Por Guilherme Ayupp. Fotos de Fotos de Allan Duffes, Isabel Scorza e Magaiver Fernandes

O portelense é um dos sambistas que mais cobra de sua diretoria e do seu carnavalesco para estar bem vestido na avenida. Quando isso acontece a Portela tem uma outra cara na pista. Por esse aspecto a escola poderia até ser apontada como uma das melhores da primeira noite de apresentações do Grupo Especial, pois não deveu nada aos destaques da noite. Entretanto, dificilmente a escola levantará seu 23º campeonato em 2020, graças a um recorrente calcanhar de aquiles.

Novamente, o projeto da comissão de frente foi determinante para afastar a escola do sonhado caneco. Uma sucessão de equívocos que tornam a vulnerável para não conseguir nenhuma nota 10 no quesito, pelo segundo ano consecutivo, o que no equilibrado Grupo Especial significa ver o título escapar pelos dedos.

Comissão de Frente

O premiado e consagrado Carlinhos de Jesus levou para a avenida um conceito de coreografia bastante interessante e de fácil leitura e comunicação com o público. Intitulada ‘Honra Tupinambá’ a apresentação encenou o ritual antropofágico dos índios tupinambás que habitavam o Rio de Janeiro antes da chegada dos europeus. Os índios comiam o europeu em plena avenida. Entretanto, a realização foi desastrosa. A começar pelo elemento alegórico de apoio que só funcionou no primeiro módulo de julgamento. A indumentária do personagem que representava o europeu estava com problemas de acabamento. A maquiagem para torná-lo careca estava mal feita e a parte da nuca estava se soltando, poluindo o visual da apresentação.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Marlon e Lucinha emocionaram com uma dança de muito impacto visual. Eles estavam muito bem caracterizados e o ponto alto foi quando a porta-bandeira simulou dar a luz em plena avenida. Tinham tudo pra deixar a avenida com a sensação de dever cumprido. Porém, a experiente porta-bandeira cometeu um erro na segunda cabine de julgamento. Ela deixou a bandeira enrolar durante a apresentação, o que pode ocasionar em descontos na nota. Eles fizeram uma apresentação inspirada no mito de origem Tupinambá.

Quando Monãc astigou a humanidade, apenas Irim-magé, homem considerado digno, foi poupado e levado aos céus. Compadecido de sua solidão, Monã ofereceu uma mulher para que pudessem repovoar o mundo. Entre seus muitos descendentes está Mairamuãna, o “profeta transformador”. O Mestre-sala Marlon Lamar interpretou Irim-magé. A porta-bandeira Lucinha Nobre, a Purabore (mulher grávida).

Enredo

Enredista dos mais competentes do carnaval, Renato Lage provou toda a sua capacidade de defender bem uma narrativa na avenida. Com um conjunto de alegorias e fantasias de extremo bom gosto dividiu muito bem os setores e manteve uma linha coerente, com bastante leitura nos carros e figurinos. Renato foi quem trouxe para o carnaval essa forma simples de passar a mensagem, que facilite sua compreensão, sem no entanto perder o apuro estético.


Fantasias

Um bálsamo para os olhos degustar o conjunto de fantasias da Portela na avenida. A escola possui história de desfiles belíssimos com o raiar do dia e desta vez não foi diferente. E foi justamente quando o sol nasceu que a escala cromática usada por Renato e Márcia se mostrou um evidente acerto. Destaque absoluto para as roupas do segundo setor da escola. Os tons cítricos das alas 06, 07 e 08 “explodiram” com a luz do sol e impressionaram o público. O tradicional azul e branco da Portela não esteve ausente e foi usado na abertura e no encerramento. Faltou só um pouco de apuro da agremiação na reprodução de algumas alas, que se desfizeram na avenida em frente aos módulos 4 e 5.

Alegorias e adereços

Belo conjunto apresentado pela Portela, embora não tenha sido grandioso. Renato mostrou toda sua versatilidade com alegorias que fugiram completamente ao seu padrão estético, conhecido como high-tech. A única que tinha os traços característicos do design de Renato era o último carro. A águia da Portela também tinha traços do estilo do carnavalesco, com as asas com movimentos que deram um efeito muito bonito no amanhecer. A segunda alegoria se destacou no conjunto e a terceira, embora estivesse muito bonita também, tinha problemas de acabamento no revestimento da pele das esculturas.

Evolução

Com um dos melhores trabalhos neste quesito entre as escolas do Grupo Especial, a Portela mais uma vez evoluiu muito bem pela avenida. Tanto no aspecto de espontaneidade do componente, com as pessoas evoluindo, se movimentando, brincando o tempo todo, quanto no aspecto de andamento da escola, com uma evolução coesa. Concluiu seu desfile com tranquilidade, sem correr.

Harmonia

Dentre as escolas que se apresentaram no domingo de carnaval a Portela demonstrou o melhor canto da noite. Se considerarmos que a agremiação foi última a desfilar e seus componentes estavam mais cansados foi um feito ainda maior. Todas as alas passaram cantando muito.

Samba-Enredo

Cotado como um dos melhores sambas do ano, a obra portelense comprovou toda a sua qualidade, defendida por um inspirado Gilsinho. O intérprete da Portela comprova que vive o melhor momento de sua trajetória e conduziu a obra com maestria, sem cacos em excesso e com muita categoria. Um dos pontos altos do desfile.

Outros Destaques

A bateria Tabajara do Samba levantou o público com sua passagem pelo Sambódromo. A cantora Teresa Cristina estava muito emocionada à frente da escola e esteve todo o tempo próxima do presidente Luís Carlos Magalhães. Muitas pessoas aproveitaram o último carro espelhado para fazerem fotos com seus celulares.

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