“O voo da águia sobre a terra sem males, o guajupiá de Madureira!”

O enredo da Portela em 2020 vem com uma roupagem de conscientização. Como pano de fundo está a cidade natal do povo carioca. Os carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage assumem o compromisso de resgatar a história indígena, tomando como foco, aqueles que foram os verdadeiros pioneiros na cidade do rio de Janeiro, muito antes do “descobrimento” do Brasil pelos portugueses, mais precisamente, da formação desses povos até sua supressão pelo Homem.

Baseado nesse ciclo, o título do enredo “Guájupia: terras sem males” (Yvymarãe’ỹ, em tupi) traz como referencia o mito de uma terra onde não haveria fome, guerras ou doenças. Indo mais além, seria a terra em que há o bom convívio e o altruísmo, logo, tudo que se faz e pelo bem estar do povo e para a organização social.

Por meio do texto base, observa-se que os carnavalescos pretendem subdividir o enredo em cinco etapas que ilustram uma cronologia histórica e social, uma verdadeira aula de história na avenida. A Portela irá ilustrar de forma carnavalizada o cenário primitivo e natural das organizações das tribos tupinambás, expondo de maneira bastante enobrecedora como se ordenavam socialmente esses povos indígenas, expondo assim suas formas de sobrevivência e evolução cultural. Como desfecho, a Portela propõe uma reflexão de como o Homem de hoje tem a aprender com os princípios e práticas dos grandes pioneiros e fundadores da cidade “maravilhosa”.

A viagem portelense começa contando a história de Irin-Magé, uma grande figura da mitologia tupinambá, que após a uma grande destruição divina na terra, foi o único escolhido por Moná (Deus tupinambá) para retornar a terra, a fim de que ele a repovoasse de homens melhores. É nesse momento que surge, o personagem fundamental para essa narrativa: Maíramûana. Filho de Irin – Magé, é o grande profeta transformador, dotado de poderes sobrenaturais, o grande educador da “nova terra”, responsável por todos os costumes e regras de organização social. Maíramûana! Maíramûana! O grande criador do Guajupiá, a terra sem meles e do bem-viver.

A partir disso, a escola assume o compromisso de exaltar a natureza, resgatando os tempos em que o povo do Rio tinha maior consciência na preservação do meio ambiente. A terra sem males é a terra em que não há queimadas, desmatamento e apropriação das riquezas naturais a fim de obter-se lucro pra uma pequena camada social, é aterra em que todas as ações têm por finalidade o bem comum.

social, é aterra em que todas as ações têm por finalidade o bem comum. O grande azul da Portela se erradica nos céus e águas da baía de Guanabara, representando a natureza sagrada do Guajupiá. A representação da baía é feita de forma saudosa, de modo a embarcar na nostálgica beleza daquela que outrora era o rio sagrado, rico em peixes e mariscos; a mesma que, nos dias atuais, em virtude da intervenção do Homem está carente de vida e exala poluição.

Com isso, a indagação final que a agremiação traz a seu público, é: GUAJUPIÁ, O QUE FIZEMOS DE TI? Nos últimos pontos trazidos pela sinopse, percebe-se o intuito de estabelecer uma relação entre Baia de Guanabara versus Rio de janeiro, em que a baía é o microcosmo da cidade do Rio de Janeiro, a qual na época dos tradicionais Tupinambás era preservada, até a intervenção do Homem branco. Essa associação é feita a fim de que gere uma reflexão acerca de como as coisas nessa terra poderiam tomar outros rumos se a nossa diversidade étnico-cultural não fosse apagada de forma tão brutal pela humanidade. Além disso, é notório o grito de alerta portelense a todo o povo, para com a preservação do meio-ambiente, e também, para aqueles que ocupam o lugar de Maíramûana e governam o Guajupiá Tupinambá, aonde ano após ano vem sendo agredido de forma brutal. Esse alerta se desdobra não só pela terra, mas pelo apagamento constante dos povos indígenas, os verdadeiros donos desse chão.

Desta forma, a Portela em 2020, volta ao passado e veste sua narrativa de indígenas que clamam por um lugar de sustentabilidade no presente e no futuro.

É hora de saudar Irin-Magé, os céus de Monã, a bravura de Maíramûana e o povo da majestosa Karioká. Na Marquês de Sapucaí irá ecoar um grande brado e clamor a todo o poder e importância que a natureza emana pelos ares da Guanabara e por todas as vidas tupinambás que resistiram e resistem até hoje. Saudemos a terra sem males!

Autora: Alissa de Sá
Letras/UFRJ
Coordenadora de qualidade acadêmica/OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Tiago Freitas
Doutorando em Linguística/UFRJ
Doutorando em História da Arte/UERJ
Coordenador Geral/OBCAR/UFRJ
Instagram: @observatoriodecarnaval_ufrj

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