Após os intensos três primeiros meses de 2020, o mundo se viu abalado com a informação de que um vírus de contágio muito rápido causava a morte em questão de dias, principalmente de pessoas acima de 60 anos e com problemas crônicos de saúde, como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos e outras comorbidades. A única solução era manter isolamento social e usar máscaras com higienização constante. A notícia abalou o planeta e não foi diferente com o mundo do carnaval.

Na terceira reportagem da série ‘Retrospectiva 2020’ relembramos os meses de abril, maio e junho. Assim que a Covid-19 se alastrou pelo mundo as escolas de samba interromperam suas atividades. Enquanto os mortos e contaminados progrediam geometricamente os sambistas tentaram criar soluções de enfrentamento à crise econômica que batia a porta: projetos sociais e lives tentavam socorrer os mais necessitados. O medo se alastrava mais rápido que o novo coronavírus.

Abril – Covid-19 devasta escolas de samba e sambistas reagem com solidariedade

No início de abril o mundo estava sentindo os primeiros efeitos da pandemia de Covid-19. A recomendação da OMS era clara: isolamento social absoluto, o que representava a paralisação total de atividades nas escolas de samba. No Brasil os contaminados se empilhavam dia após dia. As mortes começaram a se alastrar dentro das escolas de samba. A Mocidade contabilizou três perdas apenas em abril. Portela, Mangueira, Grande Rio, Porto da Pedra e Salgueiro foram outras agremiações que perderam integrantes para o novo Coronavírus. O coreógrafo Carlinhos de Jesus foi o sambista mais conhecido e lutar contra a doença e a conseguir vencê-la.

‘Madeira de dar em doido’ os sambistas não tinham tempo para chorar. Era enxugar as lágrimas causadas pelas perdas e buscarem alternativas para evitar que aqueles que estivessem vivos não morressem também, mas de fome. Neste sentido o primeiro projeto social de reação à Covid-19 foi o Ritmo Solidário. A arrecadação de donativos e insumos de primeira necessidade seriam doados aos ritmistas que não poderiam realizar mais shows nessa época do ano. Além disso as escolas de samba usaram a própria estrutura nos barracões na produção de equipamentos de proteção individual (EPI’s) para os profissionais da área de saúde na linha de frente do enfrentamento à pandemia.

Além das sentidas perdas para a Covid-19, personalidades do samba partiram em abril por outros motivos. Casos de Tantinho da Mangueira, Seu Zacarias Siqueira e Rico Medeiros. No fim do mês o barracão da Viradouro pegou fogo causando enorme prejuízo para a campeã do carnaval.

Maio – Lives explodem pelo Brasil e pela primeira vez fala-se em não realização do Carnaval 2021

O segmento mais atingido pelas restrições impostas pela pandemia de Covid-19 foi sem dúvida o de eventos. Shows, bares e similares ficaram impedidos de trabalhar em virtude dos riscos que as aglomerações traziam. Os maiores artistas do Brasil então passaram a realizar lives que explodiram de audiência nos mais variados ritmos musicais. As escolas de samba perceberam o nicho de mercado e também realizaram lives históricas que deram um alento aos sambistas em um cenário de tanta tristeza.

A primeira escola a produzir uma live foi o Salgueiro. Em quase 6 horas no ar foram mais de 130 mil visualizações. O pioneirismo motivou outras produções. A Beija-Flor liderou uma live com mais seis escolas do Grupo Especial. A Viradouro também realizou a sua para a divulgação de seu enredo. A Liga SP foi outra que fez uma live. Ao fim do mês o Império Serrano produziu a primeira de uma série de lives com produção profissional. Nos meses seguintes escolas como Portela e Mangueira também prepararam lives.

Mas nem só de mortes e notícias ruins viveu o carnaval em 2020. Diversos sambistas foram atingidos pela Covid-19 e conseguiram derrotá-la. Os casos mais emblemáticos foram do carnavalesco da Unidos da Ponte, Rodrigo Marques, que passou 15 dias internado e venceu a doença, e do diretor de carnaval da Mocidade, Marquinho Marino. O dirigente chegou a estar na UTI, mas também conseguiu derrotar o coronavírus.

Com o crescente cenário de incertezas começava a cair a ficha: a vacina era uma realidade distante ainda e o carnaval de 2021 estava ameaçado. Os primeiros a tocarem no tema foram o prefeito de Salvador e o governador da Bahia, praticamente descartando a realização da festa por lá em fevereiro. O tradicional carnaval de Notting Hill, em Londres, que se realizaria em agosto também foi cancelado. A Banda de Ipanema foi o primeiro mega-bloco do Rio a descartar desfilar no carnaval. Escolas de samba e a Liesa ainda resistiam em tomar uma decisão.

O Império Serrano realizou eleições em maio e aclamou Sandro Avelar presidente da agremiação. A escola, que fez um melancólico desfile em 2020 desonrando sua história, montou uma forte equipe para voltar ao Especial. Foram contratados nomes como Leandro Vieira, Nêgo, Igor Viana e Patrick Carvalho.

Junho – A morte de Luizinho Drumond e os protestos contra o racismo pelo mundo

Em 27 de maio de 2020 um homem negro foi assassinado nos EUA pela polícia. A morte de George Floyd iniciou uma série de protestos iniciados pelos americanos e que rapidamente se alastraram por todo o mundo. No Brasil houve reações da sociedade civil e de personalidades negras. A campanha “#blacklivesmatter (vidas negras importam)” ganhou as redes sociais. O mundo do carnaval se posicionou com veemência e as escolas de samba não se calaram. A cantora Alcione foi desrespeitada pelo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e foi defendida pelos sambistas. O site CARNAVALESCO produziu uma grande reportagem sobre lugar de fala dos negros no caso do racismo e uma live apenas com colaboradores negros.

Aproveitando o clima de anti-racismo que dominava as discussões pelo mundo a Beija-Flor e a Grande Rio divulgaram seus enredos com temática negra. No fim do mês os presidentes do Grupo Especial planejavam a primeira plenária para discutir o Carnaval 2021. Ela entretanto não foi realizada em virtude da morte de Luiz Pacheco Drumond, grande benemérito e sócio-fundador da Liesa. Luizinho comandou a Imperatriz Leopoldinense em todos os campeonatos de sua história. Sua morte causou reações em todo o mundo do carnaval.

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