Rocinha: uma história de sonho, luta, fé e liberdade! Saravá Maria Conga!

Nome do enredo: A guerreira negra que dominou dois mundos
Nome do carnavalesco: Marcos Paulo

A Acadêmicos da Rocinha irá apresentar no carnaval de 2020 um enredo baseado na história de Maria da Conceição, ou melhor, de Maria Conga: mulher negra africana, escravizada ainda na infância e que desembarcou do navio negreiro no Brasil onde escreveria sua história de luta pelo sonho da liberdade e da igualdade. Vendida, cativa, conviveu com o açoite e as agruras que marcavam a rotina dos milhões de escravos do Brasil colonial. Conquista a alforria, mas não se contenta: sua vida é lutar! Funda um Quilombo, na cidade de Magé, para proteger os refugiados. Desencarnou, mas foi consagrada no reino das almas. É a história desta preta velha benzedeira que irá embalar o desfile da Rocinha no próximo carnaval.

Embora seja um enredo biográfico, o próprio texto da sinopse da escola evidencia já em sua introdução dois pontos fundamentais para a compreensão do desenvolvimento do enredo: 1) pretende, falando de sua homenageada, valorizar os heróis do Brasil Negro; 2) Maria Conga terá sua trajetória contada em dois mundos: o nosso, carnal e o espiritual.

Trata-se de um enredo que, a partir de uma biografia, irá abordar não apenas as mazelas do violento e cruel passado escravocrata, mas sobretudo visa a valorização da história de resistência do Brasil negro através de personagens que merecem ser conhecidos e reconhecidos por sua trajetória. O sambódromo da Marquês de Sapucaí, nesse contexto, torna-se palco privilegiado pois, graças a relevância do carnaval carioca, os discursos e as narrativas ali produzidos ressoam. O caráter pedagógico das agremiações carnavalescas é, portanto, efetivo e não apenas um detalhe sugerido por intitularem-se “escolas”. Foi através do carnaval que algumas figuras importantes da história do país foram popularizadas, eternizadas pelos versos de sambas, alegorias e fantasias que ajudaram a contar suas trajetórias. Assim será em 2020 no Acadêmicos da Rocinha.

Maria Conga foi, em 1988, reconhecida pelo poder público municipal como heroína da cidade de Magé. No centenário da Abolição veio o reconhecimento oficial. No plano espiritual, o reconhecimento à vovó, liderança da linha dos Pretos Velhos de Iemanjá, é anterior. A sinopse tem quatro subdivisões que possivelmente correspondem a forma pela qual o enredo será setorizado: “Festa para a princesa congolesa”; “O Destino e o batismo, Maria da Conceição”; “O Quilombo de Maria Conga, luta, resistência e acolhimento”; “Guiada por espíritos de luz ao reino das almas”.

Na primeira seção a sinopse adota um tom descritivo e cria um cenário para contextualizar o nascimento da princesa de uma tribo congolesa, justamente a personagem do enredo. Cita-se um ambiente festivo de alegria e fartura sob a luz do luar. Segundo a tradição local, o nome da alteza não era escolhido, mas sim soprado pelo vento em uma noite de lua cheia sete anos após seu nascimento. É neste cenário ritual que chega o invasor e aprisiona os locais. Além de perder a liberdade, a condição de escravo também desumanizava aqueles que enfrentariam o mar bravio na degradante condição do negreiro, do Congo à Bahia. Assim chegou ao país a princesa menina, separada da família e agora mais uma entre os negros mercantilizados.

O batismo cristão era uma obrigação, cabia aos senhores de escravos garantir que seus cativos recebessem o sacramento. É através desse batismo que a princesa receberá seu nome: Maria da Conceição. Aos 18 anos de idade, é vendida para um fazendeiro alemão e chega a cidade fluminense de Magé. Maria, nos diz a sinopse, é uma importante liderança entre os escravos e se caracterizava pela luta incessante pela liberdade mesmo em meio ao sofrimento inerente à condição de cativa. É na segunda seção da sinopse que é abordada sua alforria, no ano de 1854, mas isso não é o bastante: faltavam direitos e garantias aos alforriados. A alforria não vinha acompanhada de nenhuma opção que garantisse a subsistência dos ex-escravos.

É neste ínterim que, Maria Conga, como preferia ser chamada, organiza sua resistência e luta por liberdade e constrói um espaço cujo objetivo era proteger e abrigar negros e negras alforriados e refugiados: um Quilombo. Existente até hoje, o Quilombo Maria Conga foi reconhecido como comunidade quilombola remanescente pela Fundação Palmares em 2007. Como outros territórios quilombolas do país, enfrentam hoje os desafios da garantia de seu território tradicional.

Ali no Quilombo, em Magé, Maria Conga irá viver até o fim do século XIX quando, na parte final da sinopse, é guiada por espíritos de luz e graças a sua liderança, acolhimento e luta na terra é consagrada como liderança da linha dos pretos velhos de Iemanjá. Transforma-se em uma entidade. É assim que a sinopse se encerra, com a ascensão da guerreira ao plano espiritual onde sua doçura transforma-se em direcionamento e sua luta por liberdade converte-se em força nas batalhas por justiça e direitos. Eterniza-se livre, como sempre fora sua alma.

Trata-se de uma sinopse objetiva, clara e de fácil leitura. O texto é construído de forma linear, recontando a biografia da personagem e, a partir dela, incorpora debates e
questionamentos ainda hoje relevantes para a sociedade brasileira. Desejo à Acadêmicos
da Rocinha um grande carnaval e que a luta incessante pela liberdade da princesa escravizada nos inspire a resistir aos tempos de obscurantismo e intolerância. Saravá Vó
Benzedeira!

Autor: Mauro Cordeiro de Oliveira Junior – [email protected]
Doutorando em Antropologia – UFRJ
Membro efetivo do OBCAR
Leitor orientador: Max Fabiano Rodrigues de Oliveira
Doutorando em História – UFRRJ
Instagram: @observatoriodecarnaval_ufrj

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