Por Milton Cunha, Victor Raposo, Thiago Acácio, Reinaldo Alves, Tiago Freitas e João Gustavo Melo

“TRAVA NA BELEZA: Imaginários sobre o destaque de luxo de escola de samba”, que será publicado no Dossiê da Revista Policromias do LABEDIS, Museu Nacional da UFRJ, com Editoria de Tania Clemente.

Para chegar aos núcleos temáticos, fizemos uma série de entrevistas que passamos a publicar no site CARNAVALESCO, duas vezes por semana. Este material acabou não entrando no corpo do texto, por limitação de espaço, e não queríamos deixar de mostrar. É uma homenagem aos esforços destes luxuosos personagens que habitam nossos sonhos de folia! Viva os Destaques de Luxo, mensageiros do glamour.

Enoque Silva – Grande Rio

O que você imagina que a plateia imagina quando te vê passando na avenida durante o desfile?

Enoque Silva: Ao contemplar um destaque de luxo as pessoas certamente são envolvidas em uma áurea de encantamento e êxtase. O uso de inusitadas e extravagantes fantasias despertar em quem as aplaudem a possibilidade de também fazer parte da viagem entre ficção e realidade.

Gostaria de saber como surgiu o seu interesse em ser destaque de luxo? Quando foi o seu primeiro desfile nesse posto? Como e quando foi a sua chegada na Grande Rio? Já desfilou em outras agremiações nesse posto? Se sim, quais?

Enoque Silva: Meu interesse surgiu em meados dos anos 70 ao ver as imagens de grandes nomes do carnaval como Evandro de Castro Lima, Clóvis Bornay e outros nas capas das revistas Manchetes e Fatos e Fotos. Meu primeiro desfile foi em 1979 na Turma do Quinto, em São Luís do Maranhão. Na cidade desfilei até 1993 e em 94 estreio no Rio de Janeiro na Unidos da Ponte, depois Vila Isabel, Estácio de Sá e, em 1998, ingresso na Grande Rio com o carnavalesco Max Lopes.

Como é o seu planejamento para desfilar? Qual o seu papel na concepção e elaboração da fantasia? E como é a relação do carnavalesco nesse processo?

Enoque Silva: Metade do ano é dedicado a todo o processo que envolve a confecção das roupas. Os carnavalescos criam os meus figurinos respeitando meu estilo e perfil. A minha relação com eles é de respeito, abertura e liberdade em todo o processo de construção até a finalização da roupa na sua totalidade.

E em relação ao personagem/papel que você vai interpretar no desfile. Você faz alguma preparação corporal, nos aspectos de gestual e de semblante? Como que você “encarna” aquilo que está vestindo? Como internaliza as personagens que representa?

Enoque Silva: Quando recebo o figurino faço um estudo sobre o personagem tema. A preparação é mais psicológica do que física. E a performance é espontânea. Flui de acordo com a receptividade e comportamento da plateia, que é sempre muito positiva.

Você tem apego com as fantasias? Como lida com a ideia de que ela será vista em pouco tempo pelo público?

Enoque Silva: Eu acredito que todo desfilante na função de destaque tem apego e amor pela fantasia criada e confeccionada. Ela é resultante de muitos dias e horas de dedicação. O pouco tempo do desfile nos dar a sensação de eternidade por conta da resposta sempre positiva que o público nos dá durante e após o desfile.

Pra você, o que faz uma fantasia de destaque se eternizar na mente de quem assiste os desfiles? E o que faz um destaque se distinguir dos demais destaques de luxo do carnaval?

Enoque Silva: Antigamente era muito comum uma fantasia, ou um destaque, se eternizar. Eram poucos e muito talentosos. Era a época dos bordados. Atualmente é muito difícil um se distinguir do outro. A não ser que exagere no tamanho da roupa, peque pelo excesso de material abandonando completamente a estética final e concepção inicial do figurino.

Tem alguma fantasia ou fantasias por qual você sempre é lembrado (a) ou que tenha se tornado inesquecível para as pessoas? Se sim, por qual motivo isso aconteceu?

Enoque Silva: Acredito que todas as fantasias que já usei têm suas particularidades e encantamentos distintos. Todos os anos ouço das pessoas a seguinte exclamação “é a mais bela de todas!”. Mas, vale citar “Anjo Barroco” e “Lições de Amor da Índia milenar” de João Trinta, o “Feirante Nordestino” de Roberto Szaniecki, “Imperador Chinês” de Max Lopes, “Superação de Mandela” de Cahê Rodrigues, “Céu Estrelado de Juazeiro” de Fábio Ricardo e “Rei do Candomblé” do Gabriel Haddad e Leonardo Bora.

Você considera o luxo essencial para a festa? Se sim, por qual motivo?

Enoque Silva: Sim. O luxo é essencial e fundamental para qualquer festa. Com o carnaval não poderia ser diferente por conta do luxo e da criatividade dos artistas e principais atores envolvidos nesse que é o maior espetáculo da terra.

Antigamente, cada destaque vinha em uma alegoria. Hoje, com a diminuição do número de carros, isso tem sido menos frequente. Como você enxerga essa mudança? É um problema pra você dividir a atenção do público?

Enoque Silva: Com a diminuição do número de alegorias as escolas diminuem os números de destaques. Os critérios ficaram mais seletivos e os lugares passaram a ser ocupados pelos melhores e maiores destaques. O restante em nada concorre com uma bela e grande fantasia.

Pra você o que a figura do destaque simboliza para os demais componentes da escola? E como é a relação deles com você?

Enoque Silva: Os componentes da escola, entre diretores, composições e desfilantes de alas, se sentem representados quando contemplam e admiram uma roupa de destaque pronta ocupando a principal posição em uma alegoria. Os olhares sempre são de alegria e satisfação.

O carnaval vem passando por uma crise financeira e muito se fala que as escolas precisam voltar às suas raízes. Você acha que a comunidade se sente representada quando vê vocês nos dias de hoje? Sentiu alguma mudança na relação entre você e a comunidade nos últimos anos?

Enoque Silva: Acredito que a comunidade se sente bem representada quando o carnaval da escola está dentro da expectativa de um bom desfile e a sua estética está irrepreensível e apta para a briga por um campeonato. O destaque é só a cereja do bolo. A comunidade se sente prestigiada por ver que o destaque não se abate com crise e nem dificuldade financeira. Como diria minha madrinha de carnaval, Leci Brandão: “Destaque que é destaque é assim”.

Você falou, na resposta ao Milton, que as pessoas ficam encantadas e em êxtase ao ver vocês. Que embarcam junto com vocês em uma viagem de ficção e realidade. Como é esse processo de troca entre você e o público?

Enoque Silva: No meu caso em especial acho que é um pouco diferente dos demais. Sou maranhense e represento o meu Estado há 26 anos na passarela do maior espetáculo da terra. Sempre levo na minha bagagem uma legião de fãs e admiradores que me seguem todos esses anos. E conto com uma plateia já conquistada na Marquês de Sapucaí e retribuo a todos com sorrisos, acenos e gestos de carinho porque consigo enxergar todos que se esforçam muito para serem notados por mim. Tudo isso estabelece uma indescritível relação de troca. Essa é a grande cena e mágica do carnaval.

Com quanto tempo de antecedência você chega no sambódromo? Em qual tipo de carro você chega? Quantas bolsas você carrega? Como são feitas essas bolsas? Tem pessoas para dar apoio? Na hora que chega e vê as alegorias desmontadas, de tarde, muito antes de qualquer pessoa, o que você sente? O que você pode contar desse processo de montagem e depois de desmontagem da alegoria? Sente tristeza de jogar lá de cima os plumeiros? Como é essa sensação?

Enoque Silva: No dia do desfile, costumo chegar na concentração até 5 horas antes do horário previsto para o início do desfile. Meu deslocamento do hotel para a Sapucaí faço em carros grandes, geralmente vans, onde transporto em média 05 volumes de peças das fantasias e os meus apoios, que são em número de 03. As bolsas que acondicionam a fantasia são fabricadas com nylon dublado, forração de plástico bolha e sob medida para cada peça. O meu primeiro contato com a alegoria se dá no barracão da escola, onde experimento o acesso ao queijo e testo o apoio de resplendor e Santo Antônio. O segundo momento já acontece na Sapucaí, na concentração. Já está tudo pronto e a expectativa pelo início do desfile é sempre muito grande. Cada ano é um ano com suas diferenças e surpresas. Conto também com o auxílio do diretor do carro e sua equipe. Sempre dá tudo certo. Pela minha antecipação de horas toda a montagem da fantasia acontece de forma tranquila e precisa. A emoção do desfile é diferente a cada ano podendo ser surpreendente e impactante. Já o final, na dispersão, é sempre igual. Sigo o ritual de uma desmontagem veloz porque o tempo é muito curto. Não existe espera, não existe paciência e muito menos tolerância. As peças são todas jogada de cima para baixo contando com a experiência e habilidade dos apoios que já estão de prontidão para executar esse trabalho. Feito tudo isso, desfile concluindo e missão cumprida. Essa é minha frenética e prazerosa trajetória no dia desfile oficial.

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