Por Daniela Safadi e Gabriella Souza

O filme ’30 Dias – Um carnaval entre a alegria e a desilusão’ estreou no Festival do Rio, nesta quinta-feira, e o site CARNAVALESCO acompanhou o documentário que retrata o carnaval através das relações que o sustentam. A ancestralidade, a religiosidade e a união de pessoas dispostas a lutar por algo que acreditam. Os desafios vividos pela escola de samba carioca a “Alegria da Zona Sul” são pano de fundo e porta-voz do paulatino descaso do poder público em fomentar o carnaval do Rio. A agremiação viveu momentos de angústia e incerteza na temporada de 2019, quando teve que preparar seu carnaval sem a verba que deveria ser disponibilizada pela Prefeitura, que seriam em torno de R$ 250 mil, metade do orçamento de 2018. Todo o enredo foi captado e expresso com delicadeza pelas lentes e olhares de Valmir Moratelli, diretor do documentário. O filme pode ser visto nesta sexta-feira às 15h15, no Estação NET Rio 3 (Botafogo), e, neste sábado, às 18h, no Instituto Moreira Salles (Gávea). (Fotos: Daniel Pinheiro/Divulgação)

“Quando a gente procurou uma escola pra poder contar a precariedade que é fazer um carnaval numa escola de samba do Grupo de Acesso, procuramos primeiro pelo enredo. Não queríamos contar uma história apenas sobre crise financeira do carnaval porque isso já está nos jornais, nos sites… Queríamos contar um pouquinho do que as pessoas não costumam ver no dia a dia. Queríamos dar voz as pessoas que fazem o carnaval. O barracão é um lugar muito complicado de se trabalhar, muito precário, isso quando já existe condições pra se trabalhar”, explica o diretor do filme.

Segundo Valmir Moratelli, o carnaval carioca está sendo prejudicado por causa dessa onda neopentecostal que invade a política do Rio de Janeiro.

“Isso prejudica o que temos demais genuíno, de mais cultural que é o nosso carnaval pela manifestação cultural. Acho que esse era o objetivo e a resposta está ali no filme. A cena que abre e a que encerra o desfile, que pra mim é muito forte, com a Camila, presidente da ala das baianas, tentando organizar as baianas sem ter espaço, a água da chuva chegando na canela das pessoas, aquela água podre da Presidente Vargas. A prefeitura negligenciou e não fez a dragagem como deveria ter feito”, afirma Moratelli.

A produção agrega à linguagem de sua narrativa a afirmação do carnaval como um espaço de manifestação artística, educacional e comunitária para a formação da sociedade carioca. As críticas à Prefeitura e as políticas ideológicas de desqualificação da festa são incisivas. O documentário ousa em um exato ponto, o de mostrar um carnaval despido de ego, estampado com a realidade precária de uma escola do Grupo de Acesso. Retrata o cotidiano de um barracão improvisado e sem recursos, como reflexo do esforço de pessoas que vivem o carnaval como força motriz seus trabalhos e relações. Demonstram a união e persistência de seus componentes, que em meios às dificuldades, apresentam um carnaval digno na Avenida.

Fábio Fabato, jornalista e pesquisador de carnaval, teve participação no documentário e confessa sua emoção com a exibição da obra. Para ele, o filme representa um documento sobre a essência do que é o carnaval carioca, algo que deve ser preservado para a posteridade.

“Estou super feliz com o filme. Acho que o resultado é belíssimo porque consegue mostrar o carnaval para além do público que só o conhece pela televisão. Mostra o quanto tem de ritualístico na construção de um carnaval, o quanto tem de dificuldade, o quanto é uma festa. Os carros alegóricos não nascem na Avenida, ou seja, há um processo. É todo um trabalho que também envolve a dificuldade que se tem com o não apoio da prefeitura. Então serve, à meu ver, sobretudo, para decodificar com muito afeto o que é o carnaval. O filme é sensível, afetivo. O carnaval é uma representação identitária do Rio de Janeiro. Acho que todos os que estão ali envolvidos têm que se sentir muito orgulhosos por terem participado desse documentário”.

Fabato ainda tece críticas ao descaso e ataque do poder público ao carnaval. Ele destaca também o preconceito que o carnaval ainda sofre.

“A meu ver, o poder público age, como nós falamos no filme, de forma a demonizar a cultura popular e, ao mesmo tempo, é uma lógica burra, onde não se percebe que a cultura popular, quando se coloca um ‘dinheirinho’, se investe em identidade, há um retorno em turismo, um retorno econômico na cidade. Mas o desafio é exatamente fazer essa gente entender que o carnaval precisa de apoio e que ele é representatividade de um povo. Nós temos um poder racista hoje, um poder que não abraça as comunidades, não abraça as religiões de matriz africana. É um ataque burro e um ataque preconceituoso ao mesmo tempo. É uma pena. Como eu até falei no documentário, se escola de samba fosse um bicho europeu, asiático, os países apoiaram, o presidente da república, o imperador, abririam o desfile. Aqui no Brasil não, aqui os políticos fogem da Avenida, é uma pena”.

‘Carnaval clama por socorro’

Responsável pelo desfile da Alegria em 2019, o carnavalesco Marco Antônio Falleiros citou a importância do carnaval ser retratado em um documentário.

“Ficou maravilhoso. Passou uma lembrança na minha cabeça muito emotiva durante o filme, porque a gente lembra de cada momento, cada etapa que foi pra chegar na Avenida. Pra mim, como profissional, fiquei super feliz de ter esse documentário, de fazer parte dele, porque tem tantos outros profissionais muito mais velhos, com muito mais experiência, com mais anos de estrada, que não têm seu trabalho exposto em um documentário tão importante como esse. Gostei muito também da sensibilidade que eles tiveram na hora de fazerem as imagens”.

Porta-bandeira da Alegria em 2019, Thaís Romi também falou do filme e o trabalho no carnaval.

“Quem não vive o carnaval não tem a noção de como é difícil, ainda mais para uma escola da Série A, concluir um projeto e levá-lo para a avenida. O documentário é a oportunidade desse público conhecer a realidade e refletir sobre a falta de valorização da nossa cultura. O descaso do poder público é uma realidade e precisa ser cada vez mais divulgada. O carnaval clama por socorro. Senti um orgulho danado de ter vivenciado esse momento de superação. A Alegria da Zona Sul fez o seu melhor mediante a todas as dificuldades e não merecia o resultado. O documentário foi a oportunidade de mostrar que fomos campeões de garra e superação”.

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