Parceria de Alexandre Naval ‘embala a alma’ e triunfa na grande final de samba-enredo da Estácio de Sá

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Por Guilherme Ayupp e Geissa Evaristo. Fotos: Allan Duffes

A tradicional Estácio de Sá foi a última agremiação da Série A a escolher o seu samba para o Carnaval 2019. A grande festa que definiu o hino oficial da agremiação para o próximo desfile aconteceu na madrugada deste domingo na quadra da escola, na Avenida Salvador de Sá. A parceria dos compositores Alexandre Naval, Edson Marinho, Tinga, Jorge Xavier, Luiz Sapatinho, Cláudio e Álvaro Roberto triunfou, superando outras três concorrentes. A Estácio apresenta em 2019 o enredo ‘A fé que emerge das águas’ de desenvolvimento do carnavalesco Tarcísio Zanon. O leão será a terceira escola a desfilar no sábado de carnaval, pela Série A.

Presidente da Aesm-Rio (a liga das escolas mirins) e figura notória na Estácio de Sá, o compositor Edson Marinho triunfa pela quarta vez na agremiação. Ele se uniu a Alexandre Naval, que foi um dos vencedores na disputa para o carnaval passado. O intérprete Tinga, Jorge Xavier e Luiz Sapatinho são tricampeões na Estácio de Sá.

“A disputa esse ano foi muito forte. Qualquer um dos quatro sambas que fosse para a Avenida, a Estácio estaria muito bem representada, foi muito difícil esse campeonato. Acredito que os refrões tenham sido o nosso diferencial. O samba toca o coração das pessoas, como uma oração. Minha parte favorita é ” A fé que me embala, a alma…”, disse Edson Marinho.

A obra foi defendida na quadra pelo intérprete da Vila Isabel e também compositor do samba, Tinga. Os compositores apostaram em uma grande festa com bandeiras nas cores da agremiação e muita coreografia. Bolas coloridas e até um pequeno tripé foi visto na apresentação. De melodia valente, porém mais cadenciada, o samba teve bom início com destaque para seus refrões fortes. O samba casou muito bem com a bateria Medalha de Ouro, com alguns ritmistas cantando bastante a composição durante os 30 minutos de passagem na quadra. Nas duas passadas sem bateria, entretanto, a torcida teve dificuldades no canto da primeira parte do samba, o que melhorou consideravelmente após o refrão do meio.

“Estou muito feliz pela Estácio. O samba é maravilhoso. É indescritível. A Estácio subiu para o Especial com um samba meu, espero que esse ano a gente tenha a mesma sorte. Nossa parceria é antiga, só juntamos alguns amigos. O forte do nosso samba na minha opinião é o refrão do meio”, diz Tinga, que em 2019 também terá outro samba de sua autoria cantado na Série A, no Império da Tijuca.

Enredo foi trazido pela rainha da escola

A rainha da Estácio de Sá, Jessica Maia, não se limitará a brilhar à frente da escola no Carnaval 2019. É que a beldade sugeriu o enredo da agremiação para o desfile do ano que vem. Quem confidenciou foi o presidente da Estácio, Leziário Nascimento. Ele ainda garantiu ao CARNAVALESCO que o leão vai brigar pelo campeonato da Série A.

“Nosso enredo foi trazido pela nossa rainha Jessica. Eu gostei muito da proposta e decidi fazer. A Estácio não terá nenhum tipo de patrocínio vindo do governo do Panamá. Faremos nosso carnaval na raça, somente com a subvenção que receberemos. Sei que nossa obrigação é sempre lutar pelo título do carnaval e não será diferente em 2019. Não sei se falta algo para alcançarmos esse objetivo, sinceramente. A Estácio tem feito carnavais competitivos. Só uma pode ganhar não é?”, desafiou.

Jéssica, que dá expediente diariamente na quadra, contou à nossa reportagem como teve a ideia de sugerir o enredo para o presidente Leziário.

“Acho que sou a primeira rainha de bateria da história do carnaval a propor um enredo e o presidente fazer né? Eu gosto de participar dos processos da escola, não sou de ficar só na parte da sensualidade e beleza da rainha não. É claro que é importante mas se tiver espaço gostaria de opinar também. O enredo eu sugeri pois foi uma situação que pude viver e achei que se encaixaria perfeitamente”, confidenciou.

Responsável pelo desfile da Estácio, o carnavalesco Tarcísio Zanon confidenciou que no início não gostou do enredo, mas que se enganou e citou o Panamá como um lugar antagônico.

“Quando recebi a proposta do enredo confesso que torci o nariz, pois considerava um enredo CEP, engano meu. A primeira preocupação foi achar um elo histórico ou cultural que pudesse nos dar as soluções que precisássemos para contar essa história e, assim descobri o Cristo Negro, o Nazareno. Automaticamente fiz uma associação com Nossa Senhora Aparecida que também é negra e emergiu das águas. Ele quem nos conduzirá a uma emocionante jornada de fé, devoção e amor no Sambódromo. Quando estive no Panamá o enredo já estava desenvolvido e me impressionei porque não precisei mudar nada, era como se eu já tivesse estado lá antes. Panamá é um lugar antagônico. É um enredo premiado por águas, acredito que estejamos abençoados”, diz Tarcísio Zanon.

A quadra do velho Estácio viveu uma gloriosa noite. Absolutamente lotada por sambistas e personalidades do carnaval, a vermelha e branca demonstrou toda a sua musculatura de escola de samba que está de passagem no Acesso do carnaval carioca. Uma apresentação de segmentos imponente embalada pela segurança de Serginho do Porto com a seleta safra de obras que marcam a história do Berço do Samba. O conjunto de ritmistas da própria bateria Medalha de Ouro iniciou a noite com clássicos do samba e do pagode. Em seguida começou o show com os segmentos. Como é tradicional em escolhas de samba na quadra da Estácio, foi uma verdadeira maratona de samba. Desde as 22h o público chegou em excelente número. A escola atendeu o anseio da comunidade e escolheu o samba que verdadeiramente pegou o coração dos estacianos.

“O ano de 2018 foi o ano do reencontro, do retorno. Minha vida tomou um novo caminho e eu fui feliz com a Estácio de Sá, a palavra daqui é união. A expectativa para o Carnaval 2019 é muito maior. Pela primeira vez a Estácio tem uma final com todos os sambas finalistas de qualidade. Tenho 12 anos de microfone oficial daqui e nunca havia presenciado isso. Se Deus quiser hoje será escolhido um excelente hino para a Estácio tentar o campeonato para o Grupo Especial no próximo carnaval”, comentou o intérprete Serginho do Porto.

De volta, Chuvisco vai mexer no andamento da bateria

Depois de um ano à frente da bateria da Vila Isabel, Chuvisco regressou à Estácio para o desfile de 2019. Revelado no Morro de São Carlos, o comandante destaca como válida a experiência, mas confessa que em uma próxima proposta para deixar a sua escola de coração, pretende pensar mais e não agir por impulso.

“Como diz o velho ditado, tive a felicidade de voltar para casa, estou muito feliz. Passei a minha vida inteira aqui na Estácio. A ida para a Vila Isabel foi válida como experiência. Tudo acontece de acordo com a vontade de Deus. Chegou o momento de eu respirar outros ares e sair um pouco da zona de conforto. Hoje se tiver que acontecer novamente irei pensar mais”, avalia.

Chuvisco ressalta que pretende rever o andamento da bateria da Estácio. Por característica histórica, a Medalha de Ouro possui um andamento mais à frente. Segundo o mestre, a tendência é que ano que vem a escola opte por algo um pouco mais cadenciado.

“Em 2019 vamos passar com 280 ritmistas. Nossa bateria é de massa, de comunidade. Nosso andamento é historicamente na frente. Tenho escutado muitas coisas até de jurados, acredito que nosso andamento terá de ser um pouco mais cauteloso ano que vem, mas vamos decidir ainda”, afirmou.

Perfeitamente entrosados, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, José Roberto e Alcione, já está ensaiando pensando no desfile do ano que vem.

“Já estamos ensaiando há dois meses com as modificações que entendemos necessárias na dança a partir da nossa avaliação das justificativas dos jurados. Com a escolha do samba colocaremos mais em prática. Já vimos o nosso figurino, que é claro, é surpresa. Só podemos adiantar que viremos novamente à frente da escola”, citou Alcione.

O mestre-sala aproveitou para falar que a dupla trabalha em cima das justificativas dos jurados no desfile desse ano.

“Avaliamos as justificativas do Carnaval 2018 onde o jurado visualizou um excesso de velocidade e chegamos a conclusão de que nossa coreografia estava realmente um pouco acelerada. Não tivemos a nota máxima do primeiro ano juntos, mas estamos trabalhando em busca dela. Faremos uma coreografia mais pausada. O auxilio da Ariadna Lax, coreografa da comissão de frente e nossa também tem sido fundamental. Nossa mentalidade para 2019 mudou. Sigo praticando musculação e agora box, balé e contemporânea, tudo isso para dar movimento e leveza no corpo”.

Como foram apresentações dos outros sambas finalistas

Parceria de Wilsinho Paz – O samba foi defendido na quadra pelo intérprete da Alegria da Zona Sul, Igor Vianna. O desafio não era simples, pois o samba se apresentou depois do rolo compressor que foi a passagem da parceria de Alexandre Naval. Mesmo assim a torcida iniciou a apresentação com força no canto. A sequência da passagem do samba foi de um bom canto mas sem cativar segmentos e o restante da quadra.

Parceria de Daniel Gonzaga – Último samba a se apresentar a parceria não teve a presença de Diego Nicolau, um dos intérpretes da obra, pois o mesmo estava na semifinal de samba-enredo da Mocidade, onde também concorre. Parceiro de Nicolau no palco, Tem-Tem Jr. comandou a apresentação. A parceria acabou um pouco prejudicada por ter sido a última a se apresentar e pegou uma quadra mais cansada. Foi com isso a torcida que menos cantou, o que interferiu decisivamente na temperatura da quadra ao longo da passagem do samba.

Parceria de Jacy Inspiração – O samba foi defendido pelo intérprete oficial da Imperatriz Leopoldinense, Arthur Franco. A parceria apostou em uma numerosa torcida que cantou bastante o samba no início da apresentação. O samba apostou em uma melodia mais alegre e foi bem sucedida em sua proposta pois o samba conseguiu contagiar a torcida em seus refrões.

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