A Mancha Verde realizou na noite de sábado e madrugada de domingo a grande final de samba-enredo para o Carnaval 2023. No processo de escolha, a agremiação proporcionou uma competição diferente do habitual. Houve 18 sambas concorrentes que foram eliminados com o passar do tempo, sem apresentação para o público na quadra, até restar os finalistas. Para o ano que vem, a Mancha levará para o Anhembi o enredo “Oxente – Sou xaxado, sou Nordeste, sou Brasil”, de autoria do carnavalesco André Machado. Com três obras na disputa, sagrou-se campeã a última a se apresentar, sendo da parceria de Edinho Gomes e Gilson Bernini. Os compositores venceram pela primeira na escola alviverde e falaram sobre a emoção desse feito inédito. * OUÇA AQUI O SAMBA CAMPEÃO

“Como eu estava falando para o Gilson, chega a ser inacreditável. Derrubar os atuais campeões é difícil e, conseguir derrubar o que deu o título para a escola, é mais difícil ainda. Então a gente só tem que acreditar que nós fomos felizes na nossa obra. A sinergia nossa é muito grande. O respeito um para com o outro é muito grande. Então acho que isso é muito importante. É a nossa segunda final juntos, mas é a primeira vez que arriscamos vir só nós dois aqui”, contou o compositor, Edinho Gomes.

“É muita emoção, primeiro porque a Mancha Verde faz um tipo de disputa diferente de tudo que eu já vi por aí. Tenho 60 anos de idade e faço samba desde os 17. Eu nunca vi uma disputa onde a festa não nenhuma influência no resultado. Isso deve servir de modelo para todas as escolas, porque isso possibilita até compositores anônimos que não têm condições de gastos para concorrer. Eu estou muito feliz, o Edinho é muito parceiro, nós fizemos em 2018 quando o enredo foi sobre o Fundo de Quintal e ficamos entre os quatro. Resolvemos fazer esse ano e, quando tem uma sintonia, tem hora que muitos compositores até atrapalham. Mas o samba é muito lindo e tenho certeza que a Mancha vai brigar de novo para ser campeã”, completou o autor, Gilson Bernini.

Fotos Lucas Sampaio/Site CARNAVALESCO

Na apresentação, o samba foi defendido pelo intérprete Igor Sorriso. Ainda nos microfones, tiveram as presenças de Toninho Penteado e Adeilton Almeida, que renomados intérpretes do carnaval paulistano. Para festa na apresentação da parceria, houve ‘bexigões’, confetes e serpentina. Não houve grande contingente de torcida, porém deu para observar algumas pessoas ao redor da quadra cantando algumas partes da obra. O refrão principal e do meio são de fácil entendimento e foram facilmente cantados, principalmente, o primeiro. Nitidamente, a parceria optou por uma forte presença de palco, ao invés do famoso ‘arrastão’ para fazer valer a pena sua vitória.

A festa ainda contou com a apresentação dos pilotos para o carnaval 2023. Intercalando com as apresentações dos sambas, a escola foi apresentando as fantasias de setor a setor, que irá para o Anhembi no dia de seu desfile e, ao mesmo tempo, o carnavalesco André Machado, falava brevemente sobre elas.

Presidente celebra escolha do samba

O presidente da agremiação, Paulo Serdan, comentou sobre o samba e também a preparação adiantada rumo ao carnaval 2023. “Foi o ano mais difícil para a gente escolher. Tivemos dois sambas que ficaram alternando muito durante a votação, tanto é que teve que fazer a votação hoje para ratificar. Eu estou bem feliz e até brinquei com o meu diretor que a gente está vindo com um samba de sambista mesmo. Ele dá essa impressão. Sobre a preparação, o restante da minha equipe de Parintins está chegando, equipe de serralheria já estava aqui, estamos com os carros prontos pra subir, amanhã o André já passa o projeto de alegoria e a gente já começa a mexer. Também vamos definir se tem alguma mudança de piloto e, se não tiver, já vamos partir para a produção. O que falta comprar são galões, mas plumas e tecidos estão 80% comprados”, revelou.

Ao site CARNAVALESCO, André Machado comentou como surgiu o enredo para o Carnaval 2023. Quando entrei na Mancha Verde o enredo já existia, que foi através de um documentário que Paulo Serdan assistiu e trouxe essa proposta. Por conta do carnaval que fiz pela Pérola Negra em 2013 falando sobre ‘O Alto da Compadecida’, favoreceu para quando eu estivesse na Mancha Verde. O Xaxado, quando se começa a pesquisar, descobre que não é só um ritmo. É uma cultura toda envolvida. Através dessa dança, que foi através de Luiz Gonzaga que se espalhou pelo Brasil inteiro. Outros grandes artistas da cultura nordestina fizeram com que o Xaxado fosse reconhecido. Através da cultura do mestre Vitalino, da religião do Padre Cícero, que era muito ligado também à cultura do cangaço e era muito respeitado como padre. Luiz Gonzaga, Maria Inês e outros artistas que fizeram com que o Xaxado fosse reconhecido pelo país inteiro. Eu estou muito contente, porque é um tema que eu gosto muito. É um tema leve e que as pessoas gostam. Quando falamos de Nordeste costuma dar sambas bons, e graças a Deus tivemos uma final excelente. O samba campeão era exatamente o que a diretoria queria. Fizemos uma audição esse mês inteiro, ficamos escutando sem parar. O Paulinho (Serdan) com esse jeito de trabalhar é muito bacana, que exige que a gente monte e entenda o enredo. Foi muito feliz essa escolha da Mancha Verde.

Carta na manga para bateria

O diretor de bateria, mestre Guma, falou das inovações e ideias de bossas que a bateria ‘Puro Balanço’ pode ter para o próximo carnaval. “A Mancha sempre tem uma carta na manga. É difícil falar agora porque eram três sambas diferentes, e não sabíamos o que iria acontecer, apesar de estar acontecendo a disputa lá dentro da diretoria. A gente sempre deixa para avaliar ou pensar em alguma coisa quando o samba é campeão. O que eu posso adiantar é que com certeza terá alguma coisa, e a gente vai preparar, se Deus quiser, um grande espetáculo. O Nordeste é muito marcante pela cultura e a diversidade musical e cultural. Temos pela frente muitas possibilidades de criar algumas situações diferentes. Nesse Carnaval campeão eu abri o leque um pouco mais do que de costume da minha trajetória, e não será diferente. O próximo trabalho vamos explorar muito, mas sem perder a essência. Temos a possibilidade de criar muitas coisas, mas não podemos esquecer do samba. O Xaxado, que é o que vamos falar, ele representa o que é o Nordeste, a cultura do tema, e temos que enfatizar, mas sem perder a essência. Temos que ousar um pouquinho, as baterias mudaram muito, mas sempre dentro do contexto”.

Casal já projeta dança de 2023

Marcelo Silva e Adriana Gomes, casal oficial da agremiação, avaliou o enredo e o que se pode trabalhar dentro do samba escolhido. “Para nós, temos a dança de mestre-sala e porta-bandeira tradicional, aquilo que não foge do tradicional. Só que a gente começa a trabalhar o próximo carnaval quando anuncia o samba. Esse samba agora, iremos estudar. Estudamos os três sambas já sabendo que poderia ganhar um dos três. A partir de agora, começaremos o nosso trabalho individual, eu e a Adriana só. É um enredo completamente diferente daquilo que a gente vem propondo. Ele pede até um pouquinho de dança diferente, algo diferenciado até mesmo no cortejo. Eu já estou com algumas coisas na cabeça. Quando anuncia o samba eu fico empolgado, mas já fico imaginando ‘poxa, a gente já pode fazer isso, aquilo’. Acho que tem alguns versos no samba que mostra uma coisa muito legal de cortejo”, disse o mestre-sala.

“Até porque o enredo fala de uma dança. Tem todo o universo que envolve a história, mas é uma dança. A gente tem que dançar o Xaxado, mas como isso será colocado na dança tradicional do casal aí é com o Marcelo quem manda”, completou a porta-bandeira.

Adriana Gomes ainda fez uma análise do carnaval de 2022. “Diante de todo o ocorrido na concentração, a melhor coisa a dizer é que nós temos cumplicidade e responsabilidade de ser o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mancha Verde, assim como sermos parceiros da escola e a escola ser parceira nossa. Um time, para ganhar, ele tem que jogar junto, e no jogo individual só ganha o individual. A nossa reflexão de tudo isso é que nós estamos em uma escola que acolhe o nosso trabalho e respeita tudo aquilo que a gente faz e vice-versa. A gente entende todo aquele universo do time que uma escola de samba precisa ter para fazer ‘o’ desfile. Se ele vai ser bom, o melhor ou o máximo, quem vai decidir é o jurado, mas até lá é o time quem joga”, finalizou.

Freddy Vianna e a receita que deu certo

Freddy Viana, intérprete da Mancha Verde, mostrou muito carinho ao falar da escola alviverde. “A minha relação com a Mancha foi uma coisa natural. Quando eu cheguei em 2012 eu tinha acabado de sair da Acadêmicos do Tucuruvi, eram 11 anos de escola, e ficava aquela incógnita. Eu não sabia se eu me encaixaria em outra entidade. Eu aceitei o desafio. O Serdan me chamou, eu falei ‘beleza’, e quando eu cheguei na Mancha foi uma energia tão forte que é até hoje assim. Eu entrei na escola em 2012, ganhei o samba, cantei pela primeira vez um samba meu na avenida, e desde então o carinho pela escola foi muito grande, e foi uma coisa recíproca. Até hoje eu entro na escola e sou muito bem recebido por todos os setores, tanto que meu presidente fala “cara, você só sai daqui quando você quiser, porque você é unânime aqui na Mancha Verde. Eu acho que o que leva a isso é o trabalho bem-feito, o respeito e o caráter da gente. E eles são muito carinhosos comigo, acho que deu muito certo esse casamento. E deu certo também a receita que eu trouxe para Mancha, que é uma receita diferenciada de canto. É uma receita mais leve, uma coisa mais audível de letra e melodia. A gente tenta trabalhar muito bem o samba-enredo e é uma receita que deu certo”.

Agora, com o samba-enredo escolhido, a Mancha Verde deu mais um passo rumo ao Carnaval 2023. A escola será a terceira a se apresentar na segunda noite de desfiles.

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