Não é possível que você ainda não saiba. Uns dias atrás, eu também não sabia quem era Suzy Brasil. Por volta de 2004, tive essa dúvida que foi respondida por ela mesma quando a vi pela primeira vez nas boates da Zona Norte do Rio, nas redondezas de Madureira. Do nada, uma trilha sonora estranha, com uma música do Bozo, interrompeu o “tuntitun” no meio da balada dizendo – “Alô criançada, o Bozo chegou…” –, seguida da sua própria auto presentação: “Quem voz fala é a Deusa da beleza e do sexo, e, da Penha Circular. Essa merda que sou eu mesma: SUZY BRASIL”.

Daquele ano por diante, vi dezenas de vezes a Suzy parando as noitadas por volta das 3h da madrugada para apresentar seus stand ups de comédia nas boates. Havia pessoas que diziam ir apenas para ver o seu show, que nos dias mais animados poderia durar mais de 1 hora de improvisos, sátiras, esquetes com outras tantas drags. Era o ponto de referência do rolé: “Vou chegar na hora da Suzy”, “Vou embora depois da Suzy”, “Vou ficar só por causa da Suzy” e por aí vai…

Vale um dado interessante, nessa época, elas não se consideravam Drags, se consideravam Caricatas, humoristas da noite. Claro, com o passar do tempo, a ideia sobre o que é uma Drag Queen foi ficando mais larga, entendo que pode ter muitos gêneros de personas dentro desse termo. O que chama a atenção para Suzy, em especial, é que o nome dela também é Brasil, e isso por si só diz muita coisa. Suzy, segundo palavras da própria, é também nome de cachorra, porque ela é uma bagunça mesmo – tipo o Brasil.

Suzy é a bicha que anda de Kombi, frequenta as ruas da Lama, os inferninhos. Suzy é a charge viva do que acontece em Madureira. Suzy é o avesso do glamour, da pompa e do luxo. Ela é o avesso do que vemos em Rupaul. Se ela tivesse a chance de participar do programa estadunidense, seria a última a desfilar e zombaria de todo mundo. Suzy é uma sátira do chique, mas usa brilho e é radiante. Dramatiza o cotidiano da bicha do subúrbio, fazendo com que a suburbana que a vê ria com ela da falta de “acué” (dinheiro), do boy gostoso, do perrengue voltando da boate, da pinta que damos no nosso dia a dia, da religiosidade profana das ruas, porque ela é uma Pombagira Remix, uma entidade e o Marcelo Souza, seu intérprete, é o “cavalo”.

Uma das vítimas da Covid-19 no Brasil, o saudoso Paulo Gustavo disse por inúmeras vezes que sua principal inspiração era a Suzy Brasil. Tanto disse que hoje a temos na TV como comediante e como roteirista das Organizações Globo.

Em 2011, ano em que a Unidos da Tijuca perguntou – “tá com medo de quê?” –, a Suzy aparece em um tripé na Marquês de Sapucaí sendo queimada como uma bruxa na fogueira da inquisição. Suzy saiu “em cartaz” na Tijuca, e, que simbólico, justo ela aparecer naquela performance, porque é reduzindo os estigmas de classe das bichas do subúrbio a fogo e a gargalhadas estridentes que ela nos arranca risos. Quem sabe rir com a Suzy, sabe também de onde veio e é pra você que ela faz questão de fazer esse humor babadeiro. Um viva para a Suzy e para [email protected] que reconhecem um lugar para rir junto com ela Brasil afora.

  • Rodolfo Viana: Mestre em Artes da Cena pela UFRJ. Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF. Pesquisa raça, homossexualidade, periferia e tecnologias. Ig: rodolfovianaclicks Twiiter: RodolfoSemPh
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