Um coração de morada no bairro do Limão deixou de pulsar fisicamente na apuração de 2009 do carnaval paulistano. Era seu Juarez da Cruz, fundador e presidente de honra da Mocidade Alegre, que não resistiu à emoção de ver seu pavilhão campeão.

Para 2010, a agremiação da zona norte de São Paulo, presidida por Solange Cruz Bichara (sobrinha de Juarez), preparou, então, uma homenagem a este baluarte do samba que virou luz e espelho.

Construída por um jogo de metáforas sobre o espelho, a narrativa abordou aspectos da criação do universo pelo viés do cristianismo, passou pela astrologia, afrorreligiosidade (com espelho de Oxum), poética literária (espelho, espelho meu) e pela criação da agremiação, chegando no espelho eterno: o homenageado. A obra mensurou no espaço temporal da avenida dois criadores: o do universo – na comissão de frente – e o da Mocidade – na última alegoria – permitindo que o limiar narrativo fosse muito bem arquitetado, planejado e executado.

É interessante observar que o enredo da agremiação não se concentrou no objeto “espelho” e em suas funcionalidades e contextos históricos. A narrativa pensou em espelhamentos, em reflexões concretas e abstratas. A começar pelo primeiro setor, nomeado “O espelho da vida… Na criação do universo, Deus fez o homem à sua imagem e semelhança…”. Nele, o narrador carnavalesco explorou o fato de que, no cristianismo, Deus é o responsável pela criação da luz, do universo e dos seres que habitam a Terra.

Narrou-se como primeiro gesto de espelhamento a criação do homem à própria imagem de Deus. O enredo adentrou a ideia de que “a mais perfeita criação” refletiu a plenitude de seu criador. Esse movimento se repetiu no último setor, “O espelho eterno… A vaidade e a busca pela ‘eterna Mocidade’… O sonho eterno do criador”. O criador, nesse ponto, não era mais o do universo, mas o da própria agremiação. A ação, no entanto, era a mesma: ambos refletiram em suas criações suas próprias imagens – não só físicas, mas conceituais e filosóficas.

Um dos principais fatores que transformou esse desfile da Mocidade Alegre em um carnaval histórico foi justamente a homenagem ao criador Juarez da Cruz. Se o enredo fosse mera narrativa sobre o espelho, seria apenas mais uma belíssima apresentação da escola, como tantas outras. A homenagem atribuiu uma carga emocional e simbólica à história contada. Mesmo quem não pertence à comunidade, ao tomar ciência da importância do principal “espelho” do enredo, criou – e cria – algum laço afetivo e se sensibiliza ao cantar o samba, especialmente os versos finais e o refrão principal.

Pelo bailar dos sentidos e ordenamento narrativo, a escola de samba cravou um outro importante pilar setorizado: o espelhamento de Oxum “adorada e cultuada nas religiões afro-brasileiras”, segundo a sinopse, que “reflete riqueza, acolhimento, lucidez, beleza e fertilidade”. Os trechos destacados do texto mestre são vitais para que os compositores produzam os efeitos marcantes do samba: “Num ritual de fé, na força do orixá, yabá, ora ieiê, mamãe Oxum, reluzindo no meu caminhar”, refrão que provoca catarse triunfal abraçada pela semiótica da canção.

Nesta obra carnavalesca de 2010, há um jogo de sentidos com a palavra “mocidade”, que se refere tanto a uma continuidade da juventude, quanto à Mocidade Alegre (a agremiação). A eternização da escola é um sonho de seu criador que partiu do plano terrestre, e cabe aos componentes da escola a missão de se espelhar em seu exemplo e perpetuar essa eternidade. O samba traduziu essa mensagem no refrão principal: “sou a luz do criador, espelho aos olhos de quem me criou”. Dentro da narrativa contada, ao mesmo tempo em que os componentes são espelhos aos olhos do Deus cristão, são espelhos dos baluartes criadores da escola de samba. A Mocidade Alegre é um microuniverso que reflete a alegria de quem o criou.

No que tange às questões visuais, o desfile foi um exemplo de boa utilização de materiais. Acetatos, festões laminados, tecidos e fitas metalizadas foram alternativas para traduzir os espelhamentos em fantasias e alegorias. Molduras, cacos e mosaicos foram elementos presentes ao longo do desfile e ajudaram na leitura do conjunto por parte do público. Uma escolha estética interessante foi a paleta cromática da abertura da escola ser muito semelhante à do encerramento, fato que conecta os dois principais “criadores” do enredo, não só no texto e no samba, mas também plasticamente. As nuances de lilás e roxo trazem o significado popular dessas cores que representam espiritualidade e magia. Sendo assim, a sensibilidade dos carnavalescos na criação do desfile foi essencial para colocar em
formas, cores e texturas a emoção da narrativa contada.

Todo indivíduo tem uma imagem em que se espelha. Um dos processos de construção identitária passa pela busca de referências sociais em que o sujeito encontra semelhanças do seu desejo de ser. É, entre outros, um dos motivos da importância de representatividades plurais em espaços de evidência. A figura de Juarez da Cruz, “exemplo de garra, coragem e espírito vitorioso”, trabalhador que enfrentou adversidades, mas construiu no carnaval uma comunidade de força e união, é um espelho em que o sambista pode se enxergar e se inspirar para as batalhas cotidianas. São essas relações entre “criadores” e “criaturas”, entre “superfícies” e “reflexões”, que afetam os corpos na avenida e nas quadras.

Partindo desse enfoque de se espelhar em algo, ou alguém, “o Mocidade Alegre” de Solange Cruz e de Juarez “reflete na avenida” a inspiração para outros grêmios paulistanos, isso porque o espelho não mente jamais: a Mocidade foi e é um case de sucesso, empreendimento, gestão e labor artístico nos mais engenhosos dos experimentos. A agremiação sempre se mostrou ousada por promover constantes testes, se agigantando no sambódromo e também na sua comunidade, em sua quadra, no bairro do Limão. Por sua trajetória, historicidade, engajamento e resultados, ousamos apontar que a Mocidade é morada do samba, mas é também espelhamento que inspira outras agremiações. Que seja assim então, morada e espelho, exalando inventividades, emoções e sonhos.

Concluímos apontando que no processo visual, a agremiação provocou uma estilística de primor, refletindo “a beleza” em fantasias, alegorias e adereços. Em um plano intertextual, os discursos se (cruz)aram: “são tantos sambistas imortais”, dizia o samba de 2009, que em nome do baluarte maior, Juarez, se consagra em 2010 como “um ser divino que guia” e será eternizado como “espelho” e “imagem” da Escola de Samba que mais exalta seu pavilhão. Que este samba de 2010 se perpetue na comunidade da Mocidade Alegre, fazendo registrar na memória aspectos da sua criação, da sua origem e da sua identidade.

Autores:
* Tiago Freitas – Doutorando em Linguística/UFRJ e Doutorando em História da
Arte/UERJ
* Cleiton Almeida – Mestrando em Estudos Contemporâneos das Artes/UFF e
Graduando em Cenografia/EBA-UFRJ
Coordenadores gerais do Observatório de Carnaval/UFRJ: Instagram: @obcar_ufrj

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