Nome do enredo: Viradouro de Alma Lavada
Nome do carnavalesco: Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira

VIRADOURO DAS GANHADEIRAS, VIRADOURO DE MARIA DO XINDÓ. DE ALMA LAVADA NAS ÁGUAS DE ITAPUÃ

“Galo cantou, pé na estrada pra amanhecer / Na beirada do rio pra ver marear / Esperando a maré baixar” – Histórias das Ganhadeiras (Amadeu Alves)

Orgulhoso de si, o GRES Unidos do Viradouro inicia seus preparos para apresentar-se à Avenida.

A agremiação que “lavou a alma” no corrente ano conquistando o vice campeonato, retorna, à luz de sua história, a homenagear as mulheres que fazem parte da História e da Cultura do país. Mulheres como Dercy Gonçalves, Tereza de Benguela, Anita Garibaldi e
Bibi Ferreira pedem passagem para a memória ancestral de mulheres negras, às margens do Abaeté, que pretendem lavar a alma do carnaval na figura de Maria da Paixão dos Santos Anjos: são as Ganhadeiras de Itapuã.

Em sua divulgação do enredo, a Escola de Niterói apresenta seis artes correspondendo
trechos e entendimentos da produção textual feita pelos carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon juntamente com Igor Ricardo. Essas artes revelam a devoção, o ritmo e o “calor” que as Ganhadeiras representam à cultura: a primeira representa a devoção à orixá da doçura, deusa das águas doces, representada por rosas amarelas e um grande laço dourado como o Sol; a segunda, a cor da comida, onde a pimenta é a base na alimentação típica dessas mulheres quituteiras; em seguida, representa os seus amuletos, artefatos e peças que balançam ao vento que quara a roupa; na quarta arte, o atabaque que dá o ritmo às danças e festejos religiosos; a quinta, são flores que perfumam e purificam, sacramentando seus filhos; e por fim, na sexta imagem, é possível visualizar a irmandade emoldurada, a escola vermelha e branca de alma lavada abraça as Ganhadeiras numa conexão entre Niterói e Itapuã.

Inicialmente, a sinopse evoca a memória ancestral que as mulheres lavadeiras representam e protagonizam na luta pela alforria de negras escravas, caboclas e crioulas. Evoca as “Marias” de Itapuã que vão à Lagoa do Abaeté para ganhar sua renda sob o Sol, onde se conectam ao que lhe é ancestral e profundo. A devoção sempre está presente na narrativa, como cantam essas mulheres na Lagoa ou no mar.

“Quando o marido dela chegava com o peixe, ela chegava com o arroz e o feijão”. Trecho de um depoimento do vídeo de divulgação do enredo. A sinopse reforça a subsistência dessas mulheres e suas famílias a partir do ganho.

Por meio de práticas como essas, a Bica de Itapuã se tornou ponto de encontro e culminou em uma das heranças mais importantes que a Bahia de Todos os Santos oferece ao Brasil. Com o balanço dos balangandãs e as saias rodadas, as Marias ocupam a cidade com sua cantoria, seus quitutes e danças; seu rito. É possível enxergar os pontos de localização dessas mulheres: o beira-rio, o farol, o mercado da cidade e o litoral soteropolitano, onde as ganhadeiras se encaminham para as escadarias com seus vasos e flores para lavar a alma da região, bem como lavar a alma e purificar seus filhos na fé, ao ritmo de danças e toques, festejos em procissão e rezas.

Essas localizações auxiliam na percepção de projeto que os carnavalescos pretendem levar para o Sambódromo, ou seja, são elementos que possuem certa materialidade para
carnavalizar em alegorias e fantasias. Poeticamente, o texto evidencia que esses locais não são simplesmente pontos turísticos, mas são encontros de devoção e purificação do corpo que reza, dança e, por fim, samba.

A Viradouro se encontra com as ganhadeiras, aprecia e agradece pela trajetória de sustento e luta por igualdade e liberdade. Maria da Paixão dos Santos Anjos – ou Maria do Xindó – está ligada a Escola que apresenta sua trajetória, onde a semelhança do ano de nascimento, da localização próxima a uma baía e da paixão pela vermelha e branca de Niterói serão os elos de representatividade, refletindo a figura da Ganhadeira histórica na própria comunidade do samba.

Com isso, a Unidos do Viradouro prepara a emoção para 2020, pede o canto forte de uma comunidade que aprecia uma história de lutas e vitórias, onde sua própria ancestralidade é encontrada. Abre-alas para a cultura, para o reconhecimento e aproxima da realidade das
escolas de samba, à figura da mãe que carrega consigo a força da mulher brasileira: Marias da Bahia, Marias do Rio de Janeiro, cantando de alma lavada sua própria essência.

Um feliz Carnaval com muito axé!

Autor: Rafael dos Santos Moreira – [email protected]
Gradiando em Ciências Sociais/UFRJ
Membro Efetivo OBCAR/UFRJ
Coordenador de Eventos e Memória/OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Max Oliveira
Doutorando em História/UFRRJ
Instagram: @observatoriodecarnaval_ufrj

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