Por Leonardo Bruno

A Marquês de Sapucaí é o local onde o Brasil se enxerga de forma mais nítida, e a primeira noite de desfiles da Série A, na sexta-feira de carnaval, foi uma espécie de reencontro do povo com sua brasilidade – no que ela tem de melhor e de pior. A festa começou e terminou com duas porta-bandeiras que simbolizam bem o que está representado naquela Avenida colorida. A abertura da Unidos da Ponte trouxe Camylinha Nascimento defendendo o pavilhão azul e branco. Camyla é neta de Vilma Nascimento, a maior de todas as porta-bandeiras, e representa uma característica muito cara ao carnaval: a ancestralidade, a transmissão de conhecimento pelas gerações, a herança da arte através do sangue. Quando ela pisou na Passarela, representando o Oráculo de Ifá, os deuses do carnaval se agitaram ao reconhecer décadas de sabedoria dedicada à festa – e, claro, abençoaram a estreia da menina. Se a abertura da noite foi assim, o encerramento também foi simbólico. No último setor da última escola, a Acadêmicos do Sossego, outra porta-bandeira chamou a atenção: Anderson Morango, que com o mestre-sala Wladimir Bulhões formou pela primeira vez um casal de dois homens na Sapucaí. Com a fantasia “Filhos de Deus perseguidos pela intolerância”, os rodopios de Anderson nos lembravam a todo momento quem somos: ao mesmo tempo, o país que mais mata LGBTs e o país que produz a festa mais tolerante do planeta, o carnaval. Incoerente? Pois o Sambódromo nos deu repetidas lições do paraíso e do inferno que é ser brasileiro.

O melhor do Brasil passou na abertura da Santa Cruz, trazendo a grande homenageada do enredo, Ruth de Souza, uma das glórias de nossa cultura, primeira atriz negra a pisar no Municipal, a ganhar o Kikito em Gramado, a ser indicada a um prêmio internacional. A emoção de ver dona Ruth, aos 97 anos, receber os aplausos de seu povo, sentadinha em seu trono de rainha, fez os pingos de chuva ganharem toques salgados em nossos rostos, misturados às lágrimas que rolavam para a Grande Dama, num encontro das águas que lavava corpo e espírito.

As chuvas que caíram ontem, aliás, não nos deixavam esquecer a cruz que carregamos: nossa sina é encontrar o palco principal da grande festa totalmente alagado, sem escoamento, num problema que se sucede há 35 anos sem solução – e aparentemente piorando com o descaso com que é encarada a manutenção do Sambódromo. Um local que deveria vestir trajes de gala para receber seu público e seus artistas, mas que está entregue ao abandono, com fios soltos, instalações deterioradas e riscos iminentes para quem se atreve a pisar ali.

A escola mais castigada pela chuva foi a Ponte, e houve quem ousasse culpar um equívoco do samba-enredo por esse “castigo”. “Oferendas”, o samba reeditado de 1984, traz um verso que recomenda: “E pra Oxóssi / Milho cozido no mel” – mas até os recém-iniciados no candomblé sabem que não se oferece mel ao orixá caçador… Os carnavalescos tentaram salvar a escorregada da letra com um texto entregue ao corpo de jurados, dizendo que o samba se referia ao mel no “sentido figurado”, representando algo doce… Mas a quizila já estava armada.

O tom religioso foi fortíssimo nos enredos da primeira noite, que teve ainda a umbanda da Alegria e o Jesus Malverde da Sossego – metade dos desfiles da Série A fala de devoção. Seria difícil imaginar isso no carnaval há 30 anos, quando temas desse tipo eram episódicos. Agora, festejamos a entrada da fé com força na Avenida, mas olhamos fora dela e vemos os casos de intolerância religiosa proliferarem por todo o país. Quem te pediu coerência, meu Brasil?

A Unidos de Padre Miguel deu algumas pistas de por que nos metemos nesse buraco, mostrando Odorico Paraguaçu sapucaisticamente enganando os eleitores com promessas estapafúrdias e desfiando um rosário de absurdos. Eleitores esses, aliás, que não se cansam de esperar pela chegada de um santo salvador – e lá estava Roque Santeiro para nos lembrar que isso não é novidade por aqui. O samba ainda nos deixava a pergunta: “Zé, nada muda nesta terra?”. Ao que a Sapucaí inteira, ciente da problemática e sem vislumbrar a solucionática, respondia em pensamento: “Não, não muda…”

A Sapucaí é o Brasil inteiro porque as escolas passaram sem destaques nos queijos, com alegorias pobres e fantasias despencando não só por causa da chuva, mas porque não receberam o minguado dinheiro que a Prefeitura prometeu, depois de sucessivos cortes. Pior do que reduzir à míngua a subvenção para as agremiações é não marcar uma data de pagamento, é adiar a assinatura de contrato indefinidamente, é tratar as escolas de samba como assunto secundário numa cidade que deve seu protagonismo internacional a esta festa. Ter no comando da cidade do carnaval alguém que despreza o carnaval: existe algo mais brasileiro do que isso?

O fato é que, se o primeiro dia da Série A não trouxe grandes desfiles nem escolas que devem brigar pelo título, ao mesmo tempo nos obrigou a olhar no espelho e ver o que somos de verdade, rosto limpo, sem a maquiagem que escorria melancolicamente debaixo da chuvarada – e o encontro do glitter com a sujeira das ruas escoando pelos ralos é a metáfora perfeita da nossa realidade. A Padre Miguel fez uma apresentação bonita, a Santa Cruz emocionou, mas ninguém pareceu forte o suficiente para sonhar com uma vaga no Grupo Especial em 2020. A verdade é que colocar estas escolas na pista ontem já foi um milagre – e por isso cada um daqueles componentes merece um abraço de agradecimento. O Rio é isso: faz festa na dificuldade, samba pra esquecer a amargura, celebra o que não tem pra tirar forças não se sabe de onde. A sexta-feira de carnaval expôs nossa pior figura, com as escolas lutando contra um palco despreparado para o temporal, uma Prefeitura que não gosta da festa, um Sambódromo caindo aos pedaços. Mas também nos lembrou o que fazemos para seguir em frente. Nós sambamos.

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