Por Guilherme Ayupp. Fotos de Allan Duffes, Isabel Scorza e Magaiver Fernandes

Os sambistas clamaram, a Grande Rio demorou, mas atendeu. A escola optou por resgatar o seu DNA de enredos mais culturais como nos seus primeiros anos. O desfile da agremiação na madrugada deste domingo de carnaval deixou bastante claro que a escolha foi acertada. Cantando com a alma, evoluindo como há anos não se via e com uma plástica de extremo bom gosto, mesmo com um enredo denso.

Mas nem tudo foram flores. Se a escola evoluiu bem no aspecto da espontaneidade dos componentes, cometeu diversos erros de andamento, deixou abrir buracos e para tornar a situação ainda mais preocupante entrou com o seu abre-alas desacoplado na pista. Mesmo sem estar acoplado a escola ficaria com seis alegorias, já que levou cinco. Porém, o início tenso desembocou em uma evolução irregular, que pode afastar a escola do sonhado título. A Grande Rio se apresentou com o enredo ‘Tatalondirá: o canto do caboclo no Quilombo de Caxias’. A tricolor foi a quinta a desfilar e usou 68 minutos para sua apresentação.

Comissão de Frente

Proposta complexa, porém bem executada da dupla Hélio e Beth Bejani. A apresentação buscou sintetizar o rito mestiço diversificando o culto aos orixás, inquices e os caboclos. E um primeiro momento os dançarinos estavam reunidos na forma de Iansã e Oxóssi, os orixás que regiam a cabeça do célebre Pai de Santo. Eles estavam em pequenos elementos alegóricos, que em um segundo momento eram transformados em ‘ocas’, de onde saíam índios caboclos. No fim esses índios subiam no tripé e faziam um evolução com forte traço corporal, sobre a água. Um pajé nas cores da escola complementava a apresentação que era finalizada com a inscrição ‘Respeita o meu axé’. Uma forte apresentação.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Notória evolução da dupla Daniel Werneck e Taciana Couto. Mais entrosados, com os movimentos muito bem feitos e grande cumplicidade entre eles. As três apresentações nos cinco módulos de julgamento transcorreram sem erros. O casal reverenciou Exú, com figurinos que dialogam com o poema de Abdias Nascimento, mesclando elementos de Exu-Barra e Exu-Catiço. A roupa possuía um minucioso trabalho em búzios e miçangas.

Enredo

O desfile se iniciava com os delírios que conduziram um menino do interior baiano, nascido na cidade de Inhambupe, à visão fantástica de um homem coberto de penas, o Caboclo da Pedra Preta, guia e fio condutor do enredo. Na sequência da narrativa, João deixa a pequena Inhambupe e chega à mítica Salvador, cidade solar, cintilante, que festeja os caboclos, no 2 de julho; cidade onde Pai Jubiabá desafiava outros candomblés, promovendo ritos “impuros”, mistura de orixás, inquices e caboclos.

O desfile mostrou, na sequência, que João desembarcou no Rio de Janeiro e fincou as suas raízes na Baixada Fluminense, Duque de Caxias, transformando a “Nova Gomeia” em um cenário de festa e fartura. Baixavam os caboclos na Baixada, sob a proteção de Pedra Preta, no transe do Juremá. O rito do candomblé de Joãozinho misturava a matriz Angola, o culto da jurema sagrada (praticado nas regiões Norte e Nordeste) e as especificidades do candomblé de caboclo.

A relação de Joãozinho com o carnaval foi abordada no setor 4, ‘A rua: carne de carnaval’. Em seguida narrativa chegou a outro momento do enredo, dedicado aos palcos. João reinou nos grandes teatros e brilhou nos maiores cassinos. Para finalizar, o desfile entoará um canto de tolerância, em defesa da liberdade religiosa e da diversidade cultural.

Não é simples defender na avenida um proposta tão densa. Afinal é preciso estar atento ao fato de que muitas pessoas desconhecem certas especificidades das religiões de matriz africana. Foi por isso que os carnavalescos optaram por figurinos bem didáticos, principalmente nos setores iniciais. Depois que o desfile chegou nos aspectos mais conhecidos do homenageado a compreensão se tornou mais facilitada.

Alegorias e adereços

Conjunto imponente, como pedia o enredo. Na primeira alegoria estavam representadas as raízes ancestrais afro-ameríndias de Joãozinho da Gomeia. As soluções estéticas apresentadas foram muito felizes. Um xirê no terreiro da Gomeia foi representado na segunda alegoria do desfile. Para a terceira alegoria o conceito utilizado foi a transformação do terreiro da Goméia em uma aldeia indígena. Em seguida veio o quarto carro, com homenagem à diversidade de Joãozinho na relação com o carnaval. O encerramento foi com uma alegoria pedindo o fim da intolerância, com a presença de líderes de diversas religiões.

Fantasias

Extremo bom gosto de Leonardo Bora e Gabriel Haddad. Em uma noite que contou com Rosa Magalhães, Tarcísio Zanon, Marcus Ferreira, Leandro Vieira e João Vítor Araújo, a dupla de carnavalescos da Grande Rio deu nome e sobrenome. As alas possuíam requinte e bom gosto, aliando leitura e o emprego de diversos tipos de materiais.

Evolução

O calcanhar de Aquiles da Grande Rio em 2020. Ficou a sensação que este quesito pode comprometer o sonhado campeonato. Primeiro, a escola teve extrema dificuldade para colocar o abre-alas na avenida, ocasionando um buraco nos primeiros metros da pista. Mais à frente no segundo módulo um novo buraco e no setor 10, de novo um clarão. A escola provavelmente perderá décimos nos cinco módulos de julgamento.

Harmonia

Com grandes escolas desfilando na noite, a Grande Rio, que foi a quinta, até então apresentou a melhor harmonia do desfile. Alas passaram cantando o samba com uma força que a Grande Rio não apresentava há alguns anos. No final do desfile a agremiação foi ovacionada pelos setores finais.

Samba-Enredo

Cotado como obra mais completa da safra deste ano, o samba da Grande Rio superou todas as expectativas. Rendeu muito bem do início o fim. Mérito da atuação de gala do intérprete Evandro Malandro. Certamente foi a melhor atuação de sua carreira.

Outros Destaques

A bateria levantou a Sapucaí com um ritmo alucinante, com bossas muito criativas. Fafá incorporou o personagem. Ele veio caracterizado como Ramsés. Isto porque Joãozinho usou essa fantasia no baile do Municipal no ano de 1962.

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