, “indígena e africana de verdade.”. Ora, embora o enredo da
Escola do Largo do Tanque não seja político, quando ela despontar na Avenida,
sutilmente, representando a mulher, o negro e o índio, dará a eles voz, indo de encontro
àqueles que insistem em silenciá-los.

Em tempos de tanto desamor e discursos de ódio, a Renascer de Jacarepaguá torna-se a
voz de tantos. Afinal, quem nunca utilizou a prece para interceder pela cura de uma
mazela? Quem nunca, mesmo pertencendo a determinada doutrina religiosa, recorreu a
outra? É preciso ter fé para alcançar a graça divina por meio do benzimento, da oração.
É preciso crer! Ao retratar as benzedeiras, ora, a vermelha e branca de Jacarepaguá
ratifica a importância da fé na construção do Brasil, além de retificar o preconceito, o
ódio e a intolerância que tem dizimado tantos, afirmando a heterogeneidade de crenças
que uma pessoa carrega; sincrética, retrato de um Brasil plural. Benzer é ato de fé! Fé é
sincretismo religioso! Sincretismo religioso é multiplicidade cultural! Multiplicidade
cultural é Brasil! Brasil das benzedeiras! Brasil de tantas bandeiras! Brasil da Renascer
de Jacarepaguá! Que a escola do Largo do tanque, por meio das benzedeiras, alcance a
graça que tanto deseja: ser campeã do Carnaval.

Autor: Luiz Pestana – [email protected]
Comunicação Social (Jornalismo)/UFRJ
Membro Efetivo OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Mateus Almeida do Pranto – [email protected]
Letras-Literaturas (Licenciatura)/UFRJ
Instagram: observatoriodecarnaval_ufrj

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