No corpo, na alma e com a mão na taça. Tatuapé brilha no Anhembi e sonha com o tricampeonato

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Por Guilherme Ayupp. Fotos: Magaiver Fernandes

O Acadêmicos do Tatuapé provou porque é a escola a ser batida no carnaval de São Paulo. E mostrou isso onde uma escola deve fazer, na pista. Lutando pelo inédito tricampeonato, algo só alcançado pela Mocidade Alegre nos últimos anos. Apesar de ter tido problemas em pelo menos duas de suas alegorias no que diz respeito à iluminação, a escola deve confirmar o favoritismo e terminar a primeira noite como melhor escola. A Tatuapé conclui seu desfile depois de 61 minutos e apresentou o enredo ‘ Bravos Guerreiros: Por Deus, pela honra, pela justiça e pelos que precisam de nós’.

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Comissão de Frente

A fantasia da comissão representava ‘Jorge, Ogum e Marte: Os Guerreiros das Religiões e da Astrologia’. A indumentária foi inspirada em abordagens religiosas e astrológicas sobre o ano de 2019. Nesse contexto, o ano de 2019 seria regido pelo planeta Marte, que na astrologia é considerado o Deus dos Guerreiros e no catolicismo tem São Jorge como seu maior símbolo, que no sincretismo religioso africano está relacionado com Ogum, o orixá Guerreiro, símbolo de força. Dessa forma, a fusão desses 3 personagens, São Jorge, Ogum, e o planeta Marte que se entrelaçaram pela história e se unificaram, a Tatuapé apresentou sua comissão de frente com uma homenagem a São Jorge, santo padroeiro da escola. Uma indumentária impressionante na riqueza de detalhes e acabamento dos materiais. A maquiagem no rosto dos dançarinos parecia uma máscara.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Tatuapé representou dois grandes monarcas do período medieval, que foram mãe e filho e se destacaram por participarem diretamente de muitas batalhas como grandes guerreiros, incluindo as cruzadas. Mas apesar de todas as glórias, paralelamente, construiu-se sobre eles uma lenda negra que teve a sua origem nos rumores daquela época, envolto por traições, prisões e mortes e que chegou até aos nossos dias. Ele, vestido com roupa e armadura típica de um cavaleiro medieval, trazia na cabeça uma coroa, representando o filho, Ricardo I, mais conhecido como Ricardo Coração de Leão. Ela, em seus trajes reais e também coroada, representava a mãe, Leonor de Aquitânia. Os guardiões que acompanharam o casal representaram os súditos desses monarcas. Posicionados no meio da escola, tiveram exibição perfeita nas duas primeiras torres de julgamento, com o desfraldar perfeito do pavilhão. A indumentária possuía detalhes em led, que deram um belo efeito.

Harmonia

Uma atuação de manual da harmonia do Acadêmicos do Tatuapé. A começar pela ousadia de parar o canto do carro de som várias vezes. Isso é um risco para agremiações que não possuem uma comunidade nas mãos. Esse definitivamente não é o caso da Tatuapé. Canto coeso e forte o tempo todo. A comunidade desafia o público a cantar junto. Olha no olho de quem está assistindo e canta firme. Todas as alas passaram com o samba totalmente dominado.

Enredo

Para o Carnaval 2019, ano que na astrologia será regido pelo planeta Marte, considerado o “Deus Guerreiro”, o Acadêmicos do Tatuapé criou uma narrativa de enredo, que foi contada através da visão de um personagem que representava o Bravo Guerreiro, existente em cada componente e integrante que luta e ama a Tatuapé.. Esse Bravo Guerreiro, fazia uma viagem imaginária através do tempo durante o desfile, lembrando-se de várias civilizações e seus grandes guerreiros que mudaram o mundo e cravaram seus nomes na história. A escola apresentou uma temática muito bem construída através dos setores, a se destacar o último que trazia algumas críticas sociais no tom certo.

Evolução

A evolução da Tatuapé, bem como a harmonia, devem constar em cursos e livros sobre o tema. Com fantasias bastante volumosas não teve desculpa. Foi evolução de campeã do início ao fim. Alas soltas, brincando, se mexendo, ‘quicando’ na avenida. A técnica de desfile é tão homogênea que foi um dos desfiles mais rápidos da noite, com um conjunto plástico dos mais pesados.

Samba-Enredo

Apesar de não ser apontado como uma grande obra na safra de 2019, o samba-enredo do Acadêmicos da Tatuapé teve um excelente rendimento no desfile. Cantado com muita categoria por Celsinho Mody, um dos grandes intérpretes do carnaval paulistano. As pausas que ele dava no canto do carro de som impulsionaram ainda mais o canto, em perfeita harmonia com a bateria.

Fantasias

O melhor conjunto da noite com alguma segurança. Esticada na avenida a Acadêmicos do Tatuapé se assemelha a um grande tapete, com uma divisão cromática perfeita. Todas as alas abusaram dos mais variados materiais e tinham esplendores. Exceto as do último setor, que traziam maior leitura com a crítica impressa no setor.

Alegorias
O único quesito capaz de interromper o sonhado tricampeonato da Tatuapé. Não pelo conjunto ter sido ruim, mas por uma falha técnica que pode ser fatal. O telão de led da última alegoria passou a avenida toda completamente apagado, o que em teoria deve fazer com que a escola seja punida em todas as torres de julgamento neste quesito. O carro abre-alas possuía uma beleza e um acabamento impressionantes. As demais alegorias destoaram um pouco deste primeira alegoria.
Bateria
Firme na condução do desfile, os ritmistas fizeram paradões para liberar o canto da comunidade em perfeito entrosamento com o carro de som, comandado por Celsinho Mody. Fora desses momentos a bateria sustentou o ritmo do desfile com muita firmeza.

Outros Destaques

O carro de som da Tatuapé veio todo fantasiado de bombeiros com ‘lama’ pelo corpo. Uma homenagem aos profissionais que salvaram tantas vidas, após a tragédia com a barragem da Vale em Brumadinho, Minas Gerais. O público reagiu estarrecido com o espetáculo proporcionado pela Tatuapé, aplaudindo muito a escola o tempo todo. A fantasia do casal foi uma das mais belas da noite com detalhes de led nas indumentárias dos dois. Em um desfile tão bonito plasticamente, a fantasia da ala das baianas não foi destaque.

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