Bangu: Memórias de um Griô – A diáspora africana por entre a crônica no decurso de uma viagem atemporal

Nome do Enredo: Memórias de um Griô: a diáspora africana numa idade nada moderna
e muito menos contemporânea
Nome do carnavalesco: Bruno Rocha
Nome do autor da sinopse: Tiago Freitas

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Unido de Bangu em 2020 vem contar os anais
dos povos Africanxs, mais especificamente do povo Congolês a partir de seu surgimento no olhar de um nativo. O primeiro habitante contador de histórias, um Griô. Esse ancestral se vê presente durante toda a formação do continente africano, desde a gênese do próprio continente até a chegada da colonização europeia. Preserva em sua memória a história, tornando-se assim, guardião do Congo. O personagem central viu Manicongo, o rei, ter seu coração corrompido e comercializar seus irmãos de pele, lançando sofrimento e dor a bordo de navios tumbeiros. O griô é o espectador e testemunha de todos os acontecimentos visto que, sempre esteve presente trazendo em suas lembranças a transmissão do conhecimento para futuras gerações. Percorrendo esse trâmite chega à diáspora africana essa transladação dos corpos negrxs, assistido em forma de tortura pelo griô, explorando o período que auxiliou na formação das bases sociais atuais.

Com harmonização ao trecho do enredo “memórias de um Griô”, atenta-se, que o texto
redigido por Tiago Freitas possui a característica de ser de tipologia narrativa, onde é
notória a presença de um personagem central, que relata com um método historiográfico
discorrendo através da memória captada na forma de oralidade. Memória essa, que
apesar de no texto situar o leitor ao mesmo tempo histórico, estende a uma reflexão de
um período tão antigo e distante que acaba se tornando atemporal.

Essa figura expõe toda a história de forma cronológica e orienta o leitor a magnitude da
preservação da história e principalmente da memória. No qual esse encaminhamento, encarrilha em receios e inquieta o legente a constatar que o sofrimento do negrx
Congolês foi muito além de quando já escravizadxs, mas, tem seu início nessa diáspora
migratória forçada.

No texto é descrita a presença de atividades econômicas predominantes pelos congoleses, demonstra a força do comércio local e sua moeda central, uma concha denominada nzimbu (conhecida atualmente/popularmente como búzio). Essas atividades são substituídas pelo comércio da pele quando o reino do congo recebe a chegada dos portugueses, que atracam na região e carregam para a povoação com apoio do senhor dos congoleses, as lágrimas e o sofrimento para habitantes de uma civilização, que um dia, foi fortemente estruturada.

O tráfico negreiro era uma atividade lucrativa que fazia parte do mercantilismo e ajudava no processo inicial de capitais. Infectos navios tumbeiros cruzavam os oceanos e executava uma imigração forçada de um contingente expressivo de negrxs, que foram vendidos e arrancados de suas terras na condição de povos escravizadxs. Muitos deles não sobrevivendo a esse deslocamento. E quem chegava, era negociado através de escambos.

O enredo evidencia uma África muito mais anciã, portanto, nele ocorre à descrição desde os primórdios na gênese africana. O surgimento do continente e dos habitantes, chegando às civilizações e nobreza daquele reino. Na qual, antes da colonização, existia um povo com sua própria cultura e costumes. Deste modo, o papel do griô se torna essencial para desmistificar a existência lesiva histórico-cultural do africano unicamente dominado. História essa, que ignora e desvaloriza as fascinantes e profícuas nobrezas que aquele continente possuía antes da invasão portuguesa.

Através do texto da vermelha e branca de Bangu, fragmentam-se a crônica em elementos visuais fortes como: o aparecimento do continente Africano através da Savana (bioma) com sua fauna e flora; alguns componentes, tal como, os tecidos e metais descrevendo os artigos de venda que representavam o comércio daquele povo e principalmente a representação de navios negreiros e uma possível apresentação de porões desses navios. O texto nos sugere a presença de elementos visuais básicos como os movimentos que rastreiam emoções dolorosas de africanos amontoados e acorrentados destinados a serem mercadorias em um lugar onde nem as línguas faladas reconheciam.

No carnaval contemporâneo analisam-se vestígios de enredos críticos e de cunhos sociais. A Unidos de Bangu não negligência esse conceito e aplica um desfecho durante sua sinopse quando faz prece a Kindembu. A escola traz o reflexo do escravismo aos dias de hoje, um capítulo dessa história contada que deixou marcas sociais em práticas segregacionistas e excludentes baseadas em um racismo cordial. O texto apresenta uma onda migratória forçada, que possibilitou a formação de uma comunidade afetiva ao longo do país. Essa conexão pode ser encontrada na batucada de tamborins, nos versos de um samba, no desfile da agremiação mais antiga da Zona Oeste.

Avante Unidos de Bangu, brilhe neste carnaval e batucai por todos os negrxs!

Autora: Iara Quirino – [email protected]
Licenciatura em Ciências Biológicas//UFRJ
Membro Efetivo do OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Rennan Carmo – [email protected]
História da Arte – EBA/UFRJ
Instagram: observatoriodecarnaval_ufrj

 

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