As estórias e cores do Cariri Cearense pelo olhar da Santa Cruz 2020

Nome do enredo: Santa Cruz de Barbalha: Um Conto Popular no Cariri Cearense
Nome do carnavalesco: Cahê Rodrigues

Para o carnaval de 2020, a GRES Acadêmicos de Santa Cruz entoa o enredo “Santa Cruz de Barbalha: Um Conto Popular no Cariri Cearense”, assinado por Cahê Rodrigues e Claudio Vieira. A agremiação narra os feitos, personagens, estórias e a cultura da cidade cearense Barbalha, na qual se confunde com o ideário do nordeste brasileiro.

Inicialmente, o título da sinopse nos contextualiza dois pontos principais a serem tratados no enredo: a religiosidade, atestada na primeira parte da inscrição, “Santa Cruz de Barbalha”, em que se baralha à identidade, tanto da escola quanto da cidade; e o “conto popular no Cariri Cearense”, que valida o tipo de narrativa tratada, localizando-a, mas, ao mesmo tempo remete à maior festa popular , o carnaval.

O conto apresentado possui o aspecto formal e o narrador, pertencente às terras da região do Cariri, linguagem da variante local. Seu olhar, nos primeiros versos, reporta-nos às linhas de Gonçalves Dias, em “Canção do Exílio”:

“Meus olhos arranha o céu
Desse império que ajudei a construir
Mas o coração dói de saudade
Da minha Barbalha…
Lá no meu Cariri…”

A saudade retratada nesta ótica é de alguém pertencente àquela vida que ama este chão, sendo materializado e concretizado no samba enredo: “Saudade tenho do meu Cariri/ Minha terra onde nasci”.

E este padrão se repete em alguns instantes ao longo do texto: “Sabe quem já andou por lá/ Até o Rei do Baião passou por lá…/ Erguida pelo povo de lá/ E vai levar ocê pra lá!”. No entanto, o intuito do nosso narrador é exaltar e nos convidar para conhecer essa cidade, a partir da perspectiva de sua história, trajetória e atualidade.

A lida histórica é remontada a começar dos seus moradores nativos, os Cariris, que com a presença e catequese do homem branco, por meio das Entradas e da Igreja, formaram imaginário fantástico da localidade, tendo por entidades:

“Do papafigo, pai-da-mata,
Rasga-mortalha e
Assombração…”

Na narrativa há alusão à primeira moradora que batizou o lugar, que como uma “medalha”, forjada em metal para uma pessoa ilustre, esta ilustre desconhecida que ninguém sabia o nome, apenas conhecida por sua importância aos que chegavam. Principalmente, aos que viam de longe e suas vidas célebres a terra do interior conhecia como Lampião, Padre Cícero e o Príncipe Regente.

A religiosidade e a devoção a Santo Antônio, partes indispensáveis para compreender e viajar nesta narrativa. Padroeiro do lugar, este é requisitado para todas as dores e males, prosperando a fé do lugar. Sua festa transpõe a barreira da religião e cultura, quinze dias de diversão e crença!

“Você precisa ver
A festa do padroeiro
São duas semanas inteiras
De muita fé e brincadeira
Noite das Solteironas
Cantigas de roda
Dança de coco
Versos de feira
Romeiros e carpideiras
Aos pés do pau da bandeira
Erguida pelo povo de lá…”

As cores de Barbalha, descritas como as linhas do autor romano Vírgilio em “As Bucólicas”, em que os verdes pastos e o ambiente pastoril, quebram o imaginário que temos ao das cores áridas do sertão nordestino, na quais podem ser constatadas em versos como “Dos verde Canaviá” terra boa das águas medicinais…”. E se complementam pelas imagens das bandeirinhas das festas e do seu povo.

Em comparação ao samba enredo, este olhar torna-se do narrado, permitindo que a narrativa fique mais orgânica, e propõe aos espectadores uma experiência de ter o mesmo olhar e de estar caminhando junto com o narrador pelas ruas e campos de Barbalha.

Nas últimas estrofes, a cultura de forró, dos repentes e de suas festas mais próprias é associada ao carnaval carioca, fechando assim o conto popular de fé e alegria com um convite para conhecer Barbalha.

Apesar de ser uma narrativa construída de forma simples – e com muita qualidade – o aspecto formal é a chave para o efeito que se propõe causar e dá a partida para a viagem só de ida para Barbalha. A análise dos trechos e das palavras é algo fundamental para compreender a jornada e a fé da cidade de Barbalha, pois estas formam uma rede, um maravilhoso cordel com cores e sonhos.

Que façamos uma incrível viagem com a Santa Cruz de Barbalha.

Autora: Thais Montenegro
Letras/UFRJ
Membro efetivo do OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Mauro Cordeiro
Doutorando em Antropologia e Sociologia/UFRJ
Instagram: @observatoriodecarnaval_ufrj

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