O carnavalesco Leandro Vieira é o artista mais engajado dos desfiles atualmente. Não apenas com enredos que tem mensagens relevantes, mas por suas opiniões sempre firmes em relação aos rumos da festa. Depois de ganhar a Série A com a Imperatriz e colocar a Mangueira nas campeãs pelo quinto ano seguido, o artista já tomou uma decisão para 2021. Vai mudar sua linha de enredo. Isso não significa uma saída da Mangueira ou permanência na Imperatriz.

Em entrevista concedida ao CARNAVALESCO após os desfiles de 2020, Leandro demonstrou serenidade ao analisar as notas recebidas em fantasias e alegorias, festejou os resultados de seus amigos Tarcísio Zanon, Marcus Ferreira, Leonardo Bora e Gabriel Haddad e disse ter recebido mensagens de mães de jovens do morro da Mangueira: ‘Aquele menino era meu filho’.

Você venceu a Série A com a Imperatriz em um desfile inesquecível. Conseguiu fazer uma Mangueira luxuosa que voltou nas campeãs e ainda ajudou a Caprichosos a vencer na Intendente. Que balanço você faz desse seu 2020?

“O mais importante foi ter assumido compromissos e ter cumprido com a certeza de fazer o melhor que pude. Na Caprichosos indiquei um profissional que achasse que desse conta. Ajudei dando conforto com a doação de materiais. Fico feliz que tudo tenha dado certo e a escola tenha conquistado o título. Na Imperatriz, fico satisfeito de ter aceitado esse desafio. Eu não fui pra lá para ser campeão, Fui para resgatar a dignidade da escola. É uma escola grande demais para não estar na elite. É a agremiação que esteticamente teve uma de minhas maiores referências, que é a Rosa Magalhães. Sobre a Mangueira tenho certeza que produzi um carnaval do tamanho da escola. Foi concluído com o que eu acho que organizando discurso e estética foi o melhor que pude fazer, independente de notas. Esteticamente foi superior em alguns momentos a trabalhos anteriores que fiz na escola”.

O pré-julgamento do enredo da Mangueira, com muitas polêmicas, prejudicou a concepção do seu trabalho?

“Acho que não. A única nota 50 da Mangueira foi o enredo. Essa ideia de se surpreender com o meu trabalho ter sido feito com respeito eu não consigo entender. Nos cinco carnavais que fiz aqui eu sempre fui respeitoso. Não tinha por que ser diferente agora. Minhas abordagens são culturais, de exaltação à cultura popular. Não fazia sentido eu ofender quem quer que seja. Em todos os meus carnavais eu toquei em aspectos religiosos, sempre respeitando, seja para falar de santo ou orixá”.

Em sua opinião quando o carnavalesco gabarita em enredo é a concretização do trabalho de mensagem que ele quis passar?

“Sim. Meus enredos produzem imagem para a comunidade. O menino negro oxigenado e tatuado que eu coloquei como personificação de Jesus Cristo é um morador da Mangueira. Eu fiquei muito feliz com as mensagens inbox de minhas redes sociais. Mães me mandaram fotos de seus filhos, dizendo que aquela imagem remetia aos seus filhos. Com relação à nota, eu penso que foi bem justificado em termos de imagens e argumentos. Obtive retorno dos dois lados”.

Apenas duas notas 10 em fantasia e uma inexplicável nota 9,7. O que pode ter acontecido?

“Não discordo de nenhum tipo de avaliação. Eu acho que fazemos um trabalho para ser julgado. Todos têm expectativa de receber aceitação. Antes da justificativa a tendência é não entender. No momento eu comparo minhas notas com de outras escolas. Comparo minhas fantasias com as apresentadas em outras agremiações”.

Esse é o mesmo sentimento com relação às alegorias?

“Mesma coisa. Uma alegoria é um trabalho de uma equipe gigantesca. O jurado deve ter encontrado algum motivo. Comparando visualmente com outras escolas, tenho a tendência a não entender tais notas, talvez com as justificativas eu consiga compreender”.

Muitos acharam o desfile da Mangueira frio, mas as notas vieram. Você acha que as pessoas se impactaram com a parte plástica e buscaram prestar atenção no lugar de cantar?

“Eu não sei explicar. Mas tenho certeza que as pessoas foram chamadas a prestar atenção na Mangueira. Não sei avaliar até que ponto calar-se diante de um desfile não é também envolver-se com uma apresentação. Não sei como explicar, mas ficar em silêncio também pode te deixar uma importante mensagem”.

Para muitos a Imperatriz fez o melhor desfile da história da Série A, você concorda?

“Seria pretensão da minha parte dizer isso. Deixo para vocês. Mas com relação à Imperatriz ela juntou tudo que um grande desfile pode reunir: visual, canto e comunidade. Era nítido no desfile que a escola estava fazendo algo grande, mas não por causa do carnavalesco, mas por que a escola toda entendeu o desafio que era desfilar para voltar ao Grupo Especial”.

E como decidir agora entre Mangueira e Imperatriz?

“Eu acho que não é uma questão de escolher entre uma e outra. Mas é uma decisão de trabalho. O carnavalesco assume compromissos anuais. Em 2020 eu cumpri os dois. Eu preciso agora vislumbrar quais os compromissos que desejo assumir. Isso não tem a ver com Imperatriz ou Mangueira, mas com planejamento de carreira. O que eu quero, para onde tenho que ir. Eu tento organizar o que realizo, pautado naquilo que eu penso. Primeiro vou saber o que quero depois conversar com as direções para saber se elas comungam com isso. Eu ainda não sei esse caminho”.

Depois de cinco carnavais na Mangueira chegou a hora de alçar novos voos?

“Alçar novos voos é algo certo. Incomoda-me um pouco o estigma de estar em uma prateleira. Não sou só isso. Eu posso fazer isso dentro da Mangueira. Quem quis fazer o que fiz até agora fui eu. Decidir não fazer também é uma decisão minha. O viés do meu próximo enredo será diferente. É ruim para o artista isso. Eu sei fazer qualquer coisa. Para negar o rótulo faço o que eu quiser. O rótulo corta asa e quero-a aberta”.

Dois jovens carnavalescos campeões na Viradouro e vices na Grande Rio. É uma marca de mudança na estética do carnaval?

“Eu tenho certeza disso. O resultado das campeãs mostra uma renovação. Das seis escolas, três não tem 10 anos de carreira. Eu acho ótimo. Quem começou essa renovação foi a Mangueira comigo em 2016. Quando cheguei aqui o pensamento era eu dividir com um medalhão. Isso já faz cinco anos. Ganhei novamente em 2019. Agora os atuais vencedores formam uma dupla, sem medalhão. Os vice-campeões também. O júri está consagrando a oxigenação da festa. O carnaval para existir precisa se renovar”.

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