O samba é um gênero musical, mas também constitui um mundo social, um sistema cultural. Esta afirmação implica a compreensão de que existe um mundo do samba, um universo específico composto de valores, crenças, regras, formas de classificação e de entendimento.

Foto: Divulgação/Liesa

Dentro do mundo do samba, as escolas ocupam papel de destaque pois são formadoras de sujeitos. Ao participar de uma escola de samba uma pessoa está, ao mesmo tempo, formulando, articulando e criando saberes, práticas e costumes; e sendo forjado por eles. O indivíduo é formado pela cultura, mas é também seu construtor e isto denota que a cultura é viva, está em constante transformação, modificação, relação, justamente por ser uma prática humana.

O samba é um bom exemplo pois se transformou, muitas vezes, para se manter o mesmo. Escola de samba é uma forma de organização social de base comunitária e territorial que surge no Rio de Janeiro no final da década de 1920. São produtos da experiência histórica de negros e negras que, diante da exclusão do pós-abolição, construíram redes e locais de sociabilidade para manutenção de suas formas de vida e manifestação. São potentes formas de expressão, criadoras de identidades que fornecem sentidos aos seus praticantes.

As escolas são criações autênticas de locais de cidadania em um contexto de negação de direitos. Se a luta por cidadania naquele contexto envolvia a afirmação de sua própria existência, hoje o cenário é outro. Mas este ponto, fundamental, nunca se perdeu. Permanecem, atualmente, como pontos importantes, nos territórios que as abrigam como espaços de cidadania enquanto coletivos, associações comunitárias.

Vou trazer um exemplo para ilustrar esse ponto que acho interessante. No ano de 1934, um italiano chamado Emílio Turano, que dá nome a outro morro vizinho também na Tijuca, entrou na Justiça pedindo a destituição de todos os barracos do morro do Salgueiro pois, segundo ele, havia comprado a localidade. Esta ação causaria o despejo de 7 mil moradores, uma massa de imensa maioria negra que irá se organizar para defender seus direitos através da escola de samba do morro chamada Depois eu Digo, tendo como grande liderança o compositor Antenor Gargalhada.

O Gargalhada é o líder deste movimento pois as principais figuras dos territórios eram os sambistas de destaque nas escolas. Isso é fundamental, pensar a dimensão política das escolas no contexto e ainda mais a sua dimensão de coletividade, associação: é através desta organização local, uma escola de samba, que os moradores do morro ganham na Justiça o direito de manter sua residência.

Escola de samba é política! Coletivos periféricos que através da arte e da cultura inscreveram sua presença na cidade que quis sua eliminação física e simbólica. Emergiram dos morros e subúrbios práticas, saberes e modos de vida que constituíram o Rio como ele é. Se o samba é uma forma de ver, interpretar e viver no mundo, as escolas de samba seguem sendo locais privilegiados de socialização nas múltiplas gramáticas que este mundo, o mundo do samba, promove.

Desfile de escola de samba é produto das classes populares, majoritariamente negras, que ofertando sua arte produziram beleza, encanto e poesia forjando a identidade da cidade que tanto os violentou. Inventaram uma manifestação cultural que serviria de síntese do país. Mas escolas de samba é muito mais do que desfile carnavalesco. É produção de cultura e arte, são projetos de educação e inclusão mantidos nos territórios periféricos da cidade onde o Estado só chega através da repressão. Para muito além dos desfiles, as escolas são formas de organização social quase centenárias que formam sujeitos, promovem sociabilidades e constroem visões de mundo.

Quem apenas assiste, acompanha e admira os desfiles não chega nem perto de compreender a pluralidade de sentidos, a riqueza histórica e o conhecimento produzido pelas agremiações pois estas precisam ser vivenciadas, praticadas. Pode entender o que nós produzimos, a partir (inclusive) de valores que nos são alheios, mas não compreendem o que somos.

Através de uma série de rituais, cerimônias, maneiras de ocupação do espaço, técnicas corporais, formas relacionais, hábitos, costumes, regras (jamais escritas) e outras tantas lógicas inerentes as atividades cotidianas, essas associações atuam como força motriz de uma forma específica de ser e estar no mundo. Escolas de samba são pensamento e ação, filosofia e prática.

E assim o são visto que são constituídas por uma sabedoria bem assentada, rica, diversa e original. Sua manutenção se dá pela constante reinvenção que garante a continuidade. Há uma doutrina ancestral que se mantém na tradição que se renova. É o samba.

Mauro Cordeiro – Doutorando em Antropologia (UFRJ), Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio) e Licenciado em Ciências Sociais (UFRRJ). IG: @maurocordeiro90 TT: @maurocordeirojr

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