Pesquisador tem que ter sorte, principalmente os pesquisadores informais, como o meu caso.

Na verdade sempre fiquei “embatucado” desde a primeira vez em que ouvi essa história de que o nome “escola de samba” teve origem no fato de a “Deixa Falar” ter, na época de sua fundação, uma “Escola Normal” ali perto. Assim disseram Ismael, Bicho Novo e todos os pesquisadores.

Mas que escola era essa, afinal?

Já ouvi dizer até que a escola era o Instituto de Educação, e que as cores vieram do América F.C..Mas o Instituto era muito distante para ser “ali perto”. Por outro lado o América, que é quase vizinho ao Instituto, também não era “ali perto” e era perto o suficiente para influenciar nas cores. Mais por outro lado ainda, o Instituto foi fundado em 1930, dois anos depois da Deixa Falar, portanto não teve nada a ver com isso, certo?

Aí parti para a pesquisa. A história das escolas normais do Rio de Janeiro começa lá na segunda metade do século XIX. Várias províncias brasileiras já tinham sua escola normal. O nosso então Município Neutro não tinha. Veio então o decreto imperial nº 6379 de 30/11/1876 e criou duas escolas com a finalidade precípua de formar professores para as escolas do município da Corte. Duas escolas: uma para os homens e uma para as mulheres, tá vendo como é que era? E mais, a escola masculina era em regime de externato, já para as meninas o regime era de internato.

Em dezembro daquele ano, no dia do aniversário do Imperador, foi lançada a Pedra Fundamental do edifício que abrigaria, mas que não abrigou, a primeira escola normal. Era ali na esquina da Rua da Relação com Rua dos Inválidos, bem onde era o DOPS. Isso mesmo, o velho DOPS, de péssima memória. Ali acabou sendo construído o prédio da Polícia Central, é só passar lá e ler a plaqueta.

No ano seguinte, em 5 de abril, era inaugurada a Escola Normal do Município da Corte, nos salões repletos do Externato Pedro II, na rua Larga de São Joaquim. Estavam matriculadas 88 moças e 87 moços. Do Pedro II de suas primeiras aulas o curso normal foi transferido para a antiga Escola Central (hoje Escola Nacional de Engenharia), no Largo de São Francisco, até que em 1888 a escola encontrou abrigo onde é hoje a Escola Técnica Rivadávia Corrêa, lá permanecendo até 1914.

Sabe-se que naquele ano os alunos foram transferidos para uma escola chamada Estácio de Sá. Vi isto e fiquei muito animado, animadíssimo. Logo desanimei ao saber que essa escola Estácio de Sá ficava na rua São Cristóvão. Quer dizer, mais distante ainda que o atual Instituto de Educação: Estaca Zero. Pelo menos era isso eu imaginava.

Vida que segue…

Peguei o carro num domingo de tarde e fui até o começo da Rua São Cristóvão, lá na Avenida Brasil, junto ao gasômetro. Percebi que ali não era o início da Rua de São Cristóvão, era o final. Então fui ver onde começava a rua. Fui indo, no sentido do decréscimo da numeração, até encontrar o muro da linha férrea Leopoldina, na Rua Francisco Eugênio, onde está o prédio alto da Ipiranga. Achei que a Rua São Cristóvão terminava ali, mais ou menos no. 400. Resolvi subir as escadas da passagem de nível sobre a estrada de ferro.

Foi o que fiz, naturalmente já sem carro. Subi as escadas, cruzei a linha férrea e ao descer encontrei uma rua chamada Rua Ceará, onde fica hoje a Vila Mimosa e o reduto Punk da cidade. Caminhei por toda a rua até alcançar a ponte sobre a qual passam os trens da Central, já junto ao Quartel dos Bombeiros da Praça da Bandeira.

Voltei aos documentos iniciais, consultei outros e notei que a tal escola Estácio de Sá era o nº. 18 da Rua São Cristóvão. Ai veio o estalo. A Rua São Cristóvão no passado não terminava ali. Portanto a Rua Ceará não tinha nada que estar fazendo ali. Alguém tinha colocado a Rua Ceará ali. Quem terá sido?

No tempo em que a tal Escola Estácio de Sá passou a ser a escola normal, em 1914, Ismael já era nascido e já morava no Estácio. Só não havia ainda a Escola de Samba Deixa Falar, nem ela nem nenhuma outra. Aliás, não havia nem samba ainda. Havia isto sim, muito choro, muito maxixe, principalmente na casa das tias da Praça Onze. Pelo telefone nem havia sido gravada.

Mas pesquisador tem que ter sorte…

E veio a sorte!

Um dia, eu estava muito impressionado com o CD sobre a região portuária produzido pelo pessoal do bloco Escravos da Mauá, e fazia uma pesquisa sobre mapas daquela região. Lembrei que no Livro do Jô Soares “O Xangô de Baker Street”, que eu havia acabado de ler, havia um mapa da região de antes da reforma da Pereira Passos. Ao observar o mapa percebi que junto ao Largo do Estácio, onde deveria estar a tal escola a que Ismael Silva se refere, existia a Estação da Cia. de bondes São Cristóvão, antiga Street Railway, fundada em 1870.

Aí então apelei e me abracei com o Google Maps. Pude perceber que havia uma linha “coerente de continuidade” entre a Rua São Cristóvão , a rua Ceará e a outra rua que nos conduz até o Estácio. Meti o dedinho no teclado, busquei o Plano de Reabilitação da área e vi absolutamente maravilhado que a Rua Ceará é a antiga Rua São Cristóvão. Restava saber onde era o tal número 18. Fucei outros mapas, inclusive o do Jô com lente de aumento, e acertei no milhar.

Resumo da ópera: A escola normal que procuramos ficava na exata esquina da antiga Rua São Cristóvão com a extinta Rua Machado Coelho. Se ainda existisse hoje ficaria dentro dos jardins da Estação Estácio do Metrô, na exata esquina da Rua Joaquim Palhares com Rua Estácio de Sá.

A história é assim: Tudo começa com uma sesmaria imensa, que ia do Rio Comprido até Inhaúma, concedida em 1565 por Estácio de Sá (olha ele aí) aos jesuítas. Nela estavam contidos o Engenho Velho, o Engenho Novo, a Fazenda São Cristóvão, a Fazenda do Macaco (Vila Isabel), entre outros sítios, tudo depois retomado em 1759 para a Coroa pelo Marquês de Pombal ao expulsar os jesuítas de todos os territórios portugueses.

Pois então, na Fazenda de São Cristóvão passava o Caminho de São Cristóvão, que começava no Largo do Mataporcos, atual Largo do Estácio,atravessava aquela parte da cidade (hoje com o nome de Rua Joaquim Palhares), passava pela atual Praça da Bandeira, seguia em direção ao bairro de São Cristóvão por onde hoje é a Rua Ceará, entrava no bairro propriamente dito por onde é hoje a Rua S. Cristóvão até margear a igrejinha local e finalizar lá pelas bandas do Gasômetro, junto ao que era mar e hoje é a Av. Brasil.

Um dia do ano de 1914, quando já era identificada como Rua São Cristóvão, viu a Escola Estácio de Sá, nela localizada sob o número 18,receber a nobilíssima função de ensinar e formar professores. Permaneceu nesta condição de Escola Normal até 1930 quando suas funções foram transferidas para o então construído Instituto de Educação da Rua Mariz e Barros. A velha escola do no. 18 passou então às funções de Escola Estadual recebendo o nome do educador Uruguaio José Pedro Varela.

Antes disso, essa mesma escola entraria para a história por ter exercido outra nobilíssima função: servir como referência para que o bloco “Deixa Falar”, pela proximidade, se auto-denominasse “Escola de Professores de Samba”;eram eles Ismael Silva, Nilton Bastos, Bide, Rubem Barcelos, Edgar, Aurélio Gomes, Baiano, Brancura, Marçal entre outros. Ensinaram a todos nós o samba carioca que possibilitaria o desfile processional permitindo aos componentes andar, cantar e dançar, tudo que o samba amaxixado da Praça Onze não permitia.

Tudo era conversado no Bar Apolo e no Botequim do Compadre, ponto de encontro da malandragem do Estácio.Era o ano de 1928.No ano anterior morria de tuberculose aos 26 anos o lendário Mano Rubem, bamba da festa da Penha e irmão de Bide, deixando órfão o bloco de corda“União Faz A Força” que ele estava organizando. No carnaval seguinte a nova agremiação foi fundada aproveitando as cores e os sambistas daquele bloco. Durou três anos. Depois de Rubem, morreram Nilton Bastos e Edgar, estes no mesmo ano. Perdeu a graça para Ismael, foi embora do Estácio.

E foi assim que tudo começou “…depois veio a Favela, a Mangueira e a Portela…”

Ah! Eu ia esquecendo: as cores que a “Deixa Falar” herdou do bloco do Mano Rubem são vermelho e branco. E foram tiradas do América mesmo, que era o time preferido da rapaziada e era, digamos, mais ou menos por ali.

Fontes:
· História do Instituto de Educação. Alfredo Baltazar da Silveira, Secretaria de Educação do Distrito Federal, 1954.
· Pioneiros o samba. Arthur de Oliveira Filho, Editorial, 2002
· São Ismael do Estácio, o sambista que foi rei. Maria Thereza Mello Soares, Funarte, 1985.
· Site: http://maps.google.com
· Site:www.geocities.com/areas
· Site:www.metro.gov.br

Sugestões para ouvir:
· Disco: Estácio e Flamengo – 100 anos de samba e amor.
Gravadora: SACI
Música: A primeira escola
Autores: Pereira Mattos e Joel de Almeida
Cantores: Cristina Buarque e D. Ivone Lara

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