O ano é 2004, a escola de samba Caprichosos de Pilares escolheu como enredo fazer uma homenagem a das personalidades brasileiras mais queridas da época, Maria da Graça Meneghel, a eterna Xuxa. Falar sobre uma artista viva, em seu auge, gerou grande expectativa em cima do desfile da Caprichosos – que, para a homenagem, adotou a grafia Caprixosos – gerando também expectativa sobre a presença da Xuxa na avenida. Isso explica o tremendo alvoroço causado quando ela finalmente saiu do camarim para subir na alegoria que fechava o desfile, um grande coração azul composto por várias crianças da fundação Xuxa Meneghel.

Ao longo de toda a apresentação da agremiação nós pudemos ver a significativa presença de crianças em vários setores do desfile. A escolha feita pelo carnavalesco Cahê Rodrigues foi por um desfile voltado para a imagem “Xuxa, rainha dos baixinhos”, isto é, inspirado no público infantil da homenageada, o que fez com que o desfile fosse algo mais lúdico, com traços de contos de fadas, conectado com a forte presença de Xuxa na infância de seus fãs, mesmo os já crescidos, trazendo para estes uma sensação de nostalgia. Essa escolha casava com os interesses da artista a respeito de um desfile em sua homenagem, já que circulou nos jornais da época que Xuxa, após aceitar o convite, fez algumas exigências, dentre elas que não houvesse nudez no desfile e que sua vida pessoal não fosse abordada. Assim sendo e considerando que o projeto, como cantora, “Xuxa só para baixinhos” (XSPB) era um sucesso nessa época, a ideia de desfilar uma Xuxa voltada para o público infantil era a ideal, ou a possível naquele momento.

Na sinopse do enredo essas escolhas ficam mais evidentes, pois de acordo com a narrativa adotada nela, desde o nascimento Xuxa estaria envolta em magia. Numa quase releitura bíblica, o famoso mago Merlin teria escolhido um casal para gerar uma de suas fadas, cujo nome deveria ser Morgana, a rainha das fadas. A parte do seu nome está, de fato, presente na história de Xuxa, mas, por conta de complicações no parto, ela teve seu nome alterado para Maria da Graça, graças a uma promessa que seu pai fez caso a filha fosse salva. Mesmo não se chamando Morgana, a história de Xuxa não deixou de ser representada de forma mágica no desfile, com direito a muitas fadas, duendes e o Merlin, claro, que vinha à frente do carro abre-alas em uma escultura de 12 metros, “O mágico destino”, trazendo o bebê Maria da Graça que havia acabado de nascer. Era uma escultura que chamava muita atenção não só pela altura já que ele sequer cabia dentro do barracão, mas, também, pela composição de modo geral, pois tinha bastante expressão facial, movimentos e iluminação. Essa alegoria também era circundada por belas figuras de fadas que também estavam presentes na comissão de frente que a precedia. A comissão de frente, “A mais pura das criaturas do mundo”, que representava as crianças, era composta por onze meninas vestidas de fadas, além de mais quatro Merlins que empurravam o elemento alegórico da comissão em formato de cogumelos.

As alas e alegorias seguintes ao abre-alas representaram, por exemplo, a cidade de Santa Rosa, onde Xuxa nasceu. Nesse segundo carro a cidade era mostrada como uma floresta encantada, repleta de flores e duendes com roupas coloridas e feições infantis. Esse também era o carro onde vinham os familiares da Xuxa, seus pais e seus irmãos. Depois do segundo carro viam as alas que tratavam da infância da Xuxa, com direito a “príncipe encantado”, uma ala que representava “a menina e seus heróis”, além da fantasia da bateria que era em homenagem ao palhaço Carequinha e uma última só dos “Flintstones”, um dos desenhos preferidos dela. Este setor terminava com a terceira alegoria, “O universo dos sonhos”, outro carro que chamava bastante atenção pelo colorido, possuía uma grande escultura de uma menina loirinha de chuquinhas na frente do carro e, também, um grande carrossel no centro.

O samba se ateve também aos aspectos mágicos, lúdicos e infantis do desfile, em passagens como “E o mágico destino embalou/Lindos sonhos da menina/A princesa o mundo consagrou/Na modelo ideal/O baixinho sorriu, a rainha surgiu/Em uma nave espacial”. Esse trecho do samba, além de atribuir um “Q” de contos de fadas a vida da homenageada, também remete a momentos importantes da sua vida. Como o início da carreira como modelo, seu sucesso como artista voltada para o público infantil, bem como sua eterna alcunha de “rainha dos baixinhos”, e um de seus programas de maior sucesso, o “Xou da Xuxa”, cujo elemento marcante era uma nave espacial de onde Xuxa surgia.

De volta ao desfile, depois desse setor sobre a infância, ele começava finalmente a entrar na fase da vida da homenageada sobre o início de carreira e da fama. Essa fase aparece a partir do carro número quatro, “Embarque para a fama”. Essa alegoria que representava o dia em que um fotógrafo viu a Xuxa em uma estação de trem no subúrbio carioca era constituída por um grande vagão de trem no meio e, ao redor do vagão, algumas esculturas de bichos de pelúcia. Os bichos de pelúcia representavam o desejo da Xuxa em ser veterinária, mas não deixavam de ser um elemento mais infantil, mesmo em uma alegoria que representava já uma fase adolescente dela. Depois dessa alegoria vinha a “O despertar de uma estrela” que representava Xuxa já como uma supermodelo. Esse era um dos carros que destoavam do estilo do restante do desfile possui. Era uma alegoria não tão colorida quanto às outras, cercada de fotos profissionais da homenageada e possuía uma escultura de um paparazzi deitado no centro do carro.

Desse ponto do desfile em diante nós veríamos representados os trabalhos mais famosos da Xuxa enquanto apresentadora, atriz e cantora infantil, ou seja, a consolidação do seu sucesso, o que o carnavalesco chamou na sinopse de “O reino encantado de Xuxa”. A alegoria número seis, “O mito da tv brasileira” representava os muitos programas que Xuxa havia apresentado durante sua carreira até o momento, como o “Xou da Xuxa”, cuja nave espacial estava presente na alegoria, além das paquitas, balões coloridos e uma enorme centopeia colorida que vinha a frente do carro. Teve também referências aos filmes da artista, como uma ala de fadas e duendes (“Xuxa e os duendes”), outra que remetia ao filme “Super Xuxa Contra o Baixo Astral”, dividida ao meio entre componentes com roupas brancas e componentes com roupas pretas. E a alegoria número sete, “Xuperstar”, que era outro elemento que se destacava do restante do desfile também fazia referência ao mesmo filme. Era um carro todo em preto e branco cujo elemento principal era um grande busto, de braços abertos e com movimentos, do vilão do filme, o Baixo Astral, interpretado pelo ator Guilherme Karan.

Em seguida vinham a ala das baianinhas que fazia referência a Sasha, filha de Xuxa a única referência direta a ela de todo o desfile, inclusive, uma ala do personagem Txutxucão do álbum XSPB 2 e um enorme tripé da personagem Bruxa Keka, do programa “Xuxa no mundo da imaginação”, fechando esse setor. O desfile foi encerrado com a velha guarda da Caprichosos seguida do último carro, “Marquei um X no seu coração”, que possuía um grande coração azul com um X no meio, onde Xuxa, cuja fantasia de Xuxa, para a época, era bastante coberta, vinha em cima. Além, é claro, da presença das crianças da Fundação Xuxa Meneghel que vinham em volta da alegoria e encerravam o desfile assim como ele começou: com crianças e voltado para elas. O desfile da Caprichosos de Pilares foi, de fato, voltado mais para a imagem da Xuxa enquanto a “rainha dos baixinhos”, um desfile mais lúdico, com aspectos mais fantasiosos e mágicos. E que, como dito antes, foi uma das opções possíveis para a época, dentro do interesse da homenageada e do que ela representava naquele momento. Apesar de ter amargado um décimo terceiro lugar na apuração, foi um desfile que ficou marcado na memória de muitos foliões, baixinhos e altinhos.

Autora: Raphaela Vaz, graduanda em História – UFRJ, membro efetivo do OBCAR.
Orientador: Max Oliveira, Doutorando em História/Doutorando em História –
PPHR/UFRRJ, Pesquisador OBCAR.
Instagram: @obcar_ufrj

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