A Santa Cruz fez história. Pela primeira vez, a escola da Zona Oeste venceu o Júri do site CARNAVALESCO e teve seu samba-enredo eleito o melhor da Série A para o Carnaval de 2019. A obra que homenageia Ruth de Souza foi encomendada para o trio de compositores: Samir Trindade, Elson Ramires e Júnior Fionda.

Quatro integrantes formaram o júri do CARNAVALESCO. Foram eles: Rodrigo Godoi (editor-chefe do site SASP), Aloisio Villar (compositor), Darlan Alves (intérprete e compositor da X9 Paulistana) e Guilherme Ayupp (chefe de redação do CARNAVALESCO). A Santa Cruz só conheceu a nota dez. Terminou com 40 pontos. Renascer de Jacarepaguá e Cubango terminaram com 39,9 pontos.

“É uma notícia maravilhosa. Primeiro pelo samba, em um ano que não obtivemos êxito em nossas escolas. E segundo por receber essa avaliação de um júri de um site tão conceituado. A Ruth é uma negra, batalhadora e vencedora. Como negro homenagear alguém da minha raça com uma obra linda. É um enredo muito relevante. Agradeço o convite da Santa Cruz e a escola tem tudo para fazer um desfile histórico. Se tiver talento, determinação e força de vontade, o negro pode ser o que quiser, como diz o nosso samba”, comemorou o compositor Samir Trindade.

Classificação final do Júri do CARNAVALESCO

Santa Cruz: 40
Renascer e Cubango: 39,9
Estácio: 39,8
Inocentes e Unidos da Ponte: 39,7
Unidos de Padre Miguel, Alegria da Zona Sul e Império da Tijuca: 39,6
Porto da Pedra e Rocinha: 39,4
Unidos de Bangu: 39,3
Sossego: 39,2

Notas e justificativas

Rodrigo Godoi (Editor-chefe do site SASP)

Porto da Pedra: 10
Inocentes: 10
Renascer: 10
Santa Cruz: 10
Unidos da Ponte: 10
Unidos de Padre Miguel: 9,9 – A Unidos de Padre Miguel sempre vem com excelentes sambas e em 2019 segue com mais um bom samba. A letra do samba traduz bem o enredo, que fala sobre a obra de Dias Gomes, sendo bem fiel às histórias criadas pelo autor e seus personagens memoráveis. O samba vem com uma boa melodia, mas comum, não há nenhuma novidade nesse sentido. Esperava o refrão principal um pouco mais explosivo, mas isso não tira o brilhantismo da obra.
Império da Tijuca: 9,9 – Gosto muito da obra que a Império da Tijuca para o Carnaval 2019. O vale do café tem uma história fantástica e os compositores conseguiram pôr no papel essa trajetória. Com uma letra muito poética e uma melodia boa de se ouvir, o samba tem apenas um ponto que não me agradou, que são as duas últimas estrofes, no qual palavra agronegócio destoa do restante da obra.
Cubango: 9,9 – A escola de Niterói vem com um belo samba para seu desfile de 2019. Na primeira parte, entre o refrão principal e o refrão do meio, a melodia do samba é muito boa de se ouvir, feita com extrema qualidade pelos compositores. Já a segunda parte não vem com a mesma qualidade melódica, perdendo um pouco da força da obra em seu últimos versos.
Estácio: 9,8 – O samba da Estácio de Sá é muito bem escrito pelos compositores e nele é possível entender o enredo da escola. Melodicamente, ele não apresenta nenhuma novidade, segue um padrão já conhecido de nós sambistas.
Alegria da Zona Sul: 9,8 – A escola optou por uma samba com uma melodia muito alegre para 2019. Geralmente, os sambas de temas afros são mais densos, essa diferença me agradou bastante. Apesar de ser um bom samba, ele é comum em sua estrutura melódica e poética.
Bangu: 9,8 – A melodia do samba da Bangu é muito boa de ouvir, com algumas nuances bem interessantes, me agradou bastante. Já a letra, é forte, mas para quem escuta o samba, não consegue identificar do que se retrata, isso pode ser um fator negativo para a interação com público em seu desfile.
Sossego: 9,8 – A escola vem com um bom samba para seu desfile de 2019. Ele segue o padrão do ano passado de não ter verbos e nem rimas entre as estrofes, que é um ponto de muita dificuldade para os compositores na hora de escrever, mas eles se saíram muito bem. O ponto que não me agradou muito na obra é o refrão do meio, que melodicamente foi prejudicado pelo uso da palavra livre arbítrio, que quebrou a constância melódica.
Rocinha: 9,7 – O samba da Acadêmicos da Rocinha foi muito bem interpretado no CD pelo Ciganerey, dando uma levantada na melodia em relação a gravação na versão dos compositores. A obra tem uma letra direta e de fácil entendimento do tema. Melodicamente, o samba é comum, sem nenhuma nova solução melódica.

Darlan Alves (intérprete da X9 Paulistana)

Unidos da Ponte: 10
Alegria da Zona Sul: 10
Rocinha: 9,9 – Tema forte letra muito bonita, mas sinto que no refrão de meio o excesso de palavras pode acabar dificultando seu desenvolvimento na avenida, mas é claro que sendo feito um grande trabalho no canto da escola com a garra de seus componentes isso será superado com certeza.
Sossego: 9,9 – A mensagem que esse samba traz é realmente muito bonita e me chama atenção em sua forte letra é que no seu refrão do meio temos “livre arbítrio“. Não é uma critica é só uma preocupação no desenvolvimento do desfile, dependendo do andamento de sua bateria pode dificultar o canto da escola, mas tenho certeza que a harmonia da agremiação vai trabalhar para que isso não aconteça.
Santa Cruz: 10
Unidos de Padre Miguel: 9,9 – Mais um samba que traz em suas linhas um tema forte e atual. Um dos refrões mais agradáveis de ouvir nesse CD, melodia, levada e bossas muito equilibradas, mas sinto que o samba ficaria com um brilho maior se fosse gravado pelo menos meio tom acima. Acredito que valorizaria ainda mais a interpretação da obra.
Inocentes: 10
Unidos de Bangu: 10
Renascer: 10
Estácio: 10
Porto da Pedra: 10
Império da Tijuca: 10
Cubango: 10

Aloisio Villar (compositor)

Ponte: 10
Alegria da Zona Sul: 10
Rocinha: 10
Santa Cruz: 10
Unidos de Padre Miguel: 10
Inocentes: 9,8 – Samba acelerado em que alguns momentos a melodia não deixa respirar na primeira, na segunda isso melhora, letra comum.
Sossego: 9,9 – Samba bonito, mas não sei se funciona na hora, samba pesado que pode atrapalhar um pouco o trabalho da harmonia.
Bangu: 9,8 – Melodia bonita, letra tem altos e baixos caindo um pouco na segunda, refrão comum.
Renascer: 9,9 – Melodia superior a letra que tem momentos inspirados e outros comuns. Bom samba, mas inferior aos que levaram 10 e os recentes da agremiação.
Estácio de Sá: 10
Porto da Pedra: 9,7 – Melodia previsível, sem grande variação, letra comum, descritiva com pouca poesia mesmo sendo na primeira pessoa, o que facilita para isso.
Império da Tijuca: 9,8 – Bom samba, mas com refrão comum repleto de clichês, letra com altos e baixos com partes poéticas e outras claramente por exigência da sinopse como na segunda metade da segunda.
Cubango: 10

Guilherme Ayupp (chefe de redação do CARNAVALESCO)

Unidos de Padre Miguel: 9,8 – Letra com boas soluções em cima do enredo proposto pelo carnavalesco, João Vitor. Passagens bastante inspirada, como o trecho que fala que na Vila Vintém se aprende a amar o samba. Ganhar ou perder faz parte também brinca com a própria dificuldade da agremiação em conquistar o sonhado título. Compositores evitaram o clichê de repetição de obras de Dias Gomes. A melodia acompanha o estilo dos recentes carnavais da escola, o que vem dando certo
Porto da Pedra: 9,7 – Obra muito criticada no período da escolha mas que demonstrou um enorme crescimento na gravação do CD. Credito este fato a uma grande interpretação de Luizinho Andanças e um arranjo muito bem feito, o que certamente valorizou a composição. A letra entretanto não se mostra tão inspirada. O personagem Antônio Piranga é riquíssimo e poderia render uma obra mais poética. A primeira parte da composição é a mais inspirada. Melodia com as características históricas do Porto da Pedra.
Inocentes: 9,9 – Novamente, a agremiação da Cidade do Amor opta por um samba encomendado e obtém êxito ao trazer mais um bom samba para a avenida. O intérprete Nino do Milênio mostra ter amadurecido após passagem pelo Tuiuti. Ele é um dos destaques da passagem da obra. Melodia com muitas nuances melódicas. Uma primeira mais em maior é uma segunda em menor. Refrões fortes. Boa sacada da letra com o trecho “inocente brasileiro”.
Cubango: 10
Estácio: 10
Império da Tijuca: 9,9 – Em uma safra de elevadíssimo nível, como vem sendo uma marca da Série A, certamente o primeiro Império do Samba contribui de maneira decisiva. Como é tradição no Morro da Formiga, obra com uma melodia muito bem trabalhada. A letra também é muito inspirada e apenas perde um pouco ao citar o agronegócio.
Alegria da Zona Sul: 9,8 – Repetindo o que vem ocorrendo desde 2016, mais um samba de qualidade da agremiação do Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Embora não fosse a melhor composição da safra de concorrentes, o samba tem valor e desempenhou um bom papel nessa gravação. Igor Viana demonstra que já passou a hora de uma oportunidade no Grupo Especial, sem qualquer desmerecimento à Alegria. O cantor da uma aula de interpretação na faixa. Grande entrosamento com a bateria. O refrão principal promete ser um dos mais cantados da Série A em 2019.
Renascer: 10
Santa Cruz: 10
Rocinha: 9,8 – A borboleta encantada traz uma obra que foge um pouco às características históricas da escola, o que não é necessariamente ruim. O samba traz um importante recado contra o racismo com uma melodia bem bonita. “Quem deveria me chamar de irmão tem tanto desprezo na alma” é um recado duro a quem coloca seres-humanos em prateleiras. Entretanto, a obra na segunda do samba perde um pouco de qualidade de sua letra. O refrão principal também não acompanha a boa qualidade de outros trechos mais inspirados.
Bangu: 9,7 – A obra da vermelha e branca demonstra a importância de uma produção bem feita. É uma das composições que mais cresceu na gravação. Tem-Tem Jr e Luís Oliveira estreiam com o pé direito. Vozes que se encaixam e se completam da dupla de jovens cantores. A letra entretanto se torna clichê em um enredo bastante confuso.
Sossego: 9,6 – Um enredo necessário em tempos de intolerância. A parceria montada para desenvolver a obra, que obteve grande êxito nos últimos carnavais, principalmente em 2016 e 2017, não acertou nesse ano. Destaque para a dupla Juliana Pagung e Guto, outros que estreiam em um microfone oficial.
Ponte: 9,7 – Reedições sempre oferecem um grande risco. Se por um lado a aposta em um samba consagrado pode render boas notas, por outra a comparação com a obra original é inevitável. A gravação cumpre um bom papel mas fica muito distante da expectativa criada com a escolha de uma obra deste tamanho.

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