Fechamos 2018. Um ano em que parece que se passaram muito mais etapas do que pensávamos. Um trator passou pelos sambistas. A crise de identidade e também de administração colocou o carnaval em colapso. A batalha contra a Prefeitura do Rio atingiu níveis insuportáveis e as escolas de samba sangram com a falta de recursos. Atividades canceladas, funcionários e fornecedores sem receber. Agremiações da Série A sem barracão.

Uma das mais importantes escolas de samba do carnaval completamente rachada por uma intensa briga política. Regina Celi foi considerada inelegível no Salgueiro pela Justiça. Recorreu. Perdeu. Ganhou. Voltou a perder. Foi destituída e André Vaz venceu o novo pleito depois de um ano inteiro de brigas. Na Avenida, deu Beija-Flor. Um campeonato da emoção. Mas ninguém foi mais comentada que a apresentação histórica do Tuiuti. Vice-campeã, desfile arrebatador, crítica direta ao presidente do Brasil, trending topics no Twitter na noite do desfile.

Janeiro – O silêncio da Sapucaí sem ensaios técnicos

Criados no início dos anos 2000 os ensaios técnicos se transformaram na verdadeira meca para os amantes do carnaval. Totalmente gratuitos foram o grande case de sucesso da Liesa nos últimos anos. Avenida entupida nos ensaios das grandes escolas. Mas em 2018 o palco sagrado dos desfiles ficou melancolicamente mudo em janeiro. Anunciado ainda em 2017 o cancelamento dos ensaios após 15 anos se deu devido à falta de verba. Nenhuma empresa se interessou em patrocinar. Alguns sambistas nutriam uma última esperança, que acabou sendo frustrada. Apenas o teste de som e luz com Portela e Mocidade aconteceu uma semana antes dos desfiles.

Fevereiro – Beija-Flor campeã. Tuiuti aclamada. Viradouro de volta

Um dos desfiles mais incertos dos últimos anos acabou se revelando. A Beija-Flor botou o dedo na ferida, expôs as mazelas do país de forma explícita. Chocou, emocionou, ganhou seu 14º título do Grupo Especial. Mas nada se compara à apresentação do Tuiuti. Histórica, a comissão de frente levou todo mundo à lágrimas. A crítica ao presidente Michel Temer no final do desfile catapultou a escola nas redes sociais. Virou assunto mais comentado no Twitter. Partidos e páginas alinhadas à esquerda abraçaram a escola e transmitiram ao vivo a concentração no desfile das campeãs.

Na Série A deu a lógica. A Unidos do Viradouro, já colhendo os frutos da gestão de Marcelo Calil, impôs sua superioridade na avenida e subiu sem dificuldades. Mesmo assim integrantes da Unidos de Padre Miguel reclamaram. Novamente um grande desfile ficou no quase. Foi o terceiro vice-campeonato em cinco carnavais.

Em São Paulo, a festa foi do Tatuapé. A escola levou o bicampeonato consecutivo.

O mês terminou com a saída de Laíla da Beija-Flor após 23 carnavais.

Março – Sem rebaixamento pelo segundo ano seguido

No último dia de fevereiro a Liesa decidiu não rebaixar ninguém, contrariando o que estava previsto no regulamento pelo segundo ano seguido. Mais um abalo na credibilidade do carnaval. Depois de um desfile onde seu último carro quebrou e não desfilou, a Grande Rio acabou rebaixada junto com o Império Serrano. A plenária que salvou as duas escolas terminou com uma célebre frase de um dos presidente de honra da Grande Rio, Helinho, que soltou a pérola: “Quem tem padrinho não morre pagão”. Soberana, a plenária da Liesa se meteu no resultado da pista pela terceira vez em dois anos.

Abril – Site CARNAVALESCO interrompe suas atividades

No palco da festa de premiação do Estrela do Carnaval, na quadra do Salgueiro, o editor executivo do veículo, Alberto João, anunciou que o site CARNAVALESCO interromperia suas atividades por tempo indeterminado. Foram seis meses sem a cobertura referência do site. Em editorial alertamos para os rumos do carnaval e evidenciamos que a falta de apoio pode significar o fim dos veículos especializados.

Ainda em abril, o mundo do samba e de toda música popular brasileira perdeu Dona Ivone Lara.

Maio – Déo Pessoa renuncia na Lierj. Salgueiro inicia seu calvário jurídico

No quinto mês de 2018, o presidente da Lierj, Déo Pessoa, jogou a toalha. Sem reconhecimento, sem apoio e com escolas da Série A despejadas de seus barracões, o então presidente da entidade que organiza os desfiles do Acesso renunciou ao cargo. Imediatamente, o vice-presidente, Renato Thor, assumiu as funções de presidente.

Regina Celi foi eleita com tranquilidade na eleição do Salgueiro para mais quatro anos de mandato. Entretanto, a chapa da oposição, derrotada no pleito, acionou a Justiça para questionar a elegibilidade de Regina. Segundo o estatuto salgueirense este seria o terceiro mandato de Regina, o que é vedado pelo documento. A batalha jurídica se arrastou por todo o ano, até que no dia 16 de dezembro André Vaz foi eleito o novo presidente do Salgueiro.

Junho – Dança das cadeiras fechada. Salgueiro perde espinha dorsal. Viradouro contrata Paulo Barros

A dança das cadeiras iniciada logo após o carnaval começou quente. Paulo Barros retornou à Viradouro depois de dez anos. O Salgueiro, envolvido na disputa pelo comando da escola, perdeu o coreógrafo Hélio Bejani e dispensou o casal Sidclei e Marcella. A direção de carnaval também mudou. Na Mangueira, contratações de peso: chegaram Marquinhos Art’Samba e os coreógrafos Rodrigo Negri e Priscilla Motta. Na Tijuca, Wantuir retornou ao posto de intérprete oficial, ocupando a vaga deixada por Tinga, que voltara à Vila Isabel.

Julho – Sorteio bom para Mocidade e Mangueira e ruim para Salgueiro e Beija-Flor

No dia 17 de julho, logo após o término da Copa do Mundo, a Liesa realizou o sorteio dos desfile do Carnaval 2019. A fórmula do sorteio mudou, sem os pares instituídos nos últimos anos. A Viradouro, campeã da Série A, não abriria o domingo, posição que ficou com o Império Serrano. A vermelha e branca ficou com a segunda posição, seguida da Grande Rio. Como foi a 11ª colocada, a São Clemente abrirá a segunda.

Das dez agremiações restantes duas saíram sorrindo do sorteio. A Mangueira seria a sexta a desfilar e a Mocidade volta a fechar um carnaval. Por outro lado, a atual campeã Beija-Flor e o Salgueiro desfilam no domingo. A azul e branca nunca conseguiu ser campeã desfilando na primeira noite de apresentações do Grupo Especial.

O mundo do samba perdeu dois astros em julho. Mestre Paulão, que comandou a bateria da União da Ilha, e o lendário intérprete Sobrinho.

Agosto – Emoção na Mocidade na volta da quadra histórica. Incêndio na Beija-Flor assusta sambistas

Uma das primeiras a iniciar sua disputa de sambas no Grupo Especial, a Mocidade realizou todo o seu concurso na sua antiga quadra localizada na Vila Vintém. O espaço, deteriorado por anos desde a mudança para a nova quadra da Avenida Brasil, foi totalmente revitalizado e a reinauguração contou com uma grande festa, que emocionou integrantes de hoje e ontem da Estrela Guia de Padre Miguel. Os domingos na quadra foram um enorme sucesso, sempre com a presença de uma escola convidada.

Também no oitavo mês do ano a campeã do carnaval passou por um grande susto. Um incêndio no barracão da Beija-Flor assustou trabalhadores da Cidade do Samba, na Zona Portuária do Rio. O fogo foi controlado, inicialmente, com a ajuda de funcionários da Mocidade, da São Clemente e da Mangueira, que precisaram recorrer a um hidrante do complexo carnavalesco da Gamboa, no Rio, para acabar com as chamas. O Corpo de Bombeiros foi acionado e chegou ao local por volta das 18h50.

Setembro – Finais da Série A e volta do CARNAVALESCO

No primeiro dia do mês de setembro o mundo do samba recebeu uma grande notícia. No dia de seus 11 anos de fundação, o site CARNAVALESCO anunciava o retorno de suas atividades depois de seis meses inativo. Uma grande festa que contou com a presença das pessoas mais importantes do carnaval celebrou o regresso do veículo.

Durante o mês de setembro todas as agremiações da Série A definiram seus sambas para 2019, sejam em disputas ou encomendas. Algumas escolas do Especial também realizaram escolhas e apresentações, casos de Mocidade, Viradouro e Grande Rio. No início do mês o incêndio do Museu Nacional casou perplexidade e comoção a integrantes da Imperatriz Leopoldinense, afinal, a agremiação homenageou o Museu no seu desfile de 2018.

Outubro – Finais de tirar o fôlego no Grupo Especial

Apesar de algumas agremiações realizarem escolhas de samba já no mês de setembro, a tradição de finais de samba do Grupo Especial foi mantida em outubro. Sete escolas fizeram suas escolhas no décimo mês do ano. Algumas em finais marcantes, como a Mangueira que entupiu sua quadra em uma final antológica, opondo duas grandes obras em um anúncio de fazer qualquer mangueirense chorar. A Portela foi outra que escolheu um samba que arrebatou a quadra, já por volta das 07h da manhã do dia seguinte à grande final. Contra tudo e contra todos o carnaval se aproxima.

Ainda em outubro um novo impasse entre a Liesa e o poder público ameaçava a realização do carnaval. O contrato de concessão do Sambódromo entre a Liga e a Riotur venceu e impediu a comercialização de frisas e camarotes, que costuma acontecer no mês. Apenas em novembro houve a assinatura do contrato e as vendas começaram. O mês foi de duas grandes perdas para os sambistas: Casquinha, da Portela, e Jorjão, da Mocidade, deixaram os corações mais vazios daqueles que amam carnaval.

Novembro – Presidente da Mangueira é preso e faz Uber retirar apoio

No dia 08 uma bomba caiu no mundo do carnaval. O presidente Chiquinho da Mangueira foi preso por policiais federais, na Operação ‘Furna da Onça’, no Rio de Janeiro. O deputado do PSC é acusado de participar do esquema de compra de votos com dinheiro de propina na Alerj. Chiquinho era corregedor parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

A prisão abalou as estruturas da folia e causou um prejuízo financeiro à todas as escolas. A Uber, que foi parceira no desfile de 2018, e acenava com a renovação do patrocínio para o ano que vem, recuou e alegou que o motivo teria sido a prisão do político e presidente mangueirense. A Riotur afirmou que iria acionar a empresa judicialmente por rompimento de contrato.

Dezembro – Crise atinge o ápice e Salgueiro inicia nova era

A crise atingiu o ápice no último mês de 2018. Sem qualquer definição de quando o repasse da prefeitura para as escolas sairia, a Mocidade foi a primeira a anunciar a paralisação de suas atividades. Mangueira e São Clemente também pararam seus ensaios. A Beija-Flor e a Vila Isabel posteriormente também aderiram à uma paralisação parcial. Sem o apoio público, a Liesb também cancelou a festa do CD da entidade.

Depois de uma intensa briga judicial que se arrastou por todo o ano, finalmente, em 16 de dezembro o Salgueiro elegeu seu novo presidente. André Vaz, da Chapa 2, derrotado no pleito de maio foi eleito para o comando da Academia do Samba para o quadriênio 2018-2022.

O último do mês do ano ainda traria uma outra notícia ruim para o carnaval. Programada para acontecer na Cidade do Samba, a semifinal do concurso de Rainha e Rei Momo teve que ser adiada em cima da hora. O evento não tinha a autorização do Corpo de Bombeiros. O Carnaval de 2019 abrirá o mês de janeiro sem a definição da corte momesca.

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