Ao contrário do que muitos internautas dizem pelas redes sociais, não existe uma bolha do carnaval. Caso houvesse, essa bolha seria diferente da realidade convencional. Não haveria preconceito de cor, sexualidade, religião e etc. No que chamam de bolha, o racismo permanece diariamente. Basta fazer aquela tradicional pergunta. Quantos carnavalescos assinam negros assinam carnaval no Grupo Especial? Quantos presidentes são negros? A maior festa popular do planeta tem em quase totalidade, nos cargos de alto escalão, o predomínio do homem branco e hétero, assim como na sociedade brasileira. O primeiro passo para se combater qualquer mazela é assumir que ela existe. Porém, isso não acontece no Brasil. O brasileiro bate no peito e esbraveja pra todo mundo que não é racista, mas, segundo o IBGE, negros tem quase três vezes mais chances de morrer assassinado do que uma pessoa branca. Somente no Rio de Janeiro, 1800 pessoas foram vítimas de intervenção policial. Delas, 1400 eram negros. Os dados assustam, machucam e nos fazem refletir.

O site CARNAVALESCO começa a partir dessa semana uma série de matérias cujo os protagonistas serão os criadores da folia. “Lugar de Fala” pretende por meio de um bate papo com os entrevistados ouvir histórias, desabafos, desafios e conquistas dos negros dentro e fora do carnaval. Para dar início, ouvimos um jovem que carrega toda herança negra verde e branca de sua família e hoje ocupa o cargo máximo da Sinfônica do Samba, bateria do Império Serrano.

Estreante para o próximo carnaval à frente de uma das baterias mais conceituadas do Brasil, mestre Vitinho é um rosto conhecido do sambista carioca. Negro, de dreads e sempre com sorriso no rosto, de 31 anos, é neto e filho de ex-mestres de bateria do Império. Não poderia ser diferente. Nasceu em berço sambista, começou a tocar muito cedo e as conquistas foram fruto de muito trabalho.

“Nasci no samba. Meu avô e meu pai foram mestre de bateria do Império Serrano. A minha mãe conheceu meu pai dentro da quadra. Nasci em 90, logo em 94 já sentia vontade de entrar para bateria, ficava fazendo barulho em tudo o que via pela casa. 97 foi meu primeiro ano no Império do Futuro, onde toquei até 99. Em 2000 meus pais se separaram e eu parei de frequentar. Voltei em 2004 quando comecei a andar sozinho e surgiu o desejo de desfilar. De início não fui muito bem aceito no Império, porque a bateria era bem fechada. Então fui pra Portela. Onde comecei de fato a escrever minha história como ritmista. Já estive como mestre em várias escolas do acesso como Favo de Acari, Acadêmicos de Madureira, Arranco, Ponte e agora, se Deus quiser, estarei à frente da sinfônica no próximo carnaval”, resumiu o mestre.

Apesar de hoje o mestre ser bastante resolvido e consciente do que sua cor representa, Vitinho é enfático quando o assunto é racismo e declara que no fundo, todo racista tem inveja da origem do povo preto.

“Antes de mais nada a gente tem que ter muito orgulho da nossa cor. O mundo que a gente vive requer que tenhamos bastante força, liderança, força de vontade e acima de tudo alegria. Nós do carnaval levamos a paz para vida das pessoas. Por muitas vezes quando eu tocava na noite, recebia elogios de muitas pessoas afirmando estar mal, e até desistindo da vida, porém depois de assistir o show teve forças para continuar. Eu tenho muito orgulho da minha cor. Sou o tipo de pessoa que não ligo muito para o que as demais pessoas acham e tem preconceito com a gente que é preto. Nós negros temos que ter muito orgulho de onde viemos. Eu entendo que muita gente fica com raiva, mas a minha opinião é que temos que cagar pro preconceito. Lógico que dá raiva, mas temos que nos sentir premiados pela cor que temos. Os racistas têm inveja da nossa raça, da nossa herança, do nosso povo”, desabafou.

Assim como nas religiões de matriz africana, que deram origem ao samba que conhecemos hoje, o Império Serrano é uma das escolas que mais respeita seus antepassados. Antiguidade, na verde e branca, continua sendo posto. O mestre conta que desde que chegou tem aprendido muito com os mais velhos e que a ancestralidade está presente o tempo todo nos ensinamentos.

“Graças a Deus no Império os baluartes estão muito presentes. Se você der um vacilo eles já vêm e te dão puxão de orelha. Lá, você não da aperto de mão para quem é mais antigo, e sim pede benção. Isso é respeitar a ancestralidade e tudo o que conquistaram até aqui. A herança e a energia que a Sinfônica carrega não é algo fácil. Quando você é criado ouvindo a frase que é preciso respeitar os mais antigos, você quer levar esse respeito para frente. Respeitando e cultivando toda a cultura do Império. Com muita humildade eu ouço meus mais velhos e também os mais novos. Não dá pra chegar longe sem respeitar a antiguidade”.

Diariamente centenas de jovens são vítimas de preconceito. Seja no ônibus, lojas de conveniência, shoppings, ou em bancos, racistas insistem em espalhar o ódio. Vitinho contou uma de suas experiências que lidou de frente com o racismo e agiu de igual pra igual.

“Uma das vezes que sofri racismo foi na Caixa Econômica Federal. Fui receber um dinheiro na boca do caixa e o rapaz que estava atendendo não quis pegar o documento da minha mão. Mandou colocar em cima do balcão. Na hora de pagar ele jogou o dinheiro perto do balcão, com desdém. Quando percebi ri da cara dele e perguntei se ele estava com nojo. Agi com naturalidade e no fundo quem ficou com nojo dele foi eu. Na rua várias pessoas atravessam quando veem o neguinho vindo. Quando estou de moto então, acham que é assalto. Infelizmente, estou acostumado, minha atitude é manter o sorriso no rosto e seguir em frente”.

Quiseram os deuses do samba que o mestre tivesse em sua família dois ex-baluartes do Império, com isso Vitinho tem muito o que se inspirar em sua herança familiar. Porém, ele sabe que não é assim com todos, e que precisa servir de exemplo para crianças e adolescentes que iniciaram cedo, assim como ele.

“Assim como me fiz de espelho do meu avô e do meu pai, mestre Nilo Sérgio ajudou muito meu desenvolvimento. Não só como mestre, mas também como homem. Tenho total noção de quanto o samba e a escola de samba para um adolescente representa. Estar no Império, uma escola de raça, negra, que tem bastante raiz para mim é uma satisfação. As comunidades no entorno tem muitos jovens que precisam ter em quem se inspirar. O Império foi a primeira a ter uma escola mirim, o Império do Futuro. Uma das primeiras a ter projetos sociais. É muito bom servir de exemplo para outros meninos, o que posso fazer por eles eu faço. E pretendo fazer muito mais, assim como meu pai fez”.

Além da sua inspiração dentro de casa, o mestre também encontrou no samba pessoas para se espelhar, e deseja ser para os mais novos uma inspiração.

“Ser mestre de bateria é algo que acontece, você não escolhe. Vem por mérito do seu trabalho. Cinco anos atrás eu pensei em desistir de tudo, foi quando perdi minha mãe. Estava sendo muito difícil pra mim, porque tinham minhas irmãs e meus filhos e o samba nos consome muito. Só que amo isso, nasci dentro disso. Não é tão fácil desistir. Percebi que a galera gostava do meu trabalho na Intendente, onde trabalhei por vários anos. Em 2018 quando me convidaram para Série A fiquei assustado, vendo o que eu queria ser realizado. Meu primeiro ano foi uma grande realização na minha vida particular e dentro da escola de samba. Ano de diversas conquistas e principalmente aprendizado. Fui um dos primeiros mestres da Intendente Magalhães a ir para Marquês de Sapucaí. Hoje estou na escola onde meu avô e meu pai passaram, é algo que não se compra. Não dá pra pedir pra ser mestre, isso é feio. A magia tem que acontecer, tem que sentir o poder de conseguir. Estou na minha casa muito feliz e tenho certeza que minha diretoria também está. Eu moro em Madureira, conheço muita gente, mesmo com esse momento de pandemia os projetos estão seguindo, cuidamos muito bem das nossas crianças, já que comecei pequeno como eles”, finalizou.

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