Por Milton Cunha, Victor Raposo, Thiago Acácio, Reinaldo Alves, Tiago Freitas e João Gustavo Melo

Entrevista realizada para o artigo “TRAVA NA BELEZA: Imaginários sobre o destaque de luxo de escola de samba” publicado no Dossiê da Revista Policromias realizado em parceria com o Observatório de Carnaval do LABEDIS/Museu Nacional da UFRJ.

Para chegar aos núcleos temáticos, fizemos uma série de entrevistas que passamos a publicar no site CARNAVALESCO, duas vezes por semana. Este material acabou não entrando no corpo do texto, por limitação de espaço, e não queríamos deixar de mostrar. É uma homenagem aos esforços destes luxuosos personagens que habitam nossos sonhos de folia! Viva os Destaques de Luxo, mensageiros do glamour.

Nabil Habib: Estação Primeira de Mangueira

O que você imagina que a plateia imagina quando te vê passando na avenida durante o desfile?

Nabil Habib: “Pensamento da pessoa me assistindo: “Meu Deus… Que loucura esse rapaz… Um trabalho com um gasto de dinheiro desses em uma fantasia, para somente 1h desfilando… Olha a altura que ele vem… E ainda sacode, canta e dança… Só louco mesmo… hahaha”.

Gostaria de saber como surgiu o seu interesse em ser destaque de luxo? Quando foi o seu primeiro desfile nesse posto? Como foi a sua chegada na Mangueira? Já desfilou em outras agremiações nesse posto? Se sim, quais?

Nabil Habib: “Meu interesse começou desde os meus 10 anos que assistia pela televisão a transmissão. Virava a noite e as vezes até dormia com a TV ligada. Mas não tinha interesse nenhum nas alas. Gostava mesmo era dos carros alegóricos e os destaques em cima. Ficava doido e sempre dizia: Um dia estarei lá em cima! Nunca desfilei em ala na minha vida. O 1º ano que desfilei, foi de composição de carro, na Caprichosos de Pilares no carnaval do Cinema com Renato Lage. Isso foi em 1988 no enredo sobre Cinema, “Luz, Câmera, Ação”. Já em 1989 peguei um figurino de destaque na Caprichosos de Pilares com Renato Lage e na Unidos de Vila Isabel com o carnavalesco Ilvamar Magalhães. Minha chegada na Mangueira, aconteceu juntamente com Eduardo Leal, no ano de 1993, Enredo
“Dessa fruta eu como até o caroço”, do carnavalesco Ilvamar Magalhães. Viemos nós dois de Bobos da Corte, no carro da Manga Espada. E estamos até hoje na Mangueira e em outras agremiações, mas sempre Mangueira como prioridade. Já desfilei em várias agremiações… Graças a Deus sempre recebi convites de amigos queridos para desfilar. Mas sempre esperando a ordem do desfile para saber se dá tempo devido a Mangueira. Já desfilei Beija Flor, Salgueiro, Vila Isabel, Império Serrano, Unidos da Tijuca, Mocidade Independente de Padre Miguel, São Clemente, Caprichoso de Pilares, Lins Imperial, Estácio de Sá, Unidos da Ponte, Arranco do Engenho de Dentro. Todas sempre como destaque. Muito amor pela arte de fazer fantasias. Um sonho realizado”.

Você falou, na resposta ao Milton, que as pessoas devem pensar que você é louco quando o vem no desfile. Como você vê essa relação entre destaque de luxo e loucura?

Nabil Habib: “Hahaha total! Quem em sã consciência gasta uma fortuna de $$$ e tempo, para em 50 minutos com uma fantasia pesada e que sempre se machuca de alguma forma e ainda, tem que se empoleirar no alto de uma alegoria, que Deus sabe se é segura ou não e ainda se sacudir e cantar o samba? Só louco mesmo. Mas isso é um vício grande. Quem experimenta um ano, com certeza, vai querer repetir no ano seguinte e seguinte e assim vira o vício”.

Você se planeja anualmente para manter esse vício? E como é a sua relação com a fantasia?

Nabil Habib: “Sempre trabalhei na área de turismo aqui no Brasil e até no exterior. Morei 4 anos em Nova York e perdi meu emprego lá, pq queria estar aqui no carnaval. Trabalhei em Hotel aqui no Rio de Janeiro e sempre trabalhava todos os feriados para compensar no Carnaval. Nunca trabalhei durante o carnaval. Sou eu quem organiza e faz todas as minhas fantasias. Não sei costurar, então delego a uma costureira a parte da costura. O resto de decoração toda sou eu quem executa. A partir de setembro tudo é fantasia na minha cabeça”.

E como é a relação do carnavalesco nesse processo?

Nabil Habib: “O carnavalesco é quem dá o ponta pé inicial através do figurino. O carnavalesco já conhece meu tipo de roupa e ele me encaixa no personagem do enredo dele. Todo carnavalesco quando entrega um figurino a um destaque, tem a confiança que o Destaque fará a roupa a altura do desejado ou melhor. Eu muitas das vezes modifico o figurino, mas sempre para melhor. E eles sempre depois do carnaval, com toda modéstia à parte, agradecem e comentam que ficou além do desejado”.

E em relação ao personagem/papel que você vai interpretar no desfile. Você faz alguma preparação corporal, nos aspectos de gestual e de semblante? Como que você “encarna” aquilo que está vestindo?

Nabil Habib: “Hahaha. Eu me vejo como em uma grande boca de cena de um teatro. Fez a curva da concentração para entrar na avenida, o personagem vem na hora. Geralmente, meus personagens são bem másculos devido ao meu biotipo. Mas também já encarnei o Ney Matogrosso me requebrando todo na Mangueira que artistas amigos dele? Acharam que fosse ele mesmo… Saudoso Emilio Santiago foi um deles. Hahaha. Nesse ano eu não tive figurino e pedi aos carnavalescos para vir como ele. Foi o ano da Música na Mangueira. Então copiei o figurino do show dele no Canecão mas em rosa”.

Então tem anos em que a ideia do figurino é toda sua?

Nabil Habib: “De vez em quando e quando o carnavalesco dá essa moral…”.

Você falou da relação entre o gasto com a roupa e o pouco tempo de desfile. Como você lida com o apego com a roupa e com essa ideia dela ser efêmera por conta do desfile?

Nabil Habib: “Eu tenho muito carinho com meu material de Carnaval. Todos esses anos fizeram eu ter um grande acervo, pois sempre que viajo ao exterior compro mais e mais. Algumas fantasias minhas, eu vendi para um colecionador belga, que faz exposições na Europa de Fantasias de Destaque do Carnaval carioca. Outras roupas ainda as tenho. Mas os chapéus tenho todos ainda guardados e embalados. Tenho muito apego a eles, pois foram criados pelo Mago dos Chapéus Edmilson Lima e decorados por mim com o melhor do que tenho de cristais e broches. No Carnaval sou muito conhecido pelas Calcas de franja canutilhos. Já fiz praticamente em todas as cores básicas. Fiz mais de 10 calças. Hoje ainda tenho umas 5. Algumas vendi e outras se desfizeram devido ao tempo e uso… Sempre que posso as incluo nos meus figurinos”.

Pra você o que faz uma fantasia de destaque se eternizar na mente de quem assiste os desfiles? E o que faz um destaque se distinguir dos demais destaques de luxo do carnaval?

Nabil Habib: “Para se eternizar, tem que ter uma marca registrada sua, que independente da sua vontade. Hoje em dia se você falar em calça de canutilhos ou de qualquer tipo de franja, as pessoas associam comigo. Tem concursos no Rio de Janeiro que quando o concorrente entra com qualquer peça de franja de canutilho, a galera conhecida do salão tida se vira para mim. Acho engraçado. O que faz um Destaque se distinguir dos demais é sua performance, seja na avenida ou nos salões… Cada um tem sua luz própria e sua forma de se expressar com sua fantasia”.

Tem alguma fantasia ou fantasias por qual você sempre é lembrado ou que tenha se tornado inesquecível para as pessoas? Se sim, por qual motivo isso aconteceu?

Nabil Habib: “Pior que tem!!! O “Carcará”, no Ano de “Maria Betânia do Brasil”, na Estação Primeira de Mangueira. Essa roupa era toda com pontinhas de penas e as pessoas acharam que fosse mais de 3.000 Faisões e não tinha mais de 1.000 unidades. Quando eu sacudia, a galera entrava em Delírio… Milton Cunha cita isso na narração do desfile”.

Sacodir as penas realmente causa um delírio!

Nabil Habib: “Sim e a maioria dos Destaques trazem o resplendor preso no carro e eu só trago encaixado nas minhas costas”.

Então seria uma marca sua? Por que optou por usar dessa forma?

Nabil Habib: “Isso sempre foi assim comigo. No começo não existia essa história de prender na alegoria. Era nas costas mesmo e com o tempo, por ser muito grande o que os Destaques gostam de ostentar, começaram a prender na alegoria. Eu não gosto. Acho que perde o balanço e caimento da arte plumária. Eu só trago o que eu consigo carregar nas costas. Essas paredes enormes com esculturas e uma imensidão de arte plumaria são lindas, mas não fazem meu estilo”.

Entendi. Uma escolha pelo conforto, mas também mantém uma tradição.

Nabil Habib: “Sim. O balanço da arte plumaria é imprescindível na minha opinião”.

Você considera o luxo essencial para a festa? Se sim, por qual motivo?

Nabil Habib: “Com Certeza! Vou te responder com uma frase conhecida do “Papa”Joãozinho Trinta, que acho perfeita: “O Povo gosta de Luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. Pura verdade”.

Pra você o que a figura do destaque simboliza para os demais componentes da escola? E como é a relação deles com você?

Nabil Habib: “Como te disse um Louco milionário hahaha. Mal sabem eles. A relação é de Idolatria. Eles adoram ver de perto”.

Como se fosse algo divino?

Nabil Habib: “Sim. Eles adoram olhar de perto como se fosse uma obra de arte de Museu do Luxo”.

Antigamente, cada destaque vinha em uma alegoria. Hoje, com a diminuição do número de carros, isso tem sido menos frequente. Como você enxerga essa mudança? É um problema pra você dividir a atenção do público?

Nabil Habib: “Problema nenhum em vir com outro Destaque no mesmo. Muito pelo contrário, gosto de vir com outros Destaques Amigos na mesma alegoria sim. Não consigo me divertir sozinho na mesma alegoria”.

O carnaval vem passando por uma crise financeira e muito se fala que as escolas precisam voltar às suas raízes. Você acha que a comunidade se sente representada quando vê vocês nos dias de hoje? Sentiu alguma mudança na relação entre você e a comunidade nos últimos anos?

Nabil Habib: “Acho que a comunidade nos vê como representante da mesma, sim. Isso depende de Destaque para Destaque. Não vi mudança nenhuma em nossa relação nos últimos anos”.

Com quanto tempo de antecedência você chega no sambódromo? Em qual tipo de
carro você chega? Quantas bolsas você carrega? Como são feitas essas bolsas? Tem pessoas para dar apoio? Na hora que chega e vê as alegorias desmontadas, de tarde, muito antes de qualquer pessoa, o que você sente? O que você pode contar desse processo de montagem e depois de desmontagem da alegoria? Sente tristeza de jogar lá de cima os plumeiros? Como é essa sensação?

Nabil Habib: “Chego na concentração tipo 3 horas antes do horário do Desfile. Geralmente vou de metrô ou de táxi, depende de qual lado seja a concentração. Normalmente, carrego uma média de 4 bolsas de Brim que mando minha costureira fazer nas medidas necessárias da fantasia. Sempre tenho 2 apoios. Minhas roupas não são muito grandes… Só faço fantasia que possa carregar presas em mim. Não uso ferragem presa no carro alegórico. Quando subo na alegoria, geralmente já subo pronto. Sempre levo comigo um banco de plástico que sento lá em cima e aguardo sentado até o momento de entrar na Avenida. Antes da curva de entrada, levanto e jogo o banco fora lá de cima. E no momento da descida. Sempre desço de Carvalhão com a roupa em mim. Para mim é tranquilo”.

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