Nada jamais continua, tudo vai recomeçar!
Mario Quintana

Assim como outras linguagens artísticas, a dança integra um conjunto de heranças culturais de um povo, tribo ou comunidade. Dançar constitui um vetor muito poderoso de identidade social, hierárquica, econômico, sexual, étnica, cultural, físico e até econômico. Com isso, falar do quesito comissão de frente no carnaval faz-se quase que obrigatoriamente abordar via dança todos estes diferentes aspectos.

Destaca-se também, ao falar de comissão de frente, elementos como: história, transformações, funções, número de coreografias, formação dos coreógrafos, componentes do quesito, audição, figurino, maquiagem, adereços/elementos cênicos, tripé, efeitos especiais, andamento do samba, tempo na avenida e tempo de apresentação ao jurado, regulamento específico, justificativas dos jurados, relação com o enredo, função do diretor de harmonia, apoios de comissão de frente, ensaios (gerais, quadra, barracão, avenida e rua), processos de criação, teatralização, movimentação espacial e desenhos, sinopse para o jurado, pré-produção, produção e pós-produção, ética profissional. Ufa!

Explicar com riqueza e fundamento estes detalhes no quesito comissão de frente é sim um trabalho árduo e complexo, o qual envolve uma fatia da dança e suas vertentes culturais. Quase que um rizoma onde um fio puxa ao outro. É um tema muito amplo, já que pode ser abordado não somente pela força cultural, abrange inclusive seus contorces regionais, quanto à gênese do quesito e suas mudanças históricas, os processos criativos diversos e a produção da obra em diferentes grupos. Afinal, não podemos esquecer que é desproporcional produzir uma comissão de frente no grupo especial do Rio de Janeiro em relação aos outros grupos de acesso (A, B, C, D e E).

Muitos alunos, amigos, jornalistas, interessados no assunto me questionam as dificuldades encontradas na elaboração de um projeto de comissão de frente. Os principais obstáculos se constituem em momentos diferentes das fases de criação da comissão de frente e também vão se modificando durante carreira. Atualmente duas me chamam atenção.

A primeira é aprender a lidar em pouco tempo, dentro de um processo efêmero, com a diversidade de formação dos profissionais envolvidos, no tocante às relações que precisam ser estabelecidas nesta ordem com: gestores, carnavalesco, assistentes, profissionais que produzem o tripé e/ou adereços, figurinistas, maquiadores e principalmente os intérpretes artistas. Um espaço de negociação constante e que todo ano precisamos recomeçar do zero. A segunda com a preocupação na difusão e divulgação do que é feito dentro dos processos de criação. Que são múltiplos com vários formatos e bem fartos.

Sabemos que são poucos os materiais encontrados sobre o quesito. Poucos pesquisadores direcionam seu olhar e se debruçam em artigos, mapeamentos, ensaios, publicações, trabalhos de conclusões de curso e pesquisas acadêmicas como dissertações e teses. Por outro lado, poucos artistas estão preocupados em disseminar o resultado de seus processos de construção na íntegra. É o que temos debatido no Encontro Nacional de Pesquisadores, Coreógrafos e Bailarinos de comissão de frente. O encontro surge para amenizar tal inquietação.

Como dito, o tema é muito vasto e, por se tratar de um campeonato, penetra neste debate também, assuntos recentes como, tendências anuais das comissões de frente. Isto é, como o quesito vem se moldando ano após ano. Como a escola que ganha, ou a comissão com nota máxima dita tendências para novas produções no carnaval seguinte. Entra também na discussão, a forma com que os jurados olham, avaliam e justificam suas retiradas de pontuações nas apresentações das comissões de frente. Nota-se que, a cada ano, alguns jurados reinventam seu modo de julgar. Isso é bom ou ruim?

Se entendermos o quesito a partir deste sentido amplo, na perspectiva de atender interesses da cultura popular, produção do espetáculo, inter-relações, econômicos e avaliativos, surgem um turbilhão de dúvidas, dificuldades, campos de tensão e possibilidades de pesquisa, debate, conversas e diálogos. Dessa forma, certifica-se que o ambiente é fértil e vem suplicando atenção, holofotes nos tempos atuais. Principalmente no que tange a políticas trabalhistas para os profissionais que trabalham no quesito.

O que venho refletindo constantemente é a necessidade de mais pesquisadores artistas, mais artistas pesquisadores, ou que estes pesquisadores possam se aproximar cada vez mais de nós artistas que produzimos comissão de frente. Assim, poderíamos tornar público e fazer serem conhecido todos os processos que envolvem este quesito dentro do desfile de uma escola de samba.

Vivemos um momento de propagação de informações. É obsoleto nos tempos de hoje se guardar conhecimento. Ainda mais quando se trata de pesquisas acadêmicas. Ressalta-se aqui a importante relevância dos atuais grupos de pesquisas que se debruçam em pesquisar, fundamentar, incentivar, divulgar pesquisas, pensamentos e posicionamentos diversos.

Muito antes, mas intensamente desde 2007, ao ingressar como aluno do curso de Bacharel em Dança da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ, direciono meu olhar para o quesito, o que me projetou hoje estar em cena como pesquisador, julgador, coreógrafo e produtor de comissão de frente. Mas sinto e percebo que pouco sei. Todo ano descubro coisas novas nos barracões, ensaiando, e, principalmente nas avenidas. Cada agremiação me ensina mais. Os encontros me fortalecem. Os desencontros me direcionam para novas possibilidades.

Sigo indagando, pesquisando, investigando, perguntando, interrogando, examinando, divulgando, postando, fazendo, dançando, produzindo, procurando brechas, e é claro proporcionando aberturas e novos ciclos. Parafraseando Mario Quintana, sigo atestando que as fatalidades e fiascos são a oportunidade para recomeçar com mais sabedoria. E que venham novas sementes, dúvidas, certezas, agremiações, novos sambas, assistentes, componentes, profissionais e novas publicações.

Autor: Jardel Augusto Lemos – Bailarino, julgador e coreógrafo de comissão de frente do carnaval carioca desde 2008. Já coreografou mais 15 comissões de frente (em diversos grupos e regiões), além de trabalhar com casais de mestre-sala e porta-bandeira, alas e carros coreografados no Rio de Janeiro e outros Estados. Doutorando em Educação/UFRJ. Mestre em Educação, Cultura e Comunicação/UERJ. Graduado em Dança/UFRJ e Geografia/UERJ. Docente do Centro Nacional de Ensino Superior, Pesquisa, Extensão, Graduação e Pós-Graduação – Joinville/SC, nos cursos de Especializações em Dança Educacional e Artes Cênicas. Coordenador nesta mesma instituição do curso de especialização Latu Sensu em Gestão e Design em Carnaval. Pesquisador convidado do Observatório de Memória, Educação, Gesto e Artes – OMEGA/UFPEL. Pesquisador-orientador do grupo de pesquisa Observatório de Carnaval – OBCAR/UFRJ, orientando trabalhos na linha de Corpo, Movimento e Dança. Membro da comissão artística do Encontro Nacional de Pesquisadores, coreógrafos e bailarinos de comissão de frente.

Referências Bibliográfica
FARIAS, Julio Cesar, 1996. Comissão de Frente: alegria e beleza pedem passagem. Rio de Janeiro. Litterias. Ed. 2009, 208p.
LEMOS, Jardel Augusto Lemos. SARMENTO, Luiz Thomaz. Dois caminhos de uma mesma rua: Auto do Círio (Pa) e carnaval
(RJ) – Este Palco é nosso. In; Deixa a rua me levar/Organização: Instituto Festival de dança de Joinville e Thereza Rocha. Joinville:
Nova Letra, 2015. 237p.

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