O carnavalesco João Vitor Araújo, do Cubango, é um dos artistas mais sensíveis e engajados do carnaval carioca. Após um belo desfile apresentado no Tuiuti em 2020, muito mal avaliado pelos julgadores, o artista aporta em Niterói para desenvolver o enredo “O amor preto cura: Chica Xavier, a mãe baiana do Brasil”, que vai homenagear a atriz Chica Xavier no próximo desfile. Ao site CARNAVALESCO, ele falou revelou o significado de escolher a personagem para a sua apresentação na verde e branco.

Foto: Ewerton Pereira/Divulgação

“Falar de Dona Chica Xavier pra mim, além de ser uma alegria muito grande, até porque foi uma inspiração que eu pedi ao tempo. Pode parecer clichê para algumas pessoas: ‘Ah homenagear uma personalidade’, mas acho que a Sapucaí é o palco pra isso, onde a gente conta histórias, onde a gente celebra personalidades, principalmente, personalidades que tenham um significativo muito grande na nossa vida, na nossa formação, na formação da cultura do nosso país, que é o caso de Dona Chica que além de atriz era mãe, “ialorixá”, foi profissional da educação e tantos outros atributos que fazem parte da formação de Dona Chica Xavier. Ela foi uma guerreira, uma das protagonistas no elenco da luta antirracista, por exemplo, ela lutou pela verdadeira inserção do povo preto na sociedade. Quando eu digo o povo preto na sociedade eu me enxergo. Porque para hoje eu estar aqui falando com você como artista de frente de uma escola tão maravilhosa, tão grande como a Acadêmicos do Cubango foi porque lá atrás houve luta. Na verdade, a luta nunca acabou. Mas é uma luta que começou há muito anos antes de eu nascer. Dona Chica foi uma dessas pessoas que lutou para que eu pudesse estar aqui hoje como protagonista da minha arte”.

Ter a presidente Patrícia Cunha, como presidente do Cubango, uma mulher negra e ex-porta-bandeira, também mexe com o carnavalesco João Vitor Araújo.

“Uma agremiação forte como a Acadêmicos do Cubango, ter mulher presidente negra à frente de uma agremiação, é algo que não se via há muito tempo, como um amigo lembrou, acho que desde Dona Neide, presidente do Império Serrano. Olha quanto tempo, olha a distância e como isso é difícil, como é raro, e não só presidente, mas uma escola onde praticamente todos os segmentos são negros. Temos o Fabinho Batista, coreógrafo da comissão de frente, que é negro, eu que sou negro, a presidente que é negra, a vice-presidente que é negra, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, a rainha de bateria que é negra. Cubango é uma escola negra”.

O artista do Cubango ressaltou que o bairro do Cubango, em Niterói, a a escola de samba possuem lugar de fala para desenvolverem enredos abordando a temática negra.

“O bairro do Cubango é um quilombo de resistência. É essa missão cultural, social e política que a escola de samba tem. Ela abraça e acaba, de certa forma, representando a história de toda a sua comunidade. As pessoas que ocupam esses espaços, 90% são negras. A escola fala por elas, fala por todos. Essa é a missão da escola de samba, essa é a missão do carnaval. Isso tudo me possibilita trazer à tona esse tipo de enredo, esse tipo de linguagem. É muito triste quando a gente lê pessoas falando: ‘Ah, de novo?’. Não a gente não pode deixar de lado personalidades, deixar de lado essa parte da história, até porque se o carnaval existe, se todo mundo ama sentar na arquibancada, se todo mundo ama sentar numa frisa, num camarote, se divertir, cantar, sambar, admirar é porque lá atrás o nosso povo construiu isso tudo, começou isso tudo. É óbvio que ano a ano, em pelo menos duas ou três escolas, ou mais ou menos, a negritude tem que ser exaltada. E, pra mim, enquanto artista negro, é um prazer, é fabuloso estar em conexão com esse tema, estar em conexão com a Acadêmicos do Cubango, com o que ela representa para a comunidade, trabalhando essa linguagem de enredo, acho que está sendo o momento mais oportuno pra minha carreira”.

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