A intrigante missão de Milton Cunha para levar até Nilópolis a saga de uma cantora lírica brasileira do Rio de Janeiro, “detonada” pela crítica dos idos de 1937, é o objetivo desse texto que faz parte da minha tese de doutorado em linguística pela UFRJ, lugar acadêmico em que pesquiso a obra de Milton Cunha de 1994 à 2010.

Chegamos aqui iniciando que, magoada com as críticas de 37, Bidu Sayão deixou as terras brasileiras via território, cantou em diversas partes do mundo, mas jamais deixou que se apagasse a brasilidade que era chama viva em sua memória-coração. Como prova desse ato, a artista renegou cidadania americana e sonhou um dia voltar para a glória dos seus.

No exterior, Bidu Sayão recebeu reconhecimento de extremo sucesso e sua voz para os mais críticos foi catalogada como de rara tipologia sonora. Abraçada com a sabedoria da velhice, Sayão disse sim para Milton Cunha, entendendo, que ali, seria um sopro de adeus dela para com o Brasil. E assim foi.

Voz do/de presente.

Dia do desfile. Carnaval de 1995. O carnavalesco se ergue pelo Carvalhão de mãos dadas com a homenageada. Bidu olha assustada o carinho do povo que já a aplaude. Mareja os olhos que se contamina com os fogos. Acelera o coração, o carro anda para a glória. Lágrimas. Aplausos. Gritos. Flashes.

Acenos.

Era Bidu Sayão.
Era Bidu Sayão.

Num canto entoado com muita garra pela comunidade, a bateria recebe interferências de violinos e o cantor Edson Cordeiro aparece com sua voz lírica interpretando com Neguinho não só um samba-enredo, mas uma ópera por Bidu, um valente “obrigado”, uma terna canção de despedida para o coração e olhos de Sayão, que vê e sente a passarela iluminada com os olhos de quem já pode ir embora da vida com o barulho aclamado da multidão.

Retomando ao texto pós-desfile, as alas, alegorias, fantasias e adereços traduziram em cores o tom da voz de Bidu.

A cantora lírica era alí a rainha do samba. A rainha dos brasileiros. A narrativa carnavalesca mostrou uma carioca da gema que de tão apaixonada, no auge da fama, consagrada nos palcos dos teatros do mundo, se pôs a cantar sua lírica poesia por muitas cidadezinhas do Brasil, do norte para o sul, tirando muitas vezes de seu próprio bolso as despesas para as expedições artísticas. A artista também se apresentou em tribos indígenas, brindando e agraciando de arte-luz os corações dos seus irmãos brasileiros.

Sua última apresentação foi na Marquês de Sapucaí. Bidu não cantou, mas encantou. Bidu ouviu o povo cantar para ela o canto bom da consagração agradecida.

O carnavalesco Milton Cunha trabalhou um setor todo preto, que faz alusão ao último canto do cisne negro, que segundo as tradições, representa um último suspiro-canto antes morrer. O cisne belo com seu canto de cristal era Bidu, que em 1995 olhou o Brasil, sua pátria, com os olhos de última vez, recebendo o amor e o reconhecimento popular de sua gente.

Bidu deixou de existir fisicamente poucos anos depois da homenagem.

A Beija-Flor registrou com este desfile brasilidade, lirismo, poesia e reconhecimento para uma diva de canção. Um obrigado para Bidu, Beija-flor e Milton.

Autor: Tiago Freitas – Doutorando em Linguística/UFRJ, Doutorando em
História da Arte/UERJ, Coordenador geral e Pesquisador-orientador do
OBCAR/UFRJ.
Instagram: @obcar_ufrj

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