A Mocidade Alegre convidou integrantes da imprensa para um bate-papo, que ocorreu na quadra da escola, na noite da última terça-feira. Com a participação da presidente Solange Cruz e do carnavalesco Jorge Silveira, o encontro visou explicar detalhes e tirar dúvidas sobre o desenvolvimento do enredo para o Carnaval de 2023, que teve grande repercussão após ser anunciado em uma live promovida pela Morada do Samba.

O primeiro negro samurai, “Yasuke”, cujo nome foi o escolhido para levar essa história para a Avenida, terá sua jornada contada desde sua saída de Moçambique, na África, no século XVI, até sua chegada ao Japão, onde se tornou o mais leal soldado do Daimyô de Kyoto, Oba Nobugara.

Como nasceu a ideia

“Se tem um local onde essa história tem que acontecer é em São Paulo, e acho que a Mocidade tem a herança e a carga necessárias para levar essa história, para poder conduzir esse personagem. Acho que Yasuke está muito feliz por ter encontrado essa Morada”. Foi com estas palavras que Jorge Silveira definiu a importância do enredo escolhido. Quinta escola a desfilar na segunda noite do próximo carnaval, a Mocidade Alegre abraçou o tema que foi sugerido ao carnavalesco por Rodrigo, um de seus assistentes.

“É um personagem pelo qual eu já era apaixonado há algum tempo, e eu sempre enxerguei nele a viabilidade de se transformar em uma trama de Carnaval pelo potencial que a história tem. Não só pelo visual, a parte estética, mas principalmente pela mensagem que o personagem tem de crescimento, superação, de igualdade, de mescla de culturas e boa convivência cultural, que são coisas que o nosso mundo precisa e que são mensagens que o Carnaval traz naturalmente. Acho que Yasuke vem acrescentar muito a esse momento. É a narrativa certa no momento certo”.

Mundo do samba reverencia Yasuke

A presidente Solange Cruz exaltou o impacto causado pelo enredo anunciado. “A repercussão foi muito positiva. Fizemos uma live que bateu mil pessoas assistindo no meio da semana (quinta-feira). Começamos a receber mensagens, como a de um diretor do Vai-Vai e o filho falando para ele, porque tem essa série na Netflix (também chamada “Yasuke”) que passa depois dessa fase que vamos contar, e isso é muito legal. Vamos contar uma fase, e a Netflix conta uma fase posterior dessa história. É muito bacana porque as crianças conhecem. Aí vem outro diretor, de outra escola, e manda “somos todos Yasuke”. Isso me chamou muita atenção, a forma como as pessoas se identificaram e entraram no clima”, declarou.

O enredo promoverá uma ligação das experiências vividas por Yasuke com os desafios enfrentados pelos jovens negros nos dias de hoje, de acordo com Jorge Silveira. “O grande foco de trabalhar assuntos assim no carnaval é você focar naquilo que é positivo. É usar essa oportunidade do desfile para poder jogar luz nos bons exemplos, e poder potencializar esses bons exemplos. Sabemos de todo o problema e de todas as questões pertinentes ao tema, mas eu posso usar esse desfile como uma oportunidade para podermos evidenciar todos aqueles que se armam como samurais para enfrentar e vencer estes desafios, e usar esses exemplos como força motriz, impulsionadora, para incentivar outros a vencerem também. O nosso foco será esse, de mostrar, jogar luz sobre o que é positivo e como conseguimos construir bons exemplos com essa história do Yasuke. Como ele pode se espelhar para que outros jovens possam enxergar nessa nossa narrativa a experiência e a força que o personagem tem”, explicou.

Yasuke e sua religiosidade

Historicamente, a Mocidade Alegre sempre aborda a religiosidade em seus desfiles. Apesar de ser um enredo que em tese foge um pouco disso, tal fato não vai ficar de fora. “Existem algumas origens possíveis de religiosidade para o personagem. A que é mais provável é que ele tenha vindo de Moçambique. Vindo do país, a base da religiosidade é da cultura ‘banto’. Então, não é uma religião que cultua orixás e, sim, ‘inquices’. Tem dados momentos que a gente vai citar essa ancestralidade, porque o grande diferencial do personagem, é que ele carrega consigo a ancestralidade de dois mundos. Ele se constrói através disso. Vai ter um momento em que a gente vai mostrar essa presença dos inquices na alma do Yasuke, misturado com esse universo que ele começa a flertar com a cultura japonesa, até porque é impossível falar desse personagem sem abordar o aspecto da religiosidade, porque é um dos elementos que compõe a essência dele. A virtude, força, dignidade vem da força espiritual que ele tem”, explanou.

Um enredo que está nas mãos certas

Conforme a conversa foi se desenvolvendo, Jorge Silveira revelou um detalhe inusitado sobre seu passado. Antes de se tornar carnavalesco, Jorge foi mangaká, que são artistas que trabalham no desenvolvimento de mangás, um estilo de histórias em quadrinhos japonês. “Eu trago na minha própria natureza elementos que conversam de todos esses aspectos do Yasuke. Tenho minha ligação com a visualidade africana por conta do carnaval, por tudo que já trabalhei e já vi ligado ao carnaval, e tenho essa ligação com o universo mangaká, da estética japonesa. O que vamos ver é um filtro de tudo isso, através da minha percepção, do que eu leio dessas duas culturas, e como eu vou tratar, com todo respeito e dignidade, essas duas culturas. Elas já são fortes sozinhas, as duas imagens já são muito poderosas. Elas têm identidade própria. O grande desafio meu é cruzar essas duas referências e criar uma narrativa para a Mocidade Alegre em Carnaval, que é uma outra camada. É um desfile de Carnaval com tudo que tem que ter, com a grandiosidade que a Mocidade gosta, com as fantasias e a imponência alegórica que a Mocidade gosta, e esse é o desafio”, contou.

Sobre a influência desta experiência anterior em um trabalho para o carnaval, Jorge Silveira garantiu que a tratativa segue por uma outra linha. “As lembranças serviram principalmente no esforço de não usar aquelas referências. No universo mangá muitas vezes temos a possibilidade de explorar o fantasioso, o imaginário, o lúdico. E nesse enredo eu tenho um compromisso histórico, de rigor, de pesquisa, de fidelidade de figurino de época, de composição de cenário, de personagem. Então eu procurei me desligar um pouco disso. Eu gosto muito desse universo, e inclusive meu traço é muito conhecido quando desenho porque eu desenhei quadrinhos por muito tempo. Então meu exercício nesse momento é me desligar disso e mergulhar na história para valer. Ali é Yasuke na veia”, garantiu o artista.

Semelhanças entre Japão, África e o bairro da Liberdade

Apesar de serem povos que se desenvolveram em locais tão distantes um do outro, as semelhanças culturais entre africanos e japoneses são grandes. A Morada do Samba pretende mostrar de forma carnavalizada essa similaridade. “África e Japão estão muito distantes, mas tem muito pontos de contato. As duas culturas são muito ligadas à ancestralidade, e esse é um ponto muito comum entre elas. Tanto o japonês quanto o africano baseiam suas culturas no conhecimento daqueles que vieram antes. As duas culturas se expressam muito forte visualmente, tem seus ícones de comunicação culturais e religiosas por imagem, ou no corpo, ou na pintura, ou na parede, escultura, máscara ou em tambor. O tambor também é um elemento muito forte nas duas culturas. O africano toca o tambor para evocar sua ancestralidade e o japonês também. O africano usa a máscara para se incorporar na entidade, e o japonês põe a máscara para virar outro personagem e encarar a luta. São culturas que, podem ser que estejam distantes, mas tem links imagéticos muito fortes, e tudo isso se conversa no desfile. Meu desafio é criar essa química entre esses dois universos e vocês pensarem que o Japão e a África é um do lado do outro”, disse Jorge Silveira.

São Paulo é a cidade com mais presença de japoneses e seus descendentes fora do Japão. Além disso, eles se instalaram principalmente na Liberdade, um bairro cujo passado possui forte vínculo com a população negra do período colonial. A Mocidade Alegre passará por esse universo, garante o carnavalesco. “A Liberdade é um bairro que começa negro, e depois os japoneses vão chegando e vai criando essa mistura cultural. Teremos a possibilidade de juntar esses dois mundos, e trazer essa reflexão para o nosso desfile. São Paulo é a maior cidade japonesa fora do Japão, e de maneira paradoxal é a cidade que mais mata jovens negros. É uma reflexão fundamental, importante, que a gente precisa trazer para a nossa narrativa, e vamos tratar com todo o respeito e todo carinho que tem que ter”, revelou.

Jorge Silveira e seu novo desafio

O artista é conhecido por assinar temas lúdicos e colocar em prática apresentações ‘leves’ na avenida. Porém, de acordo com o carnavalesco, o desfile de 2023, tem um desafio especial no aspecto do desenvolvimento.

“É um desafio especial por todo aspecto de novidade que essa ideia tem. É uma escola nova e um contexto novo. Mas, Yasuke é o meu carnaval número nove e, se você somar na ponta do lápis, é a menor parte, só que as pessoas olham mais para os enredos lúdicos. Eu fiz um enredo sobre os 200 anos da Escola das Belas Artes do Rio de Janeiro. Não tem nada de lúdico. Até na Dragões, a “Asa Branca”, tem característica regional. Agora, esse tem uma pega fortemente histórica, porque todo embasamento estético é calcado na arte japonesa e africana marcado no tempo em que a história acontece, mas haverá um desenvolvimento onde a gente vai fazer um link com o contemporâneo. Então, talvez seja nas propostas que eu já trabalhei, a que tenha a maior versatilidade no tempo. Ela vai cruzar um arco de tempo maior entre o passado mítico do personagem e o contemporâneo. Acho que esse arco de tempo, pra mim é uma novidade que eu estou adorando fazer. Não tem nada de lúdico e, pode ter certeza, que vai entrar forte”, finalizou.

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