O carnavalesco João Vitor Araújo, considerado um dos maiores talentos da nova geração, carrega o DNA de luta, amor e resistência no carnaval. Ele concedeu entrevista para a coluna “Espaço do Sambista”, que é publicada toda sexta-feira no jornal MEIA HORA. Veja abaixo o papo na íntegra.

Em um sentido mais amplo, por que o carnaval tem poucos carnavalescos negros?

João Vitor: “Falar sobre isso sempre acaba gerando polêmica. Infelizmente, quando este assunto vem a baila, uma quantidade expressiva de pessoas que se dizem apaixonadas por carnaval, são incapazes de compreender a origem das escolas de samba que é negra. Tão sempre ali proferindo comentários preconceituosos, falando que é mimimi. Muitos não tem boa vontade de entender o quão tudo isso é grave, principalmente, por se tratar de uma festa que é genuinamente negra como eu disse anteriormente. E quando você nota a ausência de artistas negros na linha de frente dos desfiles, não se pode simplesmente dizer que a razão dessa ausência é porque nós não queremos, não nos interessamos, que a oportunidade é para todos e nós é que não a abraçamos. Isso é um absurdo. Acho que tudo isso está incluído no racismo estrutural. Automaticamente muitas pessoas aprenderam e acostumaram a associar a arte do carnaval a um artista branco. Eu já falei com você algumas vezes que ainda causo estranheza em algumas pessoas, por ser carnavalesco negro. Acho que temos uma caminhada de luta muito grande para que esse quadro empreteça. Existem muitos artistas negros fabulosos nos grupos de acesso, aguardando apenas uma oportunidade. Essa chance só pode ser dada por aqueles que estão no comando das administrações. É preciso esquecer as comparações maldosas. Já dizia um ditado antigo: ‘Sem oportunidade não há experiência’. Ainda te digo mais, não gosto de ser rotulado como o único carnavalesco negro do Especial (nem sou mais rs), gostaria de ser apenas carnavalesco, desde que outros artistas negros também estivessem ocupando a mesma profissão no grupo principal. Aí sim poderíamos dizer que a profissão é ‘racialmente democrática’.

O que você pensa desse momento de enredos que citam causas sociais?

João Vitor: “Acho fantástico. Estamos vivendo um momento de total desgoverno. O racismo cada vez mais escancarado, a política retrocedendo cada vez mais. Acho que são razões mais do que suficiente para tratar em forma de enredo ou pelo mesmo como passagem dentro de um enredo. Acho pertinente, não acho batido como dizem por aí. Quantas anos seguidos vimos várias escolas homenageando cidades? Muitas sem grandes relevâncias históricas?  Tem espaço para o lúdico, para o biográfico, para o histórico, CEP e para as críticas políticas e sociais também. Não falar sobre os dois temas perguntados, acho que só se o Brasil fosse o país das maravilhas, como dizia Joãozinho Trinta”.

Você teve grande destaque no Acesso. Dizem que é uma escola. Mas como se destacar lá hoje sem condição de estrutura e de finança?

João Vitor: “O Grupo de Acesso será sempre a verdadeira universidade para quem sonha em realizar seus sonhos carnavalescos no Grupo Especial. Todas as teorias acadêmicas caem por terra. Muitas vezes não conseguimos concretizar o que foi projetado no papel. O trabalho na prática muitas vezes faz com que ignoremos o que sonhamos. É preciso ser perspicaz para tomar as melhores decisões, ter paciência, pensar muito rápido nos momentos mais difíceis, ser muito criativo sem perder o bom gosto e o carinho pelo trabalho. Este grupo dirá se você está pronto ou não”.

Qual sua mensagem para um menino que ler essa entrevista e sonha em ser um carnavalesco como você?

João Vitor: “Interessante esse pergunta, pois é por eles que eu luto, não desisto e quero seguir em frente. Fazer carnaval não é fácil, só quem tem amor por tudo isso, é capaz de enfrentar todos os obstáculos encontrados pela frente. Não temos quase nenhum dia de paz, mas depois que você vê o resultado lá na frente, tudo compensa. Hoje eu tenho muitos admiradores pelo Brasil a fora. Recebo inúmeras mensagens de meninos que dizem me ter como referência artística, de coragem e determinação. Isso me deixa muito orgulhoso. Costumo sempre dizer para eles que sejam aquilo que eles quiserem ser, por mais difícil que a vida esteja, sonhar vale muito a pena, conseguir realizar é melhor ainda. Querem ser carnavalesco? Sejam. Estudem, pesquisem, aprendam. A profissão é linda, mesmo com inúmeras dificuldades. Eu espero que os desfiles de escolas de samba aconteçam nos próximos mil anos. Para isso, renovar será sempre preciso”.

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