Em estado de graça, a Viradouro reencontrou a Avenida Amaral Peixoto, em Niterói, no ensaio de rua que “rompeu o isolamento de uma infinita solidão” e o que se sentiu na tarde de domingo foi a emoção dos sambistas. Os componentes que chegavam aos poucos foram dando cor à avenida e mesmo aqueles que estavam de máscaras demonstravam o “sorriso no olhar” validando o apelido da cidade. O presidente da escola, Marcelinho Calil contou que o ensaio foi simbólico e apresentou a retomada da vida.

“Este ensaio é simbólico e que por si só entra para história: é a retomada da vida. A emoção vai tomando conta e nós nem temos noção do quanto simboliza nossa volta, a gente relembra de tanta gente que ficou pelo caminho por essa pandemia, lembra que nosso enredo fala diretamente de outro momento. Então, voltar em um momento adequado, pertinente e oportuno, apresentando o enredo que a gente vai falar, eu acho uma emoção que toma conta da gente, é um choro, mas é um choro de alegria. Tecnicamente falando a escola vem tendo um nível de exigência muito alto, mas temos que ter um pouco de paciência já que é o primeiro ensaio, temos testes e coisas para ajustar e isso colocaremos em prova aqui, para emdezembro aprimorar. A emoção é a tônica deste ensaio, alinhado com um pouco de técnica”, disse o presidente.

“Amor, escrevi esta carta sincera…”

O samba-carta rendeu um ensaio de muita emoção e garra dos componentes da vermelho e branco. Mostrou que não só o lirismo foi sentido por aqueles que acompanharam, mas a vibração das vozes de uma comunidade que, sem sombra de dúvida, declarou o amor pelo carnaval. Alex Fab, um dos diretores de carnaval, pontuou que era para os componentes ficarem à vontade no ensaio para que eles pudessem externar toda sua alegria: “Eu pedi para comunicar aos componentes que todos tivessem o sentimento de gratidão, hoje temos que deixar os componentes mais à vontade para cada um externar a sua alegria, sem grande cobrança, mas como a escola é disciplinada, vamos alinhar a técnica com a emoção”.

“Virei noites à sua espera
Por te querer quase enlouqueci…”

Muitos estavam aguardando por esse dia, o dia do retorno, o presidente de honra Marcelo Calil disse que nem conseguiu dormir na noite anterior por conta da ansiedade. “Vou falar uma frase: ‘Eu gosto tanto da Amaral Peixoto, do ensaio de rua, que eu nem dormi a noite, já vim cedo aqui.’ A gente tem muita alegria de poder reviver isso, chega até se emocionar! E tomará que até o carnaval consigamos fazer mais ensaios e que essa pandemia vai embora de vez”.

Mas, não foi só ele que perdeu o sono, a nova rainha da bateria Erika Januza comentou que até com Deus ela conversou de tanta ansiedade pelo dia: “Eu estou virada, não consegui dormir de ansiedade. Hoje quatro da manhã eu pensei: ‘senhor, preciso dormir. Hoje é meu primeiro momento aqui, estou muito ansiosa e feliz por esse momento”.

“Pintei o rosto de saudade e andei por aí
Segui seu olhar numa luz tão linda
Conduziu meu corpo, ainda
O coração é passageiro do talvez”

A condução do corpo foi o tom do ensaio para Rute Alves, defendendo o pavilhão da Viradouro, ela contou que além da técnica, o coração, na verdade, a emoção, será algo que todos terão que trabalhar no próximo carnaval: “Além da técnica, nós teremos que conduzir nossa emoção para que ela não possa atrapalhar, para que ela não sobreponha nosso trabalho. E é isso que estou tentando aqui. Hoje eu acordei e falei ‘meu Deus, depois de mais de um ano e dessa nuvem tenebrosa que está indo embora, chegou o dia de voltarmos para Amaral.’ Está difícil conter, mas, é muita felicidade e gratidão, por cada pessoa que posso encontrar aqui e saber que a pessoa está bem e que sobreviveu diante de tantos que não tiveram essa oportunidade, eu estou muito feliz”.

“Alegoria ironizando a lucidez
Senti lirismo, estado de graça
Eu fico assim quando você passa”

Zé Paulo, o intérprete da escola, ficou em estado de graça o tempo todo no ensaio, como sempre foi ao público “declamar” o samba-carta e como um Pierrot Apaixonado encontrou na Amaral Peixoto um pouco da Colombina que é o carnaval. Zé fez uma reflexão do que passou com o ensaio. “Passei o dia todo pensando no mix de lembranças do último carnaval que ensaiamos aqui, além do que aconteceu nesse período que ficamos parado, então ver o dia de hoje com essa rua cheia, parece que o carnaval é domingo que vem. Então, estou muito feliz de verdade”.

“A Avenida ganha cor, perfuma o desejo
Sozinho te ouço se ao longe te vejo
Te procurei nos compassos e pude
Aos pés da cruz agradecer à saúde”

Os carnavalescos da Viradouro escreveram o enredo de 2022. Por isso, devemos pensar que eles já imaginaram o grande momento, da avenida tomando cor. O site CARNAVALESCO conversou com os artistas Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira. O primeiro apontou que o ensaio foi de retomada, e que o que mais o encantou foi ver os componentes emocionados: “Hoje é a retomada, nossos corações estão explodindo de alegria, vendo essa Amaral Peixoto cheia novamente e vê os componentes da Viradouro emocionados é o que mais nos encanta, o carnaval vive disso”.

Já seu parceiro, Marcus Ferreira, pontuou a importância da ciência para este momento e relembrou que o ensaio foi importante para o último campeonato: “Estou emocionado, a ciência está provando que temos que voltar à nossa normalidade. A Amaral Peixoto é um lugar muito importante para Viradouro, o reencontro de tudo que a Viradouro fez no carnaval passado, e a gente acredita que tudo que fizemos no desfile passado, o campeonato, todo o nosso trabalho começou aqui”.

“Choram cordas da nostalgia
Pra eternidade, um samba nascia”

Com bossas e com a bateria afinada, a bateria de mestre Ciça agregou ao samba-carta. Em todos os momentos ela não deixou o samba desandar, além disso, mostrou que o tom lírico do samba não é um problema. Perguntado como seria o controle da emoção versus a técnica, Ciça respondeu: “Nós temos que controlar a emoção e ficar de olho na técnica, mas é difícil controlar a emoção da rapaziada que está de volta ensaiando na rua, mas vale a pena! Primeiro dia na rua depois da pandemia, a gente está com saúde que é o mais importante, com esse samba então, será uma emoção só, uma coisa muito bonita”.

“Não perdi a fé, preciso te rever
Fui ao terreiro, clamei: Obaluaê!
Se afastou o mal que nos separou
Já posso sonhar nas bênçãos do tambor”

Com um sorriso largo e conduzindo sua porta-bandeira brilhantemente o mestre-sala Julinho é daqueles que demonstra que em nenhum momento perdeu a fé, ele pontuou que é grande a emoção de retornar: “É uma emoção indescritível, além da sensação de estar preparando para um novo carnaval que a cada ano é um novo carnaval, um novo desfile. Porém, este ano vai ser diferente, pois é um carnaval diferente, aliado a esta sensação a gente imagina ‘estou vivo’, todo mundo daqui está vivo e ao mesmo tempo traz a memória de alguém que perdeu, alguém próximo, então hoje será um ensaio de emoção, e não tem como não falar de emoção na escola que é emoção sem contar com esse samba emocionante”.

“Amanheceu! Num instante já
Os raios de sol foram testemunhar
O desembarque do afeto vindouro
Acordes virão da Viradouro”

Pulsante, a felicidade aportou na enseada de Niterói. Alex Neoral, um dos coreógrafos da comissão de frente disse que o ensaio mostra que ocorrerá o que antes era dúvida, o carnaval de 2022: “Agora vamos sentir de novo a emoção que é está aqui, com público, estamos agora sentindo mesmo que o carnaval vai acontecer, antes era só dúvidas, mas o ensaio é a confirmação que vai realmente acontecer”.

E essa certeza trouxe uma grande quantidade de pessoas não-componentes para acompanhar o ensaio, afinal, eles vieram ouvir os acordes da Viradouro. Marcio Jahú, também coreografo da comissão de frente, pontuou a presença dos niteroienses no ensaio: “E hoje, será uma diversão com uma alegria de estarmos voltando, para mim Niterói desceu toda para ver esse ensaio e a gente vai fazer com muita a alegria e sentir a energia do carnaval de volta”.

“Tirei a máscara no clima envolvente
Encostei os lábios suavemente
E te beijei na alegria sem fim
Carnaval, te amo, na vida és tudo pra mim”

O coordenador da ala de passistas, Valci Pelé, também deu sua opinião no retorno: “Emoção está próximo aos amigos e comunidade, e fazer o que mais amamos na vida que é o carnaval, que é o acolhimento”.

“Assinado: um Pierrot Apaixonado
Que além do infinito o amor se renove
Rio de janeiro, 5 de março de 1919″

“Hoje é para soltar a musculatura É para deixar o grito contido de mais de um ano sair. Esse ensaio é libertador, dia de celebrar e poder comemorar que estamos vivos, não esquecendo das pessoas que fizeram a passagem. Mas, como somos tarados por trabalho, vamos ver depois onde deu certo, onde temos que melhorar. Porém, queremos mais emoção nos olhos dos nossos componentes do que um erro técnico. O povo de Niterói hoje espera da gente o nosso grito de liberdade falando assim: ‘carnaval, te amo, na vida és tudo para mim!”, finalizou Dudu Falcão, um dos diretores de carnaval.

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