A Colorado do Brás foi a segunda agremiação a cruzar a pista do Sambódromo do Anhembi na segunda noite de apresentações do Grupo Especial. A escola se apresentou com o enredo ‘Que rei sou eu?’ buscando melhorar a 11ª colocação obtida em 2019, quando retornava para a elite do carnaval de São Paulo 17 anos depois. A escola encerrou sua apresentação com 64 minutos.

A apresentação serviu para a agremiação buscar sua consolidação na elite do carnaval paulistano. Embora a harmonia e evolução tenham deixado a desejar, o conjunto de fantasias surpreendeu por seu alto nível. As alegorias não seguiram o mesmo padrão, mas em relação a concorrentes diretas esteve superior. A Colorado muito provavelmente desfilará no Especial pela terceira vez seguida em 2021.

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Comissão de Frente

A comissão no desfile da Colorado do Brás apostou em um proposta mais abstrata. Eram dois personagens principais, que brincavam com o tempo e o espaço na história ao longo da atuação dos dançarinos na avenida. O touro encantado representou a forma com que o Rei Dom Sebastião se encantou, “desaparecendo” nas areias dos lençóis maranhenses. Os demais integrantes do grupo representaram as jóias da coroa do rei.

O touro encantado vagava pela pista transitando pelas joias, que o
seguiam e o cercavam, formando um círculo que representava o formato da coroa. O touro, sempre que possível, tentava se libertar, saindo do círculo e buscando novos caminhos para trilhar. Nas sequências coreográficas, filas, círculos e “montinhos desorganizados” se repetiam. Jóias soltas em alguns momentos se desgarraram do grupo realizando a sua dança. Como se uma pedra se soltasse da coroa.

Fugindo a uma tendência da maioria das comissões o grupo se apresentou sem tripé. Com uma belíssima indumentária eles iniciaram muito bem o desfile da escola. A mistura de cores vivas deu um lindo efeito. A dança demonstrou sincronia, embora não tenha causado impacto no público.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal desfilou representando o grande evento realizado para comemorar o nascimento do herdeiro da coroa portuguesa, onde todos esperavam com todo fervor a chegada do novo rei. A porta-bandeira vestia um figurino voltado para o enredo, destacando pela modelagem de alta-costura e padrões de costura diferenciados. O mestre-sala usou roupa em corte de alfaiataria, para representar a vestimenta da época usada por grandes homens da corte portuguesa, onde a elegância e a sofisticação tomavam conta dos salões nobres de Portugal.

A dupla se apresentou com uma indumentária sem os tradicionais e caros faisões. Mas engana-se que isso deixou o figurino com menos brilho. Com um tom de cores em roxo deu um belo contraste cromático com as alas iniciais da escola. A dupla fez uma dança correta, sem erros na segunda torre de julgamento. O entrosamento entre eles também merece destaque.

Como defende o manual do julgador, a tonalidade do canto não é um parâmetro de julgamento. Se a escola passar cantando o samba há de se aplicar a nota máxima. Algumas alas cantaram burocraticamente, outras nem isso. Por isso o desempenho na avenida foi insatisfatório. Houve um desencontro entre caixas de som da faixa inicial e final da pista aos 12 minutos de apresentação. Mas como a escola ainda iniciava seu desfile, isso não foi problema. O canto apresentou uma pequena melhora após os 38 minutos de desfile.

Quesito onde a escola esteve longe da perfeição. Alas poderiam ter evoluído mais, com espontaneidade. Passou muito burocrática pela avenida. Com um samba que possibilitava alas mais soltas, a agremiação pecou nesse sentido.

Samba-Enredo

A obra teve bom desempenho durante o desfile. Muito mérito mais uma vez para Chitão Martins. O intérprete novamente foi um dos destaques da Colorado, provando que já deixou de ser uma revelação. O refrão contagiava a escola, pois era muito forte. Serviu muito bem à apresentação da escola.

Bateria

A bateria foi buscar suas notas 10 com bastante ousadia e bossas criativas. O regulamento deste ano exige que para tirar 10 uma bateria teria de obrigatoriamente executar bossas. Em alguns momentos do samba os ritmistas executaram convenções. Somados a isso um ritmo com muito swing, destacando muito as marcações com um andamento que possibilitou um grande entrosamento com o carro de som.

Enredo

A Colorado iniciou o seu desfile trazendo na comissão, casal e abre-alas aspectos espirituais e abstratos que envolvem o homenageado, Dom Sebastião. O carro abre-alas fechava o setor com as encantarias e os mistérios que cercam a figura de Dom Sebastião. A partir da chegada do segundo setor a escola trouxe a famosa batalha de Alcácer-Quibir, explicitando o caráter ambicioso do homenageado. No terceiro setor a Colorado decidiu mostrar a parte religiosa, com alas representando judeus e cristão e a terceira alegoria, que apresentava um templo de fé. O quarto setor começou com um al de mosteiros e terminou com uma alegoria representando um baile de máscaras. No quinto setor do desfile, traços da cultura do norte e nordeste, como as alas que relembraram a Guerra de Canudos e o festival do Boi Bumbá. O desfile se encerra com Dom Sebastião como um Rei Encantado.

Fantasias

A ala de baianas desfilou logo no primeiro setor do desfile, com o figurino chamado ‘Arautos da fé’. Segundo a defesa da roupa as baianas representaram o sentimento de devoção. A roupa mostrava a fé no seu ato mais belo, a devoção. Nas primeiras alas e setores a Colorado do Brás buscou objetivar a leitura simples de seu enredo, porém o conjunto esteve bastante simplório com o uso de materiais muito simples, o que não interferiu na beleza do conjunto. Esse é um ponto que merece destaque. A escola passou muito bem vestida. Uma das alas que pode ser citada positivamente é a 08, ‘A loucura est´nos olhos de quem vê’. Divertida e com fácil leitura, empregou um bom uso de materiais. A partir do setor que aborda a religiosidade do enredo as indumentárias ganharam materiais mais rebuscados, melhorando a qualidade dos figurinos apresentados, com plumas e penas. Os passistas vieram representando o ‘Segredo do Pavão’, suposto refúgio de Dom Sebastião, a Índia.

Alegorias

O abre-alas trouxe uma grande carruagem levando o sonho e a esperança de uma nação. O desejado, o rei Dom Sebastião começava a narrar sua história num grande mar de rosas e flores, em uma atmosfera de encanto e magia. A primeira alegoria, entretanto, poderia ter um trabalho escultórico mais bem feito.

O segundo carro, se propôs a mostrar a grande fortaleza e os templos marroquinos e toda a riqueza deste país africano que revela segredos e muitos mistérios, e estes segredos levam à cobiça do rei de Portugal a querer invadir e dominar o país. A alegoria apresentou falhas de acabamento nas colunas traseiras na parte superior da alegoria.

Em seu terceiro carro, a Colorado buscou a representação do templo da fé, onde a força da igreja estava presente em todas as classes sociais e dominava a cultura. Novamente faltou um melhor apuro estético na parte superior da alegoria.

O desfile partiu para sua reta final com o quarto carro, ‘Baile de máscara e refúgio em Veneza’, representando grandes bailes onde se tinham beleza e muito mistério.

Para fechar o seu desfile a quinta alegoria representou a beleza das praias e lençóis, e um grande rei Dom Sebastião estilizado com estilo brasileiro, brincando sobre as ondas, dando assim uma atmosfera de brincadeira e liberdade poética. Nesse carro havia recursos estéticos de gosto duvidoso.

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