O site CARNAVALESCO volta a publicar textos feitos por Luis Carlos Magalhães, na época que ele ocupava o espaço de colunista do nosso veículo ou no site de O Dia na Folia. O primeiro fala dos sambas (publicado em junho de 2015). Confira abaixo.

Sambas que não morrem

Decorrido um exato mês do carnaval fecho os olhos e deixo fluir a imagem retida em minha memória: o desfile formidável da Vila Isabel. Fico pensando no samba da escola e nos sambas de quase todas as outras. Confesso que sinto uma enorme tristeza; uma tristeza que vem de longe, de tão longe que nem sei mais…

Na verdade tenho que reconhecer que a seiva de minha paixão pelo carnaval, pelo desfile, é o samba-enredo. Acho mesmo que o samba-enredo é o que nutre uma escola, um desfile… um enredo.

Quando o samba é regular, é bonzinho, é funcional, e cumpre o seu papel na avenida o carnaval para mim fica incompleto, perde muito o sabor da festa.

Todo fim de carnaval me animo a procurar, pesquisar, ‘fuçar’ mesmo jornais e revistas na tentativa de localizar o ponto D, os anos D, a década D, enfim achar a marca da decadência do gênero, para citar uma expressão de Sérgio Cabral.

Nunca levei isto adiante, acho mesmo que por medo de achar o tal ponto. Medo de – achando – perder a esperança de que tal fastio seja apenas uma fase. A esperança de que o samba-enredo volte a iluminar e nutrir a festa do carnaval, retomando sua força e seu espaço.

O texto abaixo foi extraído em fevereiro de 1978, às vésperas do carnaval, da Revista de Domingo do Jornal do Brasil, e me valeu como indicador nesta tentativa. Nele o jornalista Marcio Abramo já indicava uma “caída”, um empobrecimento da safra daquele ano e já chamava atenção para os dois anos imediatamente anteriores.

“ (…) Os sambas-enredo, na opinião dos críticos profissionais estão ainda em nível inferior até aos dos que foram produzidos nas duas últimas safras, já consideradas pobres. Essa indigência agravada (…) não seria um mal de essência, isto é, não traduziria o esgotamento da criatividade dos compositores das escolas, que permaneceria generosa. Significaria, isto sim, uma alarmante manifestação da influência de forças que cercam, vindas de fora com interesses que não propriamente os do samba, as escolas, impedindo que chegue à avenida a criação brotada nos terreiros, saída do puro prazer e da necessidade de cantar (…)”.

O diálogo por e-mails com sambistas das novas gerações traz para quem vem de mais longe a obrigação de mostrar o pau, depois de matar a cobra. Muitos perguntam se havia mesmo ‘grandes safras’ ou se, na verdade, ‘saudosisticamente’, vivemos de comparar os sambas de único ano atual com o somatório de vários sambas de diversos carnavais passados.

Uma outra corrente dessas novas gerações, e de outras também, sentencia sem dó: os sambas de hoje morrem no sábado das campeãs. Cabe, neste contexto, só para começar, a pergunta: o samba da Mangueira/2009 é um grande samba?

Cabe, só para continuar, a pergunta: o que é um grande samba?

Cabe, só pra complicar, a pergunta: grande samba em função de quê?

Há sambas que já chegam avisando: Ó, eu sou um grande samba, escuta só!

Outros se revelam grandes no processo e outros só se revelam mesmo na hora “H” do desfile.

Outros… só se revelarão grandes com o passar do tempo, se tornando maiores cada vez mais, a cada ano, a cada carnaval…

Claro que tudo é muito pessoal, mas dou para exemplo da primeira pergunta o samba da Portela de 1984, ‘Contos de Areia’. A primeira vez que o ouvi, muito mal cantado por um colega de trabalho, já fiquei arrepiado. Assim se deu com ‘Bum Bum Baticumbum Prucurundum’, do Império de 1982.

Como segundo exemplo o samba da Mocidade de 1992, ‘Sonhar Não Custa Nada’. Pude ver o samba nascer, crescer e depois me encantar em pleno carnaval. O mesmo aconteceu com “Deu a Louca no Barroco”, da Mangueira de 1999.

O terceiro exemplo que dou é Kizomba, tão fulminante que nem preciso citar a escola e nem o ano. Tá bom que todo mundo que frequentava a Vila já se encantava com o samba, mas “pegar na veia” daquele jeito só mesmo no carnaval.

“Explode Coração” poderia ser citado, fez história e até mudou de nome, mas não o considero um grande samba dentro dos critérios aqui tratados.

Como quarto exemplo cito “100 anos de liberdade ou Ilusão”, da Mangueira de 1988. Se é certo que já no desfile se mostrou grande, é certo também que o tempo fez dele um samba antológico. O mesmo tempo que não deixará ninguém esquecer tantos outros “de anos diferentes” suficientes para encher esta página toda.

Cabe, então, só para avançar a pergunta: o que caracteriza uma boa safra? Um único e antológico grande samba será suficiente? Ou dois ou três? Ou será um conjunto de dois ou três sambas de bom nível no mesmo ano?

Com estas referências saí como um navegador pelos mares do samba em busca de grandes safras, velejando por antigos carnavais. Como em uma bússola, tomei o texto acima reproduzido como ‘norte’ por ele ter a referência do ano de 1978, trinta anos passados, como um ano de safra, digamos, já decadente, segundo o jornalista.

De lá para cá encontrei muito poucas boas safras. Pior, acabei por mares mais bravios. Resolvi então tomar cada escola por um mar: cada escola uma viagem.

Qual terá sido o último grande samba do Salgueiro? O mesmo Salgueiro que, para mim, é a escola que mais produziu grandes sambas em sua história. Sendo assim, se considerarmos um samba à altura dessa mesma história, só vamos encontrá-lo na década dos anos 1970 … do século passado. Ou estarei sendo muito rigoroso?

E a Mangueira? Mesmo tendo alguns sambas de bom nível já neste século, e tendo belos sambas em anos salteados no século anterior, se o critério utilizado for igualmente rigoroso, vamos cair também na década de 70, além dos já aqui citados.

A Portela não foi muito adiante, ou nada. Excetuando aquele já citado, qual terá sido o grande samba da escola da década de 70 para cá? Cartas para a redação…

O mesmo se dará com o Império.Se compararmos – só comparar, não exigir nível igual – com os sambas dos anos Silas-Mano Décio qual terá sido o grande samba da escola além daquele também já citado.

Das escolas com histórias de êxito mais recentes poderemos encontrar aqui e ali um samba, dois, três da Imperatriz, da Mocidade, do Estácio ocorridos nas últimas décadas, também da Beija-Flor e da Vila. Mesmo a Ilha que tanto nos encantou já não acerta o alvo há muito tempo.

Há muitos sambas dos quais gostamos, que fizeram bom papel em seus desfiles, que até alcançam a nota plena dos jurados; mas não é disto que estamos falando. A recente entrevista de Bruno Filippo, aqui neste espaço, com o velho Cabral dá bem a conta do quanto esta briga é antiga.

Quando lemos o texto lá de cima, tão distante no tempo, sentimos vibrar a espetada desferida pelo velho Cabral quando diz que o gênero está em decadência; quando Cabral está mostrando sua desilusão, mostra – e os jovens militantes do carnaval já perceberam – que é preciso estar atento e forte, que não podem se dispersar nesta luta cuja primeira, mais importante e mais difícil batalha é saber por que isto está acontecendo.

Para usar a expressão de Marcio Abramo, saber se seria um mal de essência, traduzindo o esgotamento da criatividade dos compositores, ou a má influência das forças que cercam as escolas.

Uma das marcas deste carnaval foi o fato de um carnaval tão formidável como o da Vila ser derrotado por seu próprio samba. Um samba de cuja parceria fez parte seu mais festejado e vitorioso compositor das novas gerações da escola.

Se as atuais safras decepcionam os mais jovens, que dirão os ‘da antiga’, os mais ‘cascudos’?

Que dirão aqueles que, como eu, viram um carnaval com “Chico Rei” e “Aquarela do Brasil”, do Salgueiro e do Império, em um mesmo ano ? ; ou viu depois um carnaval com dois sambas do gabarito de “História do Carnaval Carioca” e os “Cinco Bailes da História do Rio, das mesmas escolas?

Será que algum desses jovens acreditaria que um dia houve um desfile com sambas formidáveis como”Carnaval, Festa de Um Povo”, da Mangueira, e “Pernambuco Leão do Norte”, do Império? E que neste mesmo carnaval havia ainda “D.Beja”, do Salgueiro, “Sublime Pergaminho”, de Lucas e “Quatro Séculos de Modas e Costumes”, da Vila Isabel?

Não teria coragem de dizer a eles que no ano seguinte poderiam ouvir, em um mesmo carnaval,“Bahia de Todos os Deuses”, “Mercadores e Suas Tradições”, do Salgueiro e da Mangueira, e ainda “Yá-Yá do Cais Dourado”, “Heróis da Liberdade”, da Vila e do Império. Mais maldade ainda dizer-lhes que, nesse mesmo desfile, ainda poderiam ouvir a maravilha de samba-poema que é “Flor Amorosa de Três Raças”, da velha Imperatriz.

Neste caso considero prudente omitir deles que poderiam, ainda naquele mesmo desfile, dar ainda só uma ‘escutadinha’ no”Rapsódia Folclórica” da Mocidade ou “Ouro Escravo”, da Em Cima da Hora, duas pérolas.

Isto tudo aí em cima é década de 1960. Silas era o maioral mas era o Salgueiro a escola que mais encantava com seus sambas, com o jovem Martinho chegando pelas beiradas lá pelos lados do Morro do Macaco.

Mas e a década de 1970?

Eu sei que não vão mesmo acreditar, mas houve um ano, 1971, que reuniu “Festa para Um Rei Negro”, “Nordeste, seu Canto, sua Dança”, mais uma vez do Salgueiro e do Império. E mais “Modernos Bandeirantes”, da Mangueira, “Misticismo da África ao Brasil”, do Império da Tijuca, uma maravilha, “Rapsódia da Saudade”, da Mocidade, e ainda “Barra de Ouro, Barra de Rio, Barra de Saia”, de uma inacreditável Imperatriz.

E pode colocar ainda “Lapa em Três Tempos”, da nossa querida Portela.

Alguém com vinte anos pode acreditar nisto?

Só para não me estender muito, podem crer que até 1976 o nível era este. Safras com seis a sete sambas de ótimo nível, incluindo aí sambas de escolas de grupos de acesso.

Pensando melhor, julgo que vale a pena estender um pouco para não deixar dúvidas; curto e grosso:

1970: Lendas e Mistérios da Amazônia, Portela; Glórias Gaúchas, Vila; Oropa, França e Bahia, Imperatriz e Terra de Caruaru do Estácio.

1972: Carnaval dos Carnavais, Mangueira; Ilu, Ayê, Portela; Martin Cererê, Imperatriz; Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade, da Vila; Rio Grande do Sul, Festa do Preto Forro, do Estácio.

1973, fraquinha: Lendas do Abaeté, Pasárgada e Saber Poético da Literatura de Cordel, Mangueira, Portela e Em Cima da Hora.

1974: Rei de França na Ilha…, Salgueiro; Pixinguinha, Portela; Dona Santa, Rainha do Maracatu, Império; Mangueira em tempo de Folclore; Festa do Divino. Mocidade; Festa dos deuses Afro-Brasileiros e (UFA!!) Lenda das Yabás da Ilha.

1975: Minas do Rei Salomão, Salgueiro; Zaquia Jorge, Império; Macunaína da Portela e Festa do Círio de Nazareth do Estácio; O Mundo Fantástico do Uirapuru (uma sinfonia ) da Mocidade e Imagens poéticas de Jorge de Lima (que melodia!) da Mangueira.

1976: Sonhar Com Rei Dá Leão, Menininha do Gantois e Lenda das Sereias, da Beija-Flor, Mocidade e Império. E como se não bastasse: Arte Negra na Legendária Bahia, os Sertões e Mar Baiano em Noite de Gala, de Estácio,Em Cima da Hora e Lucas.

Agora vamos voltar ao texto inicial, do JB.

Quando o jornalista Marcio Abramo, ao se queixar da safra de 1978, afirma que as duas safras anteriores já eram consideradas pobres está se referindo aos anos de 1976 e 1977, certo ?

Vamos, em primeiro lugar, dar uma chegada ao ano de 1978, ano de sua “queixa”.

Huummmm! Vejamos. Criação do Mundo na Tradição Nagô, da Beija-Flor … O Amanhã. É … não foi mesmo grande coisa em termos de quantidade mas absolutamente honrado com o antológico samba da Ilha.

E o carnaval do ano de 1977, por ele também “já” considerado pobre? Tivemos “Domingo” da Ilha e ainda ‘Vovó no Reino da Saturnália’, ‘Mundo de Barro do Mestre Vitalino’ e ‘Brasil, Berço dos Imigrantes’, da Beija Flor, Império da Tijuca e Império Serrano. Huummm … nada mau. Uma glória para os tempos de hoje…

Já o desfile de 1976 marcava a aparição de “Sonhar Com Rei dá Leão”, da triunfante Beija-Flor, “Menininha do Gantois” da Mocidade, “Lenda das Sereias”, do Império. “Arte Negra da Legendária Bahia”, do Estácio e, pasmem, “Os Sertões” da Em Cima da Hora. E ainda Mar Baiano Em Noite de Gala, de Lucas.

No entendimento, ao rigor do jornalista, tais safras foram fraquinhas, fraquinhas … Não sabia o que estava por vir.

Quando li o texto fiquei me perguntando. Será que aquele ano de 1978, por ele apontado estaria sinalizando apenas um “acidente de percurso” ou, muito mais que isto, estaria marcando a decadência do gênero? Quem sabe uma mudança de “papel” dos sambas no contexto “moderno” dos desfiles?

Ao identificar os “sambas que não morrem”, para mostrá-los aqui, pude novamente ouví-los quase todos. Fiquei me perguntando se fosse o caso de trazê-los de volta, se o povo os cantaria nas circunstâncias atuais?

Fiquei me perguntando se os “sambas que não morrem” na verdade nos soam como antigos temas de antigos filmes que marcaram tanto nossas vidas? Se seriam como trilhas sonoras de nossas próprias vidas, de carnavais em que éramos mais jovens e mais felizes. Assim como temas de filmes que nada significam para quem não os viu?

Talvez ficasse mais confortado se tivesse tais certezas.

Não eram mais os tempos em que os sambas, ao invés de morrerem na quarta-feira, eram gravados tempos depois, por cantores de meio-de-ano, com novos arranjos que valorizassem suas belas melodias.

E alguém teria hoje a coragem de jogar no caldeirão da Sapucaí um enredo prosaico como “O mundo Fantástico do Uirapuru”, tal como fez Arlindo Rodrigues em 1975?

A conclusão que chego é a de que aquele momento apontado no texto marcava não apenas o tal “acidente de percurso”. Os sambas enredo dos anos seguintes na verdade mostravam que chegava um novo tempo.

Tempo em que os sambas deixariam de ser a marca maior dos desfiles.

Tempo em que os sambas não mais fariam a alegria maior dos sambistas.

Não seriam mais cantados pelo povo.

Tempo dos sambas que morrem…

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