O carnaval é uma festa que expõe a diversidade cultural do povo brasileiro para todo mundo. É muito bonito ouvir que fazemos o maior espetáculo da terra, ver nossos passistas sambando, sentir o rufar da bateria e deixar o coração disparar com o grito de guerra dos intérpretes. No Dia da Consciência Negra optamos por uma matéria repleta de simbolismos. Vamos mostrar que embora o preconceito velado ou revelado exista nas entranhas do Brasil nós sempre vamos combater e mostrar em nossas coberturas que o negro é sempre o protagonista e a figura fundamental para o sucesso do nosso carnaval.

Para ilustrar a nossa matéria ouvimos o carnavalesco Wagner Gonçalves. Ele já foi campeão da Série A com a Inocentes de Belford Roxo (2012) e terceiro lugar com a Estação Primeira de Mangueira (2011). Aos 41 anos, Wagner é um dos principais artistas pensantes do carnaval do Rio de Janeiro. Para o Carnaval 2020, ele não acertou com nenhuma agremiação, mas segue trabalhando e levando sua arte para o mundo inteiro, inclusive, realizando um desfile de escola de samba nos Estados Unidos. Seus enredos sempre geram reflexão e apresentam figuras importantes para cultura brasileira, como Mercedes Baptista, Nelson Cavaquinho, e Joaquina Lapinha.

“É fato que as questões de racismo institucional existem. Sempre procurei me posicionar dentro da minha profissão. Quem julga por cor da pele não me conhece. Já fui vítima em 2012 quando a Inocentes foi campeã e a afiliada da TV Globo, de Campo Grande, veio fazer a cobertura e disse que queria falar com o carnavalesco Wagner Gonçalves. Eu estava de costas e quando virei a repórter não conseguiu controlar e externou uma expressão de decepção. Juntou preconceito pela minha idade na época e a minha cor. Naquele mesmo momento tentei reverter, dei uma entrevista sólida, concreta e respeitando o que foi construído esteticamente. Ela ficou um pouco sem graça, admitiu nas entrelinhas, mas a minha estratégia é a qualidade. O negro tem que fazer duas ou três mais porque será subjulgado. Eu sempre saio na frente, desconstruindo e coloco meu trabalho acima de tudo. O pré-julgamento ganha solidez e desconstrói isso. Se uma escola conversar com cinco carnavalescos e quatro forem brancos e um negro a possibilidade do escolhido ser branco é real, afinal, porque temos poucos negros desenvolvendo e acreditando que é possível. Entendo que o meu papel é servir de exemplo e preciso fazer cada vez mais para influenciar as pessoas”, disse Wagner Gonçalves.

Perguntado sobre negros de destaque no mundo das artes, Wagner Gonçalves diz que é nesse ponto que o preconceito estruturado ganha espaço.

“Temos o Heitor dos Prazeres, Abdias do Nascimento, mas as pessoas quase não tem conhecimento dessas figuras. É o preconceito estruturado e aí o racismo estrutural pega de forma cruel e latente. São artistas que desenvolvem ou desenvolveram trabalhos e não possuem a importância que merecem. É a violência simbólica. Temos poucos expoentes e com pouco espaço na mídia. Isso tem que ser combatido”.

Wagner Gonçalves revela que desde pequeno soube que teria que estudar mais e aproveitou oportunidades que surgiram em sua vida.

“Não sou vítima, porque desde cedo sabia que queria trabalhar com arte e que o universo era muito cruel. Tive sorte, apesar de ser criança de origem pobre, mas pude estar envolvido com pessoas do alto escalão e ter acesso. Sempre tive a dimensão do quanto era cruel, difícil, e quanto eu precisava me qualificar. Fui buscar conhecimento. Eu não tinha acesso a cultura e isso pesou desde muito cedo”.

O carnavalesco diz que o racismo e o preconceito são mesquinhos e que o opressor deve ter mais vergonha do que o oprimido.

“No tempo de hoje querer diminuir uma pessoa pela cor da pele é mesquinho e de mentalidade atrasada. É muito lamentável por quem pratica esses atos. Fico com mais vergonha do opressor do que do oprimido. O Daniel Alves quando jogaram a banana para ele, teve sabedoria e maturidade para agir. Já passei por situações de preconceito e tenho pena de quem age dessa forma. É importante denunciar para não ser normal”, afirma Wagner.

Wagner Gonçalves finaliza falando do Dia da Consciência Negra. “É uma data importante, porque o negro chegou aqui como escravo e sofreu vários tipos de retardo na história. Orgulhosamente, tudo no Brasil é negro, incluindo, cultura, música e culinária. Porém, o Brasil nega em alguns aspectos. O dia é importante porque traz a conscientização e sinto que tem autoestima do negro com mais força no ar”.

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