Por Leonardo Antan

Todo anos duas festas param o mundo inteiro nos primeiros meses do ano: o Oscar e o Carnaval. Apesar de acontecerem quase sempre juntas, tem vezes que até no mesmo dia, poucos enxergam como elas celebram formas de artes plurais e multifacetadas. Obras de artes compostas pelo trabalho de um time gigantesco de profissionais das mais diferentes áreas que se unem num único espetáculo de pouco mais de uma hora.

Se o Cinema é uma arte reconhecida mundialmente, chamado de a Sétima Arte. O carnaval devia ser a Oitava Arte, já que os desfiles das escolas de samba são uma das manifestações mais completas do mundo, pois reúnem diversas formas artísticas num único espetáculo. Música, dança, teatro, artes visuais e até literárias se unem num cortejo multifacetado, que engloba tantos saberes e ancestralidades.

Tantas artes reunidas, torna as apresentações complexas de serem analisadas. Para o cinema e o carnaval, tudo está reunido numa única obra: visualidade, narrativa, música e aspectos cênicos. Em ambas as artes, um time amplo de profissionais é necessário para que tudo saia da melhor forma. Para um desfile ganhar o carnaval, ou um filme o Oscar, ele precisa alinhar de maneira competente todas os aspectos que formam a sua linguagem artística. Você conhece bem os aspectos dessas artes? Confira um breve paralelo.

Um bom roteiro – Enredo

Tudo tem que começar com uma boa história. O roteiro deve contar uma história coesa e bem estruturada. Geralmente, é bom que tudo se desenvolva com no esquema clássico de início-meio-fim, desenhando uma sequência lógica de acontecimentos que devem ser compreendidas pelo espectador.

No cinema, o diretor conta sua história através de cenas e diálogos. No carnaval, essa história precisa ser entendida visualmente na estrutura consolidada da festa que é dividida em setores narrativos, compostos por alas e alegorias. Na sétima arte, é comum a estrutura de 3 atos, enquanto na folia, uma agremiação tem até 6 setores para desenvolver sua história.

Todo filme se passa numa tela em branco, é naquele espaço geométrico retangular que se desenha a história, ganhando cores e formas, atuações e falas. Montada em planos, sequências, cortes e cenas. O diretor é o maestro que reúne em torno de si todos esses profissionais, dando uma unidade a figurino, cenários, fotografias, música e edição.

Na Sapucaí, a tela é uma pista também branca, a ser preenchida pelo corpo da escola que o invade em cortejo. Música e dança movimentam milhares de pessoas que juntam forma uma escola de samba. Nesse palco iluminado, comissões, alas e alegorias formam os pilares dessa linguagem que é comandada em grande medida pelo carnavalesco, apesar de várias profissionais também terem sua importância.

A melhor Fotografia

Apesar de ter nascido dos batuques africanos, as escolas de samba tiveram na sua visualidade uma ferramenta poderosa para conquistar as massas. Os carnavalesco passaram a dar as cartas, tornando o visual algo para lá de importante. Assim, se no cinema, uma boa fotografia deve ajudar a situar a história. Onde os enquadramentos chamam atenção para o que precisamos captar da história, enquanto as cores também ajudam a ambientar os sentimentos e o clima da narrativa.

Para nossa festa popular, cor é palavra fundamental. Afinal, a união entre alas e alegorias deve ter harmonia e um desenvolvimento coeso a serviço da história a ser contada. Jogos de cores e os usos de materiais ajudam a entender o universo onde o enredo se passa, qual a intenção de sentimentos que o carnavalesco precisa passar. Formando a fotografia perfeita a ser entendida pelo público.

O figurino

O ato de se vestir moldou a humanidade desde seus primórdios. As roupas revelam a época que a história se passa e ajudam a caracterizar os personagens. Quem nunca julgou uma pessoa pela maneira como ela se veste? Logo, figurino é fundamental para as duas artes. Não à toa, o carnaval importa muitos profissionais formados nessa área.

Se no cinema, às vezes o realismo e a fidelidade históricos são quase via de regra, o carnaval tem uma linguagem estabelecida pelo luxo e a opulência. Fato é que as alas são partes fundamentais da história a ser contadas, pois são os figurinos que ajudam a entender em que época e local o enredo que está sendo contado se passa.

Plumas, paetês e pedrarias formam os materiais que ajudam a enfeitar ainda mais as vestimentas de quem cruza a Avenida. Geralmente, se o carnavalesco opta por investir em uma linguagem mais simples e realista é mal julgado e mal visto pelo público. Engessando a folia de alguma maneira num padrão estética pré-estabelecido.

Design de produção – Cenário

Além do figurino, outra área que tem ligação obvia entre os dois universos são a importância dos cenários. A reprodução de um mundo ficcional em objetos e elementos para servir de fundo a história que se pretende contar, onde assim como os figurinos eles ajudam no tom que a história será vista e entendida.

Na folia, as alegorias e adereços ocupam a função de dar ao espetáculo a sua tridimensionalidade. Esculturas, queijos, tablados, formas retos e curvas delimitam o que se espera desse quesito. O gosto geral é de que alegorias precisam ser grandiosas e opulentas, mas é possível dar conta da sua história com formas mais variadas. O importante é que se crie uma unidade visual que esteja a serviço do enredo. O acabamento também é sempre fundamental e severamente avaliados, para dar bom-gosto e cuidado aos desfiles.

Efeitos Especiais

Muita pirotecnia e um espetáculo visual, truques de mágicas e efeitos práticos: já entendeu que quesito é esse?

Apesar de efeitos especiais, estarem nas alegorias que se movimentam, esculturas que gesticulam e até em coisas simples. Na última década, um quesito em especial abusou desse recurso. Pois não dá pra falar de Comissão de Frente sem falar de efeito especial: trocas de roupas, homens voando, cabeças caindo, telões de LED, muitas são as tecnologias que tem sido usadas como trunfo no quesito. Pro cinema, os efeitos existem desde os primórdios para inventar uma realidade ficcional, mundos distantes e utópicos.

A trilha sonora

No cinema, a música ajuda a espectador compreender as emoções dos personagens e qual sentimento o diretor que passar com determinada cena. Uma sequência de beijo pede uma trilha romântica, ou uma cena de separação tem um fundo musical mais triste.

Na arte carnavalesca, a música é elemento fundante do espetáculo e serve como um guia tanto para apresentar o enredo, como evocar imagens que serão materializadas na apresentação. Direcionando o entendimento da plateia sobre o que está se desenhando. Muito mais que simples trilha sonora, o samba é que sempre caracterizou os desfiles de outras manifestações carnavalescas da cidade.

Harmonia – Mixagem e Edição de Som

E não basta apenas ser uma bela letra, o samba-enredo precisa ter cadência e ritmo para ser entoado em cortejo e por um coral plural e muito amplo. Por isso, algumas pausas para respirações são fundamentais e também é bom momentos de explosão que ajudam a impulsionar a avenida. É exatamente sobre essa força coletiva dos desfiles que vale um quesito inteiro: a Harmonia.

No cinema, vários profissionais são responsáveis por criar os sons que ouvimos em cena e dão naturalidade ao filme. Esses efeitos, mais as vozes dos atores e a música precisam ser equalizados para que nenhum se sobreponha ao outro, dando harmonia ao que é visto na tela.

Nas escolas de samba, não é à toa que o quesito referente ao lado sonoro receba esse nome. Com mais de três mil pessoas formando o corpo de uma escola, todas precisam cantar em uníssono e sem desanimar a obra musical da escola. Sem esquecer ainda que bateria, carro de som e esse corpo de componentes tem que estar em perfeito equilíbrio de som na pista. Assim como um filme digno de ganhar Mixagem e Edição de Som.

A edição – Evolução

Os chamados quesitos de pistas são aquele que acontecem na hora H do desfile. Os ensaios até existem para tudo correr da melhor forma, mas é quando a sirena apita que a coisa acontece. Ao lado da harmonia, outro quesito de pista é a Evolução. O ritmo com que a escola precisa desfilar é fundamental para o sucesso ou não da sua apresentação.

Mais uma vez, esse aspecto encontra paralelo no cinema: a Edição. A montagem de um filme tem que ser competente, as coisas não podem acontecer muito rápido, nem tão devagar. Buracos na narrativa são imperdoáveis, aquele ritmo de que “nada acontece” não pode imprimir na tela. Uma descrição que vale tanto pro carnaval como pro cinema.

Atuação – Melhores atores

Antigamente, o paralelo entre as artes da cena e do carnaval eram mais próximos quando se falava de atuação. O que hoje o que chamamos de desfilantes eram chamados de “figurantes”. Aquele corpo mais expressivo da escola que se divide em alas.

Ao oposto deles, historicamente, os destaques assumiram o papel de protagonistas de alguns enredos, o caso mais clássico é de Isabel Valença que incorporou Xica da Silva, no Salgueiro em 1963. Além das fantasias voluptuosas desses seres vestidos para brilhar, outros personagens também acabaram roubando o protagonismo da festa: o casal de mestre-sala e porta-bandeira quase sempre também atuam como personagem do enredo, as alas das baianas, algumas musas e rainhas de bateria.

Fato é que no carnaval, não há ninguém de maior ou menor importante, todos são protagonistas ao formar o corpo de uma agremiação. Mais importante é valorizar os baluartes de cada agremiação, os verdadeiros heróis da narrativa é quem dar duro pela sua comunidade, não as estrelas que chegam de última hora e posam bonitas de frente para as câmeras.

O Oscar sempre é da Academia… Aqui tudo acaba em Carnaval

Todos acomodados nas arquibancadas e nas salas de cinemas. A tela em branco é preenchida por cores, efeitos, formas, personagens. Cinema e Carnaval são duas formas de artes fascinantes. E se a festa do Oscar já passou, a das escolas do samba está chegando logo mais.

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