Tijuca, unida pelo sonho de um Rio de sonhos

Nome do enredo: “Onde moram os sonhos”
Carnavalescos: Paulo Barros, Helcio Paim e Marcus Paulo

Para o carnaval de 2020, a Unidos da Tijuca levará para avenida o enredo “Onde moram os sonhos” desenvolvido pela comissão de carnaval composta por Hélcio Paim, Marcus Paulo e Paulo Barros. O desfile marcará o retorno a escola do já consagrado carnavalesco Paulo Barros, após cinco anos longe da agremiação. Tendo como pano de fundo eventos importantes da área de arquitetura e urbanismo e que terá o Rio de Janeiro como sede no ano que vem, como por exemplo o 27° Congresso Mundial de Arquitetura e o Fórum Mundial de Cidades, a escola do morro do Borel terá a missão de representar na avenida uma das mais antigas profissões: o arquiteto.

A sinopse é assinada pelo próprio Paulo Barros e mais três pesquisadoras da Casa da Ciência da UFRJ, Isabel Azevedo, Ana Paula Trindade e Simone Martins. O texto é muito claro e mostra uma história linear que vem desde as grandiosas construções egípcias, passando pelas cidades e castelos da era feudal, até chegarem aos dias atuais com os prédios inteligentes erguidos no meio do deserto.

Paulo Barros para 2020 é o grande arquiteto dos sonhos na Marquês. Barros traduz na
narrativa elementos líricos que emocionam pela simplicidade, apesar da grandiosidade
do tema. Sonho, aliás, que percorre toda a mística do texto. O sonho da moradia, o
sonho da paz nas comunidades, o sonho de um lugar mais sustentável para se viver, o
sonho do ordenamento social.

Além dos sonhos, a sinopse apresenta também um grande teor crítico. Questões como
desmatamento, poluição dos rios e mares, enchentes, descarte irregular do lixo, falta de
planejamento urbano, entre outras questões, estarão presente no desfile de 2020 na
Tijuca.

Grosso modo, a construção dessa sinopse está toda embasada na relação do homem com
o espaço/natureza, ou seja, na necessidade do homem em buscar abrigo para realizar suas atividades e proteção das condições adversas, seja construindo grandes sarcófagos
para abrigarem os corpos dos faraós, vistos como divindades pelos seus súditos ou
erguendo muralhas e castelos para proteger-se dos invasores, ou levantando templos e
igrejas monumentais para cultuarem os seus deuses. Tudo isso compõe o primeiro de
três pilares que sustentarão o desfile: o passado. Nele podemos enxergar um grandioso
legado arquitetônico deixado pelas antigas civilizações e que servirão de base para as
atuais construções.

O segundo pilar trata do presente. Aqui chegamos nos dias atuais onde crescimento
desordenado das cidades atrelado a falta de planejamento urbano desemboca num
grande cenário caótico e com danos talvez irreversíveis para natureza: desmatamento,
enchentes, falta de saneamento básico, poluição do ar, da terra, das águas. Neste setor,
os carnavalescos trabalharão o lado crítico do desfile, batendo em teclas atuais e que
podem gerar boas discussões e reflexões.

Finalizando o desfile, o terceiro pilar fica por conta do futuro. Intitulado na sinopse
como “a cidade que pode ser maravilhosa”, nos traz a ideia de uma cidade planejada e
totalmente sustentável, um contraponto a todo esse caos em que vivemos no presente.
Nessa cidade, há muito verde, não há trânsitos, nem poluições ou violência, todos têm
acesso a moradias dignas e confortáveis, sem risco de desabamento e serviços públicos
de qualidade, ou seja, uma cidade totalmente planejada e arquitetada em comunhão com
a natureza. Entretanto, para se chegar a esse status é necessário que o homem repense
suas atitudes e se torne um alicerce fundamental para construir um novo amanhã.

No que se refere a parte plástica do desfile, penso que é quase um consenso não esperar
menos que algo grandioso, tendo como referência os grandes desfiles que o
carnavalesco fez na Unidos da Tijuca nos anos anteriores. Um enredo leve e de fácil
compreensão pode fazer o sonho da Tijuca acontecer novamente. Tentando dar vida a
um possível desfecho de desfile, imagino que essa cidade que pode ser maravilhosa e
sustentável, livre de todas as tensões do presente seja a representação do próprio Morro
do Borel.

Paulo Barros e a Tijuca arquitetam um grande sonho carnavalesco. Prestam homenagem
aos criadores no ramo da construção civil, lamentam a intervenção humana no meio
ambiente e consagram o Rio como o melhor lugar arquitetado pelas mãos do criador
maior.

Por fim, é notável que o sonho da tijuca mora na vontade de ser campeã e que o título
virá como um novo sol que iluminará todo morro do Borel. Sendo assim, desejo que a
Unidos da Tijuca “desfile seu canto de amor e luta” e provoque em nós, foliões, um
movimento de renovação dos sonhos e também um processo que nos conecte ao
passado de legados arquitetônicos, nos faça analisar o presente a partir dos alertas da
ação do homem que degrada o meio ambiente e que nos leve a um futuro de
desenvolvimento sustentável e de igualdade social entre os povos.

Feliz Sonho, Tijuca!

Autor: Yuri Alves – E-mail: [email protected]
Ciências Sociais/UFRJ
Membro Efetivo/OBCAR/UFRJ
Leitor orientador: Mauro Cordeiro
Doutorando em Antropologia e Sociologia/UFRJ e
Tiago Freitas
Doutorando em Linguística/UFRJ
Doutorando em História da Arte/UERJ
@observatoriodecarnaval_ufrj

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