Por Guilherme Ayupp, Lucas Santos, Diogo Sampaio e Thaise Lima

A Portela escolheu na madrugada deste sábado o samba-enredo que embalará o seu desfile de 2020 na Marquês de Sapucaí. Como é habitual em escolhas de samba na quadra da Rua Clara Nunes, uma disputa alucinante até o minuto final levou a comunidade e os sambistas ao delírio no Portelão. E também como se tornou tradição, o anúncio só saiu às 06h da manhã de sábado, com os raios de sol cortando a imagem da águia altaneira que dá as boas vindas a quem pisa o seu solo sagrado. Os compositores Valtinho Botafogo, Rogério Lobo, José Carlos, Zé Miranda, Beto Aquino, Pecê Ribeiro, D´Sousa e Araguaci foram os grandes vencedores na acirrada disputa. Em 2020 a Portela será a sétima a desfilar no domingo de carnaval, com o enredo ‘Guajupiá, terra sem males’, dos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage.

O time de poetas é bicampeão na disputa da Portela. Apenas Jorge do Batuke, que optou por não participar do concurso esse ano e Pecê Ribeiro não estavam na parceria vencedora em 2019. Todos os demais formam o time novamente campeão este ano.

“Somos bicampeões, mas a emoção é e sempre será única. Já fui vice quatro vezes aqui também. O diferencial do nosso samba foi a poesia melódica, mas também por ser indígena o tempo todo, usando os termos e tendo uma crítica social que remete também ao capitães do mato e está atual devido ao nosso presidente, que a gente vê né como é, e ao nosso prefeito que não gosta de carnaval. Nosso samba esteve sempre dentro do enredo e isso foi fundamental”, afirmou o compositor Valtinho Botafogo.

As críticas sobre a estrutura musical da obra se dissiparam rapidamente com sua apresentação na quadra. Um sacode no Portelão. Ritmistas cantaram a composição durante toda a apresentação. O camarote presidencial também demonstrou muito entusiasmo com a passagem. Uma grande atuação de Zé Paulo Sierra. O refrão do meio fazia a quadra pulsar.

“Essa vitória representa duas vezes mais para mim. Ganhei ano passado e agora esse ano. Foi uma conquista muito difícil, porque a gente tinha competidores muito bons, com sambas muito bons. Durante toda competição, a disputa foi muito acirrada. Chegar nesse momento e ser coroado, é muito bom. Me sinto realizado com samba que a gente fez, que entrou no coração do portelense desde o começo da disputa, e a gente chega hoje com essa glória, que obviamente não tínhamos certeza que seria assim, mas é muito bem-vindo. Me sinto muito feliz”, afirmou o compositor Zé Miranda.

“É muita felicidade ser campeão na escola do seu coração. Fizemos uma melodia diferenciada, isso foi o que pegou mais o coração do portelense”, citou o compositor Rogério Lobo.

Em entrevista ao CARNAVALESCO, o presidente Luis Carlos Magalhães abordou diversas temas importantes para o carnaval, entre eles, a subvenção de 2020.

“O torcedor da Portela pode esperar a escola competitiva. Para nós o samba-enredo é importante, não só pela pontuação, mas também pela reafirmação do nosso modelo. Pelas receitas que nós estamos imaginando ter, confirmando o repasse do governo do estado, vamos ter uma receita semelhante a do ano passado”, disse Zé Miranda.

Luis Carlos Magalhães falou também do trabalho de Renato e Márcia Lage e da situação financeira da Portela.

“Nenhuma escola está livre de dividas. Eu diria que a situação da Portela hoje é regular. O momento é de resistência. O Renato e Márcia lamentam o que está acontecendo atualmente com o carnaval. Eles não entendem o que está acontecendo. Mas os dois são pessoas inteligentes e sabem que não adianta fazer um projeto mirabolante e não ter respaldo financeiro. Eles vão fazer um carnaval compatível com os recursos da escola”.

Gilsinho brilha, casal encanta

A final da Portela contou com um show de segmentos baseado no enredo que a azul e branca vai apresentar ano que vem. A produção e direção teve o comando de Nilce Fran, coordenadora da ala de passistas. A rainha Bianca Monteiro fez uma entrada triunfal em cima de um tripé. Trajada com um figurino indígena mostrou toda a sua simpatia e sensualidade.

Gilsinho comandou a apresentação dos segmentos com os clássicos da Portela, como ‘Lendas e mistérios da Amazonia’, ‘A Lapa de Adão e Eva’, ‘Ilu Ayê’, ‘O mundo melhor de Pixinguinha’, ‘Macunaima’, ‘Hoje tem marmelada’, ‘Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite’, ‘Contos de Areia’, ‘Adelaide, a pomba da paz’, ‘Quando o samba era samba’, ‘Gosto quer me enrosco’, ‘Os olhos da noite’, ‘Os deuses do Olimpo na terra do carnaval’, ‘E por falar em amor onde anda você?’, ‘E o povo na rua cantando, é feito uma reza, um ritual’, ‘ImagináRIO, 450 janeiros de uma cidade surreal’, ‘No voo da águia, uma viagem sem fim’, ‘Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar’ e a obra de 2019 em homenagem à Clara Nunes ‘Na Madureira moderníssima, hei sempre de ouvir cantar um sabiá’. Gilsinho parece ter nascido para cantar na Portela.

“O Carnaval de 2019 foi muito bom, a escola estava empolgada, emocionada, o resultado foi até legal. Emoções renovadas, vamos para o Carnaval 2020 com um enredo muito bacana, que fala de resistência do índio e vamos tentar fazer o melhor possível”, comentou o intérprete portelense.

Além do show muito bem produzido por Nilce Fran, o figurino e o bailado do casal Marlon Lamar e Lucinha Nobre encantou. A dupla que só tirou notas 10 em 2019 se despediu definitivamente dos personagens inesquecíveis do desfile e estavam trajados como indígenas. Lucinha demonstrou toda a sua versatilidade mais uma vez. Até cantar junto com o carro de som o samba de 2019 ela cantou.

Em seu retorno para Portela, Junior Escafura falou do trabalho na escola.

“A minha volta para a Portela representa muita felicidade. Foi aqui que eu aprendi tudo de
samba na minha vida, é uma história de família. Estou muito feliz, até mesmo pelo carinho que eu fui recebido, mesmo seis anos afastado, parece que eu não saí daqui em nenhum momento. A harmonia assim como os outros quesitos da portela vem gabaritando, tirando 10. Espero que isso continue e o samba com certeza vai ser um dos melhores do carnaval. Isso facilita muito no trabalho da escola, porque vai ser o samba que todo mundo vai cantar muito feliz”, comentou Escafura.

Com muita experiência, mestre Nilo Sérgio conversou com o site CARNAVALESCO e revelou detalhes para o desfile do ano que vem.

“O meu andamento continua com o mesmo andamento, 144 ou 145 BPM (batidas por minuto). Eu estou trabalhando um pouco mais, analisando algumas coisas que os jurados apontaram, como as subidas dos repiques, que teve um certo desencontro e eu estou definindo melhor essa subida. Vamos vir de um índio muito bonito e o Renato Lage já me mostrou e a bateria virá muito leve”, contou o comandante da Tabajara.

Análise das apresentações das outras duas parcerias:

Samir Trindade: A obra de Samir Trindade e seus parceiros apresentou um excelente rendimento na final. Mesmo menos cantado pelos segmentos, o samba se destacou pela melodia mais qualificada de toda a final. O refrão do meio foi o grande responsável pela explosão da quadra quando a obra atingia esse ponto. Tinga como de hábito arrebentou com uma condução monstruosa. O samba deixou a certeza de que poderia representar a Portela na avenida em 2020.

Noca da Portela: Apesar de ser uma obra de melodia qualificada, o samba teve muitas dificuldades em sua apresentação. Wander Pires comandou a apresentação mas nem ele foi suficiente para cativar as pessoas na quadra que nitidamente pareciam aguardar as passagens dos sambas favoritos, uma vez que a composição de Noca foi a primeira a se apresentar.

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