A Beija-Flor de Nilópolis foi fundada no natal de 1948. Seus fundadores jamais poderiam supor que no inverno do ano seguinte viria ao mundo aquele que se tornaria a mais significativa voz em todos os tempos na azul e branca. Luiz Antônio Feliciano Marcondes, ou simplesmente Neguinho da Beija-Flor, completa neste sábado 70 anos, quase 45 dedicados à uma única escola de samba, o que faz dele o intérprete mais emblemático da festa, depois da partida de Jamelão.

Embora hoje Neguinho possua uma incontestável relação com a cidade de Nilópolis, município que se orgulha em ser a terra da Beija-Flor, o cantor é de Nova Iguaçu, cidade vizinha. Foi na escola da cidade que o jovem Luiz Feliciano deu seus primeiros passos. Chamado de Neguinho da Vala, recebeu a alcunha por viver caçando rãs, muçuns e cascudos em valas. Com 10 anos de idade o primeiro prêmio: uma lata de goiabada por ter interpretado um samba de Jamelão em um parque de diversões.

A chegada de Neguinho na Beija-Flor tem um toque do destino. Um ano antes, em 1975, o intérprete oficial da agremiação Bira Quininho havia morrido assassinado. Neguinho foi chamado para um teste e não compareceu. Mesmo assim seu desempenho na Leão de Nova Iguaçu chamou a atenção de Anísio Abrahão David e ele foi convidado. Ao chegar na escola quis entrar na disputa de samba para o Carnaval 1976, ‘Sonhar com Rei dá Leão’. O carnavalesco Joãosinho Trinta abriu uma exceção para inscrever a obra de Neguinho, pois o prazo já havia se encerrado. A história se encarregou de fazer justiça aos dois personagens e a Beija-Flor ganhou seu primeiro campeonato.

Para contar a história da Beija-Flor é obrigatório passar pela voz de Neguinho. Todos os 14 campeonatos da escola aconteceram na inconfundível voz dele. Em três oportunidades o samba que levou a Beija a campeonatos foi de autoria do cantor: 1976, 1978 e 1983. Obras que são cantadas até hoje em qualquer quadra. É de autoria de Neguinho também o hino de exaltação oficial da escola, ‘Deusa da Passarela’. A canção foi encomendada a Neguinho pelo então carnavalesco Joãosinho Trinta.

‘Neguinho da Beija-Flor é um dos caras que me faz desejar que carnaval dure para sempre’

Biógrafo da Beija-Flor, o jornalista Aydano André Motta se emociona ao homenagear os 70 anos de Neguinho. Aydano conta à reportagem do CARNAVALESCO uma passagem onde o intérprete revela que nunca recebeu salário da escola e que se alguém tivesse de pagar seria ele, por gratidão.

“Cubro carnaval há mais de 30 anos e um dos momentos mais emocionantes foi quando Neguinho me contou a sua história de devoção à escola. Perguntei a ele sobre a profissionalização dos cantores e ele me contou que não ganhava nada em termos de salário. Ele me disse que se alguém tivesse de pagar seria ele. Relatou que a dívida dele com a Beija-Flor era eterna. Depois do tratamento contra o câncer, a volta dele na quadra foi uma das imagens mais míticas que eu já vi em toda a minha vida. O Neguinho da Beija-Flor é um dos caras que me faz desejar que carnaval dure para sempre”, emociona-se.

‘Neguinho é um órgão vital da Beija-Flor’

Fábio Fabato joga luz à um famoso bordão que se tornou marcante na história recente dos desfiles. Para ganhar carnaval é preciso ganhar da Beija-Flor. O jornalista relata que a expectativa todo ano pela escola passa obrigatoriamente pela marcante voz do intérprete.

“Neguinho é ‘apenas’ o maior de todos. A história dele se confunde com a do próprio desfile. Ele estreia naquele momento de reconfiguração da festa. Uma escola de samba tem como sua marca uma voz. Além do visual, a Beija-Flor tem o Neguinho como sua grande marca. Falar dele é simplesmente falar da história da própria festa. Ele é um órgão vital da escola. Todo ano, não existe carnaval antes da Beija-Flor e do Neguinho passarem”, relata.

‘Todo mundo quando vê o Neguinho o associa diretamente aos desfiles’

Para Eugênio Leal, Neguinho da Beija-Flor é a principal referência atual das escolas de samba. O jornalista avalia que a simples aparição do intérprete faz com que as pessoas façam uma imediata associação de sua figura ao desfile das escolas de samba.

“Ele é um ícone do carnaval. Hoje ele talvez seja a figura mais reconhecida no papis que milita no carnaval. Muitos anos na mesma escola, uma agremiação vitoriosa. Seu carisma o faz ultrapassar os limites do carnaval. Todo mundo quando vê o Neguinho, ou ouve, associa diretamente aos desfiles. Isso se deve ao seu carisma, ao seu talento e ao fato de estar há muitos anos na Beija-Flor”, conta o jornalista ao site CARNAVALESCO.

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