Por Milton Cunha, Victor Raposo, Thiago Acácio, Reinaldo Alves, Tiago Freitas e João Gustavo Melo

“TRAVA NA BELEZA: Imaginários sobre o destaque de luxo de escola de samba”, que será publicado no Dossiê da Revista Policromias do LABEDIS, Museu Nacional da UFRJ, com Editoria de Tania Clemente.

Para chegar aos núcleos temáticos, fizemos uma série de entrevistas que passamos a publicar no site CARNAVALESCO, duas vezes por semana. Este material acabou não entrando no corpo do texto, por limitação de espaço, e não queríamos deixar de mostrar. É uma homenagem aos esforços destes luxuosos personagens que habitam nossos sonhos de folia! Viva os Destaques de Luxo, mensageiros do glamour.

Simara Sukarno: Salgueiro

O que você imagina que a plateia imagina quando te vê passando na avenida durante o desfile?

Simara Sukarno: “Primeiro olho e sinto a beleza daquele destaque, é tão lindo e me transporto para aquela cena e o destaque passa a ser eu. Quando observo e contemplo um destaque na avenida penso no sonho realizado, vivencio com ele a emoção, penso também no tempo e trabalho que dedicou na confecção daquele figurino belíssimo e aplaudo. Meu aplauso vem da apreciação, aprovação, do sentimento de fazer parte daquele momento, arrebatado pela visão do belo. O aplauso é a confirmação de que “você está fazendo ter valido a pena eu estar aqui para te ver “ Ao vislumbrar tanta beleza me sinto homenageado por ele compartilhar o momento tão especial dele com as pessoas que o assistem e eu faço parte disso tudo, nesse momento minha imaginação viaja com ele destaque representando aquele personagem e eu extasiado me sinto pleno, Feliz!!!”

Gostaria de saber como surgiu o seu interesse em ser destaque de luxo? Quando e como foi o seu primeiro desfile nesse posto? Como e quando foi a sua chegada no Salgueiro? E no Carnaval de SP? Já desfilou em outras agremiações nesse posto? Se sim, quais?

Simara Sukarno: “A primeira vez eu já comecei como destaque a convite do carnavalesco Jorge Freitas meu amigo, que ele tinha vindo para São Paulo. Já tinha começado a fazer a primeira escola que era Gaviões. Eu até falo no meu na minha reportagem, eu sou corinthiana e sou Flamengo no Rio. Desculpa! E acabei desfilando por gostar e eu disse que o dia que eu começasse a desfilar seria realmente na Gaviões. E, por coincidência, Jorge foi fazer o carnaval de 2000 lá. Eu desfilei já como destaque de chão. Não! Eu desfilei mais uma vez. Não desfilo na mesma agremiação. Acho que são mais acho que 18 anos eu desfilo pelo Rosas de Ouro que também a Angelina Basílio que é a Presidente do Rosas, minha amiga, o vice-presidente é meu amigo. Me identifico muito com a escola, gosto muito deles e tenho desfilado esses anos. Já desfilei em outras escolas por um ano, por dois, ou por conta de ser muito amiga do carnavalesco, como aconteceu na Pérola que eu fiz dois anos por causa do Fábio Borges, como já desfilei para ajudar outras agremiações. Sempre saio em tripé, já sai em Abre-Alas, ou no Rosas, por exemplo, há alguns anos eu saio no segundo carro do Rosas de Ouro embaixo. Desfilo agora hoje em dia no Salgueiro e devo agora permanecer por muito tempo, porque eu gosto demais e tenho Salgueiro, como as escolas de samba do Rio de Janeiro, como a minha preferida.”

Como é o seu planejamento para desfilar? Qual o seu papel na concepção e elaboração da fantasia? E como é a relação do carnavalesco nesse processo?

Simara Sukarno: “Na verdade, o meu planejamento começa no momento que eu recebo o figurino, certo? Eu que faço! Eu faço a parte de costura, eu faço toda a ampliação dos moldes, eu idealizo, faço as medidas, faço às vezes uma maquete, ou eu vou com desenho para o serralheiro. Sento com ele e literalmente eu desenvolvo a fantasia, passo a passo. Por causa das medidas às vezes temos que tirar alguma coisa, por causa do tamanho no papel. Na verdade, você consegue colocar o que você quiser, muitas vezes eu vejo que falta algum detalhe, falta mais uma parte em ferro para fantasia ter uma plástica melhor. Eu acompanho, além de acompanhar passo a passo, uma parte da minha arte plumária aí eu faço. A maior normalmente eu faço questão de dar para um amigo meu que é o Naldo Cavalcante que ele tem um ateliê só que gosto muito do trabalho dele em arte plumária, tá. E às vezes, isso já aconteceu o ano passado, meu amigo também João Páscoa que tem um Ateliê e eu precisava fazer uns tufos em Faisão e os Faisões eles eram grandes aquele albino branco. Então o que que aconteceu? Eu tava já sem tempo, eu precisava terminar minha última fantasia. Então, pedi para ele porque é uma concepção, uma montagem bem diferenciada. Então, ele que fez. João Pascoal montou para mim. Então, assim sempre tem pessoas participando, serralheiros… Ao carnavalesco? Sim! Ele participa todo tempo. Dependendo do carnavalesco, na verdade a maneira, a dinâmica dele de trabalho tem alguns que eu mando a foto das etapas no que eu estou fazendo. Outros não, eu mando uma outra foto. Então a relação é minha sempre direta com o carnavalesco, porque, afinal de contas, eu tô na verdade materializando um personagem que ele criou. Então, eu acho muito importante seguir que o carnavalesco te pede porque ele tem a concepção completa dessas alegorias o qual você vai fazer parte.”

E em relação ao personagem/papel que você vai interpretar no desfile. Você faz alguma preparação corporal, nos aspectos de gestual e de semblante? Como que você “encarna” aquilo que está vestindo? Como interioriza a personagem que está representando?

Simara Sukarno: “Na terceira pergunta você me pergunta da minha relação e se eu faço na verdade algum gestual alguma coisa que eu encarne esse personagem? Sim, com certeza! Porque, por exemplo, eu já saí de Nossa Senhora do Pilar. Na época eu saí na Tucuruvi com Fábio Borges, no abre-alas, e eu vinha com menino Jesus na mão, no meu braço. Até tive uma distensão porque eu não pude me movimentar, me mexer. Então, é óbvio que se você tá ali encarnando uma uma santa, você não pode sair sambando. Então é muito importante a maneira e o comportamento do destaque em relação ao personagem que ele vai representar na Avenida. Com certeza todo tempo, além de estudar, de pesquisar. Já começo a pesquisar lá na frente, no começo, na verdade, e depois eu pesquiso quem é, o porquê, se é uma santa. Como já saí também como Princesa Isabel. Recebi um figurino que tinha os laçarotes. Não era da época. Eu, na verdade, no momento que eu recebi eu percebi que tinha um erro ali em termos de época, de tempo. Até conversei com esse meu amigo que também gosta muito de história da arte, Fábio Borges. Ele me falou: ‘fofa, isso aqui não’ É, eu pensei mais ou menos 80, 90 anos e ele falou: ‘Exatamente há 100 anos esses laçarotes. Nunca foram usados. E até porque eu sempre trabalhei com moda e a história da arte’. História geral você tem que acompanhar. Então, sempre tenho muito cuidado de quando eu vou construir essa fantasia fazer com que a roupa e de que todos os elementos que estejam lá, possam condizer com a época de que o meu carnavalesco está falando.”

Você tem apego com as fantasias? Como lida com a ideia de que ela será vista em pouco tempo pelo público?

Simara Sukarno: “Se eu tenho apego à fantasia? Não! Eu que tenho uma sinergia, eu tenho uma relação. E é claro que cria um amor. Você trabalha três, quatro meses bordando, noite a fio, você tá construindo, né. Aquele teu personagem, aquela tua fantasia, ela é ligada às suas emoções, né. Você colocou ali todo seu trabalho, suas noites sem dormir, o prazer de fazer, de materializar aquele desenho. Sim, é essa relação. Não tem uma relação de apego, de ficar com ela, até porque eu acho que no momento que eu estou fazendo é para ela ser vista. Ela faz parte de um todo que é o nosso enredo. Ela faz parte de uma alegoria. Então, ela tá ali para ser vista, para compartilhar, na verdade, as minhas emoções. Continuando na pergunta quatro… Claro que é importante todo seu comportamento gestual, tanto que quando eu saí de de Princesa Isabel com carnavalesco Sidnei França, que foi na Vila Maria e que nós estamos falando de Nossa Senhora, eu precisava realmente ter um comportamento. Até por causa da minha fantasia que precisaria ser fechada, ou cuidar de todos os detalhes porque Princesa Isabel foi uma mulher muito pudica, né, muito séria, ela usava muito mais preto, inclusive. Tanto que a gente observa que os vestidos dela de festa, né, eles eram sempre muito sérios, muito sóbrios, né. Então, também tive, como é muito quente, eu fiz até algumas peças, e fiz um bolero bem ajustado ao corpo que quando eu me montei na Avenida parecia que era uma roupa só, mas de verdade, não. Não era por causa do próprio calor, né, que a gente sente, mas sempre tenho cuidado sim de vestir, tanto como na Nossa Senhora do Pilar a minha roupa ela inteirinha fechada. Esses detalhes são muito importantes. E encarno sim! Encarno muito o personagem.”

Para você, o que faz uma fantasia de destaque se eternizar na mente de quem assiste os desfiles? E o que faz um destaque se distinguir dos demais destaques de luxo do carnaval?

Simara Sukarno: “Você me pergunta aqui: ‘O que uma fantasia de destaque, né. O que seria para ser eternizar e na mente de quem assiste. O que distingue essa fantasia de outros destaques?’ Na verdade, eu acho que é também uma questão de sorte porque… Isso para quem faz. Assim, o que todas as minhas colocações aqui é porque como eu faço a minha fantasia não vai para um atelier. Então, não vai ficar com a personalidade com aquele traço característico daquele atelier. As minhas fantasias… Entre nós, todo mundo sabe o que é meu porque eu gosto muito de acabamento, gosto muito do bordado… Sou ainda das antigas, né, que gosta de construir, bem forrada, bem estruturada. Então, isso já é uma característica minha, né. E principalmente do bordado e do Luxo que eu gosto muito. E a maneira limpa como eu trabalho. Limpa que eu digo, eu coloco os elementos necessários, mas eu eu tenho muito cuidado de não poluir a minha fantasia. E a questão de ficar eternizada também vem uma questão de sorte. É no lugar onde você está. A fantasia em si, ela de repente tem um conjunto de cores, ela tem uma montagem, tem um equilíbrio uma plástica tão bonita que aquilo você grava. Eu acho que é por aí porque é muito difícil. Eu até tô pensando aqui e ia comentar em relação a parte do carro alegórico, mas eu já vi também fantasia do carro alegórico não ser uma coisa que pudesse dizer: ‘Uau, que maravilha!’ E a fantasia do destaque ser tão divina, tão divina de eu me focar e prender a minha atenção só naquela fantasia, na riqueza, nos detalhes. Eu acho que é um conjunto de coisas. Eu acredito que seja um conjunto de coisas. Uma sorte também, de repente a cor que você usou aquele ano, a maneira como você confeccionou, como você montou a estrutura da ferragem, aquilo deu uma termos de plástica, de se olhar, ficou mais bonito… Não sei isso é uma questão aí eu acho que é sorte, eu acho que a maneira de fazer, eu acho que é a parte também sempre de como você trabalha, e sempre tem ali né? Tem a sua assinatura. Mesma coisa que a maneira de escrever, a escrita…Você pega ai um autor e o escritor você percebe a maneira de lhe escrever também existe a arte da gente, cada um tem o seu traço, a sua maneira de confeccionar.”

Tem alguma fantasia ou fantasias por qual você sempre é lembrado (a) ou que tenha se tornado inesquecível para as pessoas? Se sim, por qual motivo isso aconteceu?

Simara Sukarno: “Tem uma fantasia que todo mundo lembra. Eu fui muito feliz na concepção, na criação ali do desenho que eu recebi e como eu fiz essa fantasia. Até porque eu uso um pavão atrás do faisão branco rosa chiclete. E era uma fantasia que, na verdade, é uma cor que foi uma cor inusitada. Ela ficou, não sei, ela ficou maravilhosa! Ela é uma fantasia leve. É uma guerreira! É uma guerreira! Eu tenho um escudo, mas ela ficou muito feminina, ela ficou muito leve, ela ficou muito bonita. Eu até depois se você quiser te mando a foto. E teve uma outra fantasia que é um estilo completamente diferente também que eu saí num tripé no Rosas de Ouro, (as duas são do Rosas, por coincidência) no Rosas de Ouro que quem me desenhou foi o André Cezari, que foi o ano que ele foi carnavalesco. Eu vim como uma divindade Maia. Ela só tem cores primárias, quentes, né. Só que ela ficou de uma beleza, é uma fantasia realmente muito imponente que chama atenção, chama porque quando passou aquele tripé na Avenida eu percebi assim os olhares, sabe, de êxtase. A fantasia realmente deu certo a receita, eu posso te dizer assim. E eu tenho também muito, muito cuidado na parte de trás dos meus costeiros, né. Inclusive eu sempre começo trabalhando, depois da forração, eu começo colocando detalhes, aplicações, fazendo a parte de trás do costeiro porque eu sei que é importante. É importante quando você passa e quando o teu carro alegórico vai indo as pessoas têm uma visão também equilibrada, bonita da parte de trás.”

Você considera o luxo essencial para a festa? Se sim, por qual motivo?

Simara Sukarno: ” Olha, se você diz que é uma festa, dependendo de que festa, ou se você vai um baile, você vai no carnaval… No carnaval você é um destaque de luxo aí já da sua característica. Ou se você vai numa festa, realmente eu acho importantíssimo! Importantíssimo você está luxuosa! Isso não quer dizer que você estar luxuosa você tenha que parecer uma árvore de natal, tá certo? Eu acho que o sinônimo do luxo vem o requinte, o equilíbrio, e o bom gosto em tudo que você faz. Então, luxo não é você pegar e jogar tudo que você viu, ou se você tá numa festa, você tá com vestido, você tá no baile de gala que seja, você jogar tudo em cima de você e achar que você está luxuosa. Isso não é luxo, né! Luxo é requinte, bom gosto, equilíbrio.”

Antigamente, cada destaque vinha em uma alegoria. Hoje, com a diminuição do número de carros, isso tem sido menos frequente. Como você enxerga essa mudança? É um problema pra você dividir a atenção do público?

Simara Sukarno: “Na verdade, diminuíram os carros alegóricos, e vai diminuir mais um. Normalmente algumas poucas escolas que eu posso te destacar como: Salgueiro no rio e Rosas em São Paulo que tem, na verdade, uma quantidade de bons destaques. Então, passa a ser uma preocupação e um problema para colocar dois destaques em um carro? Sim! O que eu vejo é que antigamente tinha-se destaques realmente de carnaval que vinham no chão. Isso, para mim, complementava, né a decoração do enredo, né, com mais esse personagem. Agora, em relação a dividir atenção… Não! Eu acho que complementa, eu sempre penso no complementar. Complementa sim num carro alegórico, na maioria das vezes. Pode ser que a estrutura, a ideia do carnavalesco em relação a esse carro que de repente só caiba um destaque. Um destaque. Aí eu acho que é muito mais eu acho que tem que tirar a coisa do ego, e sim pensar no todo de novo para escola, né? Nessa montagem que o carnavalesco idealiza, em relação às alas, em relação aos personagens, e como ele monta isso. Então, não acredito não que tire, porque são fantasias diferentes normalmente são em cores diferentes e eu entendo sim que quando vem dois destaques em um carro, como essa que eu vim de branco e rosa chiclete, o meu amigo destaque que veio no alto que era o destaque alto, ele veio nos tons de pink um pouco fúcsia. Então, na verdade, o carro era todo dourado. Ficou uma obra de arte! Eu acredito sim que um complemente o outro. Não tem essa de tirar atenção. Porque, até, quem faz é uma outra pessoa, a arte é uma outra arte, a arte daquele destaque, ou daquele atelier que fez para ele… No nosso caso, eu fiz a minha e ele fez a dele. Então, coisas completamente diferentes, estruturas diferentes, montagem diferente, mas que ficaram extremamente equilibradas naquele carro dourado que fez uma moldura para gente, até por causa das cores que a gente vinha. Não vejo assim. Vejo sempre um destaque complementando o outro. Eu acho aí sempre não é uma questão de você querer estar só porque você acha que você brilha mais. Não, ao contrário. É no conjunto da obra que de repente você se destaca.”

Pra você o que a figura do destaque simboliza para os demais componentes da escola? E como é a relação deles com você?

Simara Sukarno: ” Essa pergunta nova é uma pergunta delicada. Por que? O destaque ele é único, né? Ele é um componente da escola como todos os outros componentes. O que diferencia esse destaque? Que a fantasia dele é única. Ele vem num lugar único, né, que é um queijo. Se existe uma diferença entre os outros componentes? Existe! Existe! Os destaques é meio segregado, ele fica meio ao lado. Parece que as pessoas, é muito complicado, até quando vem no destaque novo para uma escola, a maneira dele ser recebido, afetuosidade… É como se eles entendessem que: “Ah, eu sou de ala, eu sou composição, e o destaque fica lá.” Não deveria ser assim! Deveria ter uma acolhida melhor. Deveria ter uma relação, uma sinergia melhor entre todos porque nós somos componentes, nós temos posições diferenciadas e trabalhos sim diferenciados, só que temos que pensar que nós somos componentes de uma mesma agremiação. Então, existe ainda, é muita diferença, tá dependendo também de novo da escola que, por exemplo, no Salgueiro cada destaque que chega quando a gente se monta o pessoal de ala, as pessoas, os componentes, as meninas que são composições, a gente troca sempre idéias. Fala: ‘Que linda sua fantasia!’ ‘Gostei como você fez.’ Por exemplo vieram as meninas da composição do meu carro que eu vim de cigano: ‘Olha, você está toda de dourado, que você é a cigana… Olha, nós também viemos de cigana vermelha. Que legal’ Quer dizer, tem uma relação muito boa e tem escolas que não, que quando chegam destaque, ele só falta virar e dar as costas. Aqui, para complementar Victor, eu percebo assim falando das escolas e a relação do comportamento que é o espelho, né, da agremiação que você pertence, você percebe essa diferença por exemplo no Salgueiro porque é muito forte. Eu acredito que seja também pela união a maneira do Salgueiro se comportar. Eu acho que é uma coisa cultural dentro daquela escola. É pontual, não é o geral, entendeu? Então, os dirigentes, o seu diretor, o seu diretor de carnaval, os diretores que você tem, depois os coordenadores de composição. Eu vejo que é muita essa relação cultural dentro daquela comunidade, que é bem pontual isso.”

O carnaval vem passando por uma crise financeira e muito se fala que as escolas precisam voltar às suas raízes. Você acha que a comunidade se sente representada quando vê vocês nos dias de hoje? Sentiu alguma mudança na relação entre você e a comunidade nos últimos anos?

Simara Sukarno: “Sim. O carnaval já vem passando por problemas financeiros e isso aí a gente percebe também que é muito questão de organização. Porque como escolas que conseguem fazer seu carnaval sem patrocínio, sem uma série de outras coisas e outras conseguem? Isso aí eu vejo que é um problema estrutural dentro da escola de gestão financeira também. Agora, o que eu percebo com esse momento que a gente está passando muito sério é que começou a voltar a se ter um olhar de novo para comunidade, até porque a comunidade nesse momento tá dependendo muito das ações sociais que as escolas vão fazer e que isso reverta em alguma coisa para a própria sobrevivência deles. Espero e acredito que nesse momento e de reflexão profunda, que muitos também a gente percebe que não tem, porque eles sentem que eles estão presos e não estão percebendo que existe aí uma coisa maior, um pensamento maior… você tem que depurar um pouco as coisas, os sentimentos, a maneira de você pensar, pensar de novo na relação entre as pessoas como um todo, com a empatia, você se colocar no lugar dela, perceber o momento que ela tá passando…Enfim, espero que sim que isso venha trazer mais união, menos diferença e, posso te dizer, que eu tenho sorte de sair em escolas que eu tenho uma relação muito antiga e apesar do Salgueiro ser uma relação de poucos anos, quatro anos, mas tem diferença sim. Porque? Pela estrutura dele. Pela maneira dele se comportarem, pela diretoria… Eles trazem essa comunidade junto com eles. Então, de novo eu te repito, depende muito da escola, depende muito do comportamento. E quando você está na Avenida, é óbvio que daí eles dissociam muito. Eu acho que dissociam bastante o fato de você ser destaque, eles pensam: ‘Ah, minha escola está bonita, isso que importa! Todo mundo tá vindo bonito.’ Naquele momento eu percebo sim que existe uma sinergia maior… ‘Nossa, a escola está bonita!’ Aí sim, nesse momento eles pensam como um todo.”

Você falou, na resposta ao Milton, sobre os olhares de contemplação da beleza pelo público. Conte mais um pouco sobre esse momento de troca entre você e quem está te contemplando?

Simara Sukarno: ” Milton é o seguinte… É uma emoção única quando você está ali na Avenida e você vê pessoas que estão na arquibancada, outros no camarote, que eles te aplaudem. Eles te aplaudem de verdade e que sempre me passa na cabeça, queira ou não queira, aquelas pessoas deixaram os seus filhos em casa, ou juntaram um dinheiro para ficar no camarote, dependendo da sua condição financeira. Ou ganharam, ou pagaram e foram lá só por prazer realmente para ver aquela maravilha que é o desfile de escola de samba, e eu também vejo aquelas comunidades juntas com aquela sacolinha comendo o seu sanduíche na arquibancada e de repente você passa e elas param de beber, elas param de comer, elas te aplaudem e elas se sentem fazendo parte daquilo. Então essa, me emociono até quando eu falo… É uma emoção única porque ali você vê que a pessoa, ela sente que você fez aquele trabalho, que você tá apresentando aquela maravilha, aquela beleza de esplendor de fantasia para ela, para ela se deleitar com aquele momento, e exatamente nesse momento parece que todos nós ficamos muito próximos, juntos, né? Então, é emocionante, mas eu quando passo sempre observo muito, apesar da gente estar naquele gestual ou naquela mímica fazendo aquele trabalho todo, e que eu mando beijos… Olha, teve um ano que tinha uma senhora, eu acho que ela tava com os netos ali, ela tava no meio da comunidade com a camiseta e aí ela pegou e me jogou um beijo, ela com sanduíche na mão, ela me jogou um beijo e aí eu fiz uma reverência ela e mandei um beijo. Você acredita que a sacola dela até caiu, ela ficou tão emocionada que ela te deixou a sacolinha dela do sanduíche que estava no colo dela caiu no chão. Então, você vê como é impactante para mim, que nesse momento acabo também sendo um observador, e ela também como observadora, é emocionante! É emocionante! São momentos que você não esquece. Eu tenho alguns momentos que eu passei na Avenida que eu não esqueço, como o outro que nós distribuímos os tercinhos. Eu fiz uma sacola de veludo, foram bordadas com uma alça todas do mesmo tecido que eu fiz a minha roupa da Princesa, da minha fantasia de Princesa Isabel e aí eu precisei de mais apoio, a escola me disponibilizou. E cada sacola tinham, mais ou menos, em média 600 terços. Foi uma loucura! E eu tive ali momentos que eles falavam: “Princesa Isabel está te dando esse tercinho com oração”, e depois foi uma loucura! Não dava mais tempo de falar, até a Globo conversou com esses meus apoios e tudo e foi uma loucura, mas eu vi muitas pessoas que elas pegavam o tercinho, choravam e me agradeciam. Então, ali você vê que elas interagem demais com personagem que você tá apresentando.”

Com quanto tempo de antecedência você chega no sambódromo? Em qual tipo de carro você chega? Quantas bolsas você carrega? Como são feitas essas bolsas? Tem pessoas para dar apoio? Na hora que chega e vê as alegorias desmontadas, de tarde, muito antes de qualquer pessoa, o que você sente? O que você pode contar desse processo de montagem e depois de desmontagem da alegoria? Sente tristeza de jogar lá de cima os plumeiros? Como é essa sensação?

Simara Sukarno: “Em São Paulo uso o hotel como apoio. Monto o resplendor 5 a 6 horas antes (depende da previsão do tempo), volto para o hotel com a minha filha e os apoios, a me arrumo, makeup, etc. Comemos algo, e voltamos para a concentração. No Rio já vou com a maquiagem pronta 4 a 5 horas antes depende no nosso coordenador Eduardo do Salgueiro, se ele me pede 4 horas antes sempre adiciono mais 1 hora pensando nos imprevistos. No Rio vou e já fico com os meus apoios e não volto para o hotel. OBS: sempre levamos lanchinhos, água, bebida e água de coco. Quando chego e vejo o carro alegórico sempre é aquela emoção, assim que terminamos a montagem admiro o carro com o meu resplendor que complementa a alegoria, minha tranquilidade vem qdo literalmente estou com fantasia já posicionada no meu queijo aí sim vem aquela sensação de trabalho realizado, quando inicia a movimentação dos carros, e começa o esquenta é só emoção. Quando começa o esquenta dá um ziriguidum no coração. Em São Paulo tenho 4 apoios, minha filha e mais 3 apoios sempre amigos que acompanham todo o processo de construção do meu figurino. No Rio tenho 3 apoios contando com a minha filha, no Salgueiro minha escola somos 4 destaques de São Paulo que desfilamos e todos nós juntamente com os nossos apoios ajudamos uns aos outros e também se necessário outros componentes da escola. As sacolas que vai as ferragens e a fantasia sempre precisam estar bem embaladas para não danificar nada, e sempre levo uma bolsinha com tudo, cola fria, tesoura, linha, agulha, alfinete, lacres de tamanhos diversos, etc para qualquer tipo de necessidade que tenhamos. Na montagem antes na fixação da base sempre acompanho e ajudo é importantíssimo para a minha segurança. Na desmontagem, faço todo o processo em cima do queijo, não jogo nada, as bolsas que uso vão dobradas dento de uma sacola decorada que é presa no meu resplendor e faz parte da decoração, as peças não podem ser jogadas pois são trabalhadas com muitas pedras e deram danificadas com o manuseio errado. Quando retorno sempre no outro dia reviso tudo para ver se estão em perfeito estado pois preciso estar preparada se formos para o desfile das campeãs. No Rio levo um carrinho que é guardado embaixo da alegoria, nesse carrinho levamos as sacolas das ferragens que são pesadas.”

Comentários