Mangueira ‘tira a poeira dos porões’ e em oração aclama parceria de Deivid Domênico na grande final de samba

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Por Guilherme Ayupp e Daniela Safadi. Fotos: Allan Duffes

A Estação Primeira de Mangueira aclamou o samba dos compositores Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino na histórica noite de escolha do samba no Palácio do Samba. Com uma disputa polarizada desde o começo do concurso a Verde e Rosa olhou para si própria e optou pela ousadia em escolher uma obra que transcende ao tecnicismo de um quesito. Intencionada a fazer história na avenida e não apenas desfilar no próximo ano, a Velha Manga será a sexta a desfilar na segunda de carnaval com o enredo ‘História para ninar gente grande’ de autoria de Leandro Vieira.

O compositor Deivid Domênico é um dos poetas mais ativistas em um cenário atual no carnaval onde a omissão impera. Campeão na verde e rosa em 2015, vence pela segunda vez em sua escola. Domênico ganhou as páginas dos principais jornais do país ao decidir adotar um menor infrator após sofrer um assalto. Unido a compositores igualmente idealistas e fora do viciado sistema de escritórios, Domênico montou a parceria que mais que uma vitória, conquistou o coração de cada sambista.

“A primeira foi muito marcante mas essa tem um sabor especial. Passei por muitas dificuldades para chegar até aqui. E duas pessoas foram muito importantes nesse processo. A primeira delas é o carnavalesco Leandro Vieira, ele me perguntou se eu faria samba, eu disse que não teria dinheiro mas ele me encorajou dizendo que nunca havia visto na escola um resultado que não fosse a vitória do melhor. E o outro foi Lequinho. No dia que peguei a sinopse voltei com ele de carona e ele me disse que se eu fizesse um bom samba que seria escolhido pela escola. Posso ganhar dez sambas que esse é impar”, disse o compositor campeão.

O parceiro Tomaz Miranda também estava bastante emocionado após a conquista.

“É um samba que fala do enredo, antes de mais nada, foi dedicado a sinopse do Leandro. A gente tentou traduzir da forma mais carinhosa o Brasil. Mostrar que o Brasil é injusto, muito injusto com os verdadeiros heróis que forjaram o país. A Marielle é uma personagem do presente, mais uma negra que foi calada. É mais uma mulher que sai da favela constrói uma história e é apagada da história, assim como foi com todas as mulheres que lutaram pelo voto feminino, assim como foi com todas as mulheres que lutaram pelo fim da escravidão”.

Evelyn Bastos, rainha de bateria, se posicionou sobre o campeão e a safra da Mangueira.

“A gente teve três sambas muito bons. Não tenho voto, mas desde 2014 participo ativamente da final e acho que há muito tempo não temos uma final tão acirrada e com a quadra tão dividida. Acho esse samba do Domênico extremamente inteligente, que dá uma aula de história, tem tudo a ver com nosso enredo. Espero que esse desfile da Mangueira seja muito mais que folia”.

Segmentos tensos não tomam partido em disputa acirrada

O Palácio do Samba viveu daquelas noites de extrema adrenalina. Com duas obras claramente despontadas como favoritas desde o começo da disputa e com a responsabilidade jogada para os segmentos decidirem, os mesmo optaram pela discrição durante as apresentações. De um lado o multi-campeão Lequinho, do outro um samba que homenageia a vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada esse ano. A força da comunidade só pode ser comprovada ao anúncio do resultado com uma Mangueira inteira a cantar.

Bastante badalado em todo o período de disputa o samba campeão não conseguiu na final conquistar a quadra da Mangueira fora da faixa onde esteve localizada a torcida. Sem o intérprete oficial da parceria (Wantuir estava na final da Tijuca), a aposta foi no nome de Pixulé. A passagem do samba ficou aquém de toda a expectativa pela obra mais comentada da temporada de disputas de samba, embora, algumas personalidades importantes da escola tenham cantado. Prova que concurso de samba não se decide apenas na final, vale o conjunto todo da disputa.

A questão política que divide o país deu o tom no Palácio do Samba ao final da já manhã de domingo. Gritos de “Ele Não” em meio aos versos do samba campeão puderam ser claramente escutados, em alusão à candidatura de Jair Bolosonaro (PSL) à presidência da república. Não foi um grupo grande, mas bastante barulhento.

Quadra recebeu grande público

Lotada, a quadra da Mangueira pode sentir também a potência vocal de seu novo intérprete Marquinhos Art’Samba, que passeou pelos clássicos sambas mangueirenses com enorme segurança. O casal Matheus e Squel realizou uma apresentação vibrante e a rainha de bateria Evelyn Bastos deixou novamente a todos de queixo caído com sua sensualidade e samba no pé inconfundíveis em um modelito pra lá de ousado. A noite que se avizinhava histórica foi aberta com uma palhinha de ninguém menos que Alcione.

Presidente confia no talento de Leandro Vieira

Em entrevista ao site CARNAVALESCO, o presidente Chiquinho da Mangueira falou sobre sua última final, já que ano que vem haverá eleição na Verde e Rosa.

“Estou preparado, como sempre nas finais que comandei aqui. Tivemos os três melhores sambas para essa final e a escolha foi totalmente transparente, com os segmentos declarando o seu voto, como toda a imprensa acompanhando. Escolhemos aquele que a quadra decidiu, e isso é fundamental em uma escola como a Mangueira”, disse.

Perguntado se era fácil apostar em enredos autorais do carnavalesco Leandro Vieira, Chiquinho mostrou total confiança no artista.

“Eu não diria que é fácil, mas a relação de confiança me dá muita segurança nele. O Leandro é um cara extremamente talentoso e isso permite com que seus enredos se destaquem sempre. Eu sempre falo que vou buscar algum enredo patrocinado, mas ele sempre me convence de algum tema muito bom. Até teria algumas propostas patrocinadas, mas todos muito chapa branca”.

Mudança nas alas da Mangueira

Segundo o ex-presidente e membro do conselho de carnaval da Mangueira, Alvaro Luiz Caetano, o Alvinho, a Verde e Rosa mudará o contingente de suas alas.

“Alas comerciais teremos 20, mas diminuímos o numero de fantasias para 40 por ala. São 800 fantasias em um contingente de 3.200 componentes. Os segmentos já estão ensaiando, a comunidade ainda não. A partir da escolha vamos tratar da gravação e logo em seguida dos nossos ensaios de rua no mesmo local onde estamos ensaiando nos últimos anos (próximo da quadra)”, disse Alvinho.

Nova cara no comanda da bateria

Novo responsável pela bateria da Mangueira, mestre Wesley contou que aprova o trabalho feito pelos mestres Rodrigo Explosão e Vitor Art.

“O trabalho do Rodrigo e do Vitor desde 2015 foi muito bom. Houve o fim natural de um ciclo e eles permanecem na bateria tocando com a gente. Agora é um novo ciclo comigo no comando. Mas aqui na Mangueira a bateria é diferente. Antigos mestres participam e não deixam de estar junto após saírem”.

Mestre Wesley explicou o que pretende fazer na bateria para o desfile de 2019.

“Vou dar uma valorizada nos repiques e tamborins. Segundo algumas justificativas nos últimos anos foram naipes que apresentaram alguns problemas e será meu objetivo para a bateria em 2019. Vamos desfilar com 270 ritmistas. Estamos ensaiando com dois andamentos: 144 e 146 BPM (batidas por minuto)”.

Um dos maiores nomes da atualidade no carnaval do Rio de Janeiro, o carnavalesco Leandro Vieira é unanimidade na Mangueira. Porém, o artista não quis falar sobre poder fazer seu último desfile na Verde e Rosa, já que o compromisso é até o fim da gestão de Chiquinho da Mangueira. “O futuro a Deus pertence”, disse.

Leandro Vieira quer diálogo do carnaval com o mundo moderno

Sobre o enredo, Leandro Vieira quer cada vez mais o diálogo com a sociedade em seus desfiles.

“Eu tentado propor a escola de samba para o futuro, aquela que dialoga com a sociedade. Passou o tempo em que as escolas faziam passagens carnavalescas baseadas no entretenimento. É preciso redescobrir esse papel no cenário contemporâneo. Tenho tentado possibilitar esse dialogo com o mundo moderno. É uma grande responsabilidade, são 90 anos de tradição, eu sou muito jovem. Mas é também muito eufórico, experimentar isso aqui. A Mangueira não tem conseguido captar, e tenho feito enredos sem patrocínio, maas a escola colocou carnavais competitivos. Não precisa ser luxuoso para ser competitivo. Para mim tanto faz patrocínio ou não”, garantiu.

Para o desfile do ano que vem, a Mangueira terá novidade no comando da comissão de frente. A Verde e Rosa contratou o premiado casal de coreógrafos Priscila e Rodrigo, que estavam na Grande Rio.

“É uma responsabilidade boa que a gente escolheu. A gente quis viver isso, estar numa escola que representasse uma nação forte. Sempre sonhamos um dia abrir o desfile da Mangueira. Chegou um momento da nossa carreira que a gente escolheu viver isso. Não encaramos a responsabilidade como uma pressão, mas sim como uma motivação porque quando chegamos aqui na quadra e recebemos tanto carinho, as pessoas que pediram pra virmos pra cá, nas redes sociais, e hoje poder vir aqui e conhecer essas pessoas que sonham tanto, nos apoiam tanto é fantástico”, comentou Priscila.

“A responsabilidade só aumenta, mas a gente já está acostumado a trabalhar com essa responsabilidade. Da mesma forma que eles gostam do nosso trabalho, eles cobram muito também. Principalmente porque nos dois últimos carnavais, a Mangueira perdeu ponto em comissão. Tem mais essa pressão porque as pessoas esperam da gente pontuação máxima, mas estamos acostumados com isso”, completou Rodrigo.

Como foram as apresentações das outras parcerias finalistas

Parceria de Lequinho – A parceria mais poderosa da final mostrou sua força ao levar mais uma vez uma grande torcida para a quadra. Sob o comando de Tinga, o mister final, a obra começou conquistando segmentos fora da faixa da torcida “oficial”. A parceria levou sambistas famosos de outras escolas para apoiar a obra. O rendimento do samba não deixou a certeza se a obra seria a escolhida, como costuma ocorrer em finais que a parceria chega.

Parceria de Hélio Turco – O samba azarão da noite cumpriu um bom papel. Comandada pelo intérprete da Imperatriz Arthur Franco a torcida esteve solta e brincando. Talvez sem o peso da pressão de brigar pela vitória, a passagem do samba fluiu, embora também não tenha conseguido captar canto nas partes periféricas da quadra.

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