O Lalá de lá (1981) e o Lalá de cá (2020): Luzes, confetes e serpentinas para a Imperatriz de Ramos

Nome do enredo: Só Dá Lálá
Nome do carnavalesco: Leandro Vieira

A reedição de um enredo é algo sempre desafiador para um carnavalesco, uma vez que a memória afetiva da agremiação e do grande público pode gerar uma expectativa maior do que algo inédito. Em 1981, a Imperatriz Leopoldinense levou para a avenida a história do compositor Lamartine Babo – enredo que seria do Salgueiro no ano anterior – uma narrativa desenvolvida pelas mãos do carnavalesco Arlindo Rodrigues. Na parte musical, Zé Katimba, Gigi e Serjão escreveram um samba curto, porém empolgante e que caiu nas graças do público. Com o desenvolvimento de alegorias bem-acabadas e de fácil identificação, a escola conseguiu uma comunicação imediata com o público. Mesmo sob forte sol e calor, os presentes nas arquibancadas entoavam gritos de “É campeã!” e a Imperatriz consagra o bicampeonato naquele ano. É com esta memória que em 2020, a escola de Ramos disputará uma vaga no Grupo Especial desfilando pela Série A mas sob o poder da criação gerado pelas mãos do supercampeão carnavalesco Leandro Vieira.

É preciso entender os pontos cruciais do desenvolvimento carnavalesco daquela época e para isso temos a década de 80 como grande pano de fundo. O desenrolar dessa década foi de extrema importância para o mundo do carnaval com o alcance de realizações como a criação do Sambódromo em 1984 que, junto com os desdobramentos da Intendente Magalhães, integram o molde vigente dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. A cultura popular vinha de uma maré de incertezas desde a década de 40 onde o Estado Novo de Getúlio Vargas decide abrir a avenida Presidente Vargas cujo traçado passaria por cima da Praça Onze, uma região que possuía forte atividade carnavalesca com a fundação de agremiações, ranchos e sociedades de carnaval que consolidaram o surgimento de cantigas carnavalescas como a marcha-rancho, o samba, a batucada, o samba-enredo e a marchinha. E Lamartine Babo, o homenageado da Imperatriz naquela manhã ensolarada de 1981, é considerado o rei das marchinhas.

A marchinha é um produto musical carnavalesco resultado da mistura rítmica da polca, rag-time norte-americano, dobrados de bandas militares e até mesmo marchas populares portuguesas. Durante pouco mais de meio século o carnaval carioca se desenvolveu sem música específica e os bailes mascarados da corte – uma possível fixação do período de origem do carnaval – utilizavam-se de motivos e gêneros musicais distintos como polca, valsa, xote e trechos de óperas famosas para a diversão dos foliões. Portanto, além de uma aglutinação cultural de motivos e ritmos musicais distintos, a marchinha é uma espécie de resistência carnavalesca de grande importância. Só para deixar exemplificado: após cair no agrado popular, a marchinha de Joubert de Carvalho intitulada “Tá-í” serviu para projetar não somente o nome de seu autor como o de sua intérprete, Carmen Miranda. Uma linguagem musical tipicamente carnavalesca reconhecida internacionalmente.

O título do enredo da Imperatriz naquele ano faz uma alusão a marchinha de 1930 de autoria intitulada à Lamartine Babo “O Teu Cabelo Não Nega” mas que foi originalmente composta pelos pernambucanos Irmãos Valença, autores de frevos-canções e maracatus no carnaval de Pernambuco. Lamartine já era bastante conhecido no circuito musical do carnaval carioca com sambas e marchinhas de sua autoria nos bailes e concursos. Porém em 1932, Lamartine mudou a letra da canção original dos Irmãos Valença, modificou dois compassos e com a ajuda de Pixinguinha, escreveu uma introdução para a música. Após ganharem uma ação por plágio em todas as instâncias, o nome dos Irmãos Valença aparece como autores principais dessa marchinha. Lamartine Babo se aventurou também na composição de hinos de clubes de futebol, mas continuou compondo nos grandes circuitos de cantigas carnavalescas junto de nomes como Ary Barroso, Germano Augusto, Vicente Paiva, Eduardo Souto e até Noel Rosa. A partir do final da década de 30, o carnaval carioca se oficializa e aparecem as escolas de samba. Com o surgimento da batucada – outra linguagem musical carnavalesca – instrumentos como cuícas, tambores, surdos, caixas, tamborins, reco-recos e ganzás passaram a integrar em definitivo o carnaval.

Em 1981, a verde e branco de Ramos apresentou o que se espera de uma escola vitoriosa: visual bonito, correção nos quesitos de pista e um ótimo diálogo com o público com personagens típicos do carnaval exaltados por Lamartine como pierrôs, arlequins e colombinas. O luxo do desfile da Imperatriz deixou o problemático título do enredo em segundo plano. Apesar de movimentos sociais envolvendo grupos negros perpassarem toda a história do país, durante a década de 80 o Brasil passava por um momento delicado no desenvolvimento de movimentos sociais e raciais devido aos desdobramentos do golpe militar de 1964 e a instauração da ditadura – vigente no ano daquele desfile – onde os militares transformaram manifestações de cunho racial em atos impatrióticos e o mito da democracia racial se perpassou durante anos.

Em 2020, além de toda a polêmica envolvendo a composição dessa marchinha da década de 30, os versos que afirmam ser possível amar a mulata – uma imagem carnavalesca problemática – pois “a cor não pega”, causaria revolta numa canção lançada nos dias de hoje. Uma escolha feita pelo próprio carnavalesco de retirar “O Teu Cabelo Não Nega” e manter somente o “Só Dá Lalá” como título do enredo para o carnaval de 2020 mostra a preocupação de uma releitura que vai além dos conceitos estéticos apresentados por Arlindo Rodrigues no carnaval de 1981: também se preocupa em assentar significativas mudanças na interpretação do conteúdo datado de algumas cantigas carnavalescas que precisam ser reavaliadas e vistas com uma análise crítica especializada, ainda mais com a evolução de movimentos sociais e raciais que discutem tais interpretações.

É sabido que os enredos trabalhados pelo carnavalesco Leandro Vieira possuem desenvolvimento baseado em críticas sociais, que dão o tom a um original processo de criação artística. Sem sinopse divulgada até o presente momento – talvez por ser uma reedição que não carece de novo samba – e somente com a confirmação da cantora Iza à frente da Rainha de Ramos, a Imperatriz conta com a experiência de seu novo carnavalesco na elaboração de enredos críticos para dar uma nova linguagem a essa narrativa de 1981.

Como músico e estudante do carnaval, desejo ver um desfile original na avenida. Um desfile que retrate as cantigas carnavalescas de forma justa, com reflexões acerca de discursos ultrapassados, mas também como um ato de resistência cultural e musical em tempos tão incertos como os que vivemos. Que a Imperatriz pegue o “Trem da Alegria” na estação de Ramos e realize uma bela viagem pela história do carnaval carioca na Marquês de Sapucaí e faça desse desfile uma alegria infindável. Desejo um bom carnaval a todos e assim como Zé Katimba e sua trupe escreveram no samba de 1981: “Quem dera que a vida fosse assim: sonhar, sorrir, cantar, sambar e nunca mais ter fim”.

Autor: Victor Gonçalves – [email protected]
Música/UFRJ
Membro efetivo do OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Tiago Freitas
Doutorando em Linguística/UFRJ
Doutorando em História da Arte/UERJ
Instagram: @observatoriodecarnaval_ufrj

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