Campeã pela última vez em 2018, a Beija-Flor irá pelo menos igualar seu maior jejum de títulos neste século, quatro anos entre as conquistas de 2011 e 2015. É claro que é preciso levar em consideração que são apenas dois carnavais sem ganhar, pois em 2021 não houve o desfile. Ainda assim, é fácil imaginar o tamanho da fome que a comunidade nilopolitana está de gritar ‘é campeã’ no carnaval.

Para tentar seu décimo quinto título, a Beija-Flor apostará em um enredo que tem não só a sua cara, mas que fala muito da sua gente e da sua comunidade. “Empretecer o Pensamento É Ouvir a Voz da Beija-Flor” pretende trazer para a Sapucaí toda a contribuição intelectual do negro para a construção de um Brasil mais africano. Segundo a própria sinopse, “empretecer” o pensamento é dar a toda a humanidade a oportunidade de uma visão diferente e original, como novos caminhos para o futuro, estabelecendo outras rotas possíveis.

Foto: Leandro Ribeiro/Divulgação TV Globo

O enredo está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Alexandre Louzada. Em 2022, a Beija-Flor vai encerrar os desfiles de domingo. O samba de autoria de J. Velloso, Léo do Piso, Beto Nega, Júlio Assis, Manolo e Diogo Rosa também pretende valorizar o lugar de fala tão importante do negro e da Beija-Flor, muitas vezes ignorado em uma sociedade ainda racista, mas sempre oportunizado e destacado na Marquês de Sapucaí e no mundo do carnaval.

O site CARNAVALESCO dando continuidade à série de reportagens “Samba Didático” entrevistou o compositor Júlio Assis para saber um pouco mais sobre os significados e as representações por trás dos versos e expressões presentes no samba da Beija-Flor para o carnaval de 2022. Júlio Assis explica o olhar sobre o enredo que a composição vencedora tomou para dar o seu recado.

“O fio condutor do nosso samba é a própria história do negro, do preto na humanidade. A gente buscou o ponto de vista do que ele construiu, do que ele fez, qual foi a contribuição que ele deu para a nossa existência, para a existência da civilização como ela é hoje. Esse é o principal fio condutor do nosso samba”, esclarece Júlio.

Confira a explicação de alguns versos e expressões do samba:

MOCAMBO DE CRIOULO: SOU EU! SOU EU! / TENHO A RAÇA QUE A MORDAÇA NÃO CALOU / ERGUI O MEU CASTELO DOS PILARES DE CABANA / DINASTIA BEIJA FLOR!

“A gente usou o termo ‘mocambo de crioulo” porque a gente sempre vê na maioria dos sambas a senzala, o quilombo. A gente usou o ‘mocambo de crioulo’ que é bem diferente, é o nosso quilombo, mocambo é a nossa quadra, a nossa casa, é a pequena África. Eu falei em algumas lives sobre a pequena África, eu considero, assim, Nilópolis uma pequena África. No mesmo refrão, a gente fala que o povo, o nosso povo de Nilópolis que tem o poder da fala naquele momento do Carnaval, esse povo tem ‘a raça que a mordaça não calou’, ou seja, no Carnaval, ninguém nunca vai calar a gente, a gente sempre vai tomar a frente, a gente sempre vai se impor. E logo em seguida, a gente fala do nosso principal representante negro dentro da história da escola, dentro da história cultural do Brasil, inclusive, que é o Cabana, um dos fundadores da nossa agremiação e o nosso maior guru”.

“TRAZ DE VOLTA O QUE A HISTÓRIA ESCONDEU”

“O samba começa na pequena África, a gente diz que essa nobreza vem da África. E, a gente, faz um trocadilho com a nossa escola, a gente está falando que todos os negros da nossa escola são considerados nobres para gente. A gente pensa que com esse samba, com a nossa fala e com essa mensagem a gente vai trazer tudo à tona e vai mudar o pensamento. Aí, saiu um pouquinho do título do enredo de ‘empretecer’. É mudar a forma de pensamento do negro do que ele construiu. E aí, a gente pede a igualdade, ou seja, a gente pede que as pessoas deem ouvido, que as pessoas ‘empreteçam’ o pensamento e informa logo no início do samba que a gente vai trazer tudo que ‘a história escondeu’, a gente vai buscar enfatizar nessa letra de samba”.

“FOI-SE AO AÇOITE, A CHIBATA SUCUMBIU”

“Nesse trecho queremos dizer que mesmo com o fim de todo o sofrimento que tivemos com a escravatura, mesmo com tudo que foi construído pelo negro para a humanidade, isso não é reconhecido, ainda existe uma luta muito grande para reconhecer tudo que foi feito pelos negros na humanidade seja reconhecido”.

VERSOS PARA CRUZ, CONCEIÇÃO NO ALTAR /CANINDÉ JESUS, Ô CLARA!! / NOSSA GENTE PRETA TEM FEITIÇO NA PALAVRA / DO BRASIL ACORRENTADO, AO BRASIL QUE ESCRAVIZAVA

“Nesse trecho a gente citou alguns ícones negros da nossa humanidade. Estavam todos escondidos na nossa sinopse, eu reparei na disputa que foi a única que conseguiu decifrar os enigmas da sinopse. O que realmente a escola queria. A gente conseguiu detectar todos esses que a gente citou no refrão do meio. Cruz e Souza, Conceição Evaristo, Maria Carolina de Jesus, Machado de Assis, Clara dos Anjos, e no final a gente fala do Brasil acorrentado (o Brasil de antigamente, os negros escravizados)”.

“MEU PAI OGUM AO LADO DE XANGÔ /A ESPADA E A LEI POR ONDE A FÉ LUZIU / SOB A TRADIÇÃO NAGÔ / O GRÊMIO DO GUETO RESISTIU”

“Logo nesse trecho aí da segunda estrofe, a gente vem enfatizando toda a ancestralidade que o negro por sua própria natureza, ele já tem. E, sobre a ‘tradição nagô’, sobre toda a história que o negro tem na humanidade, aquele Grêmio Recreativo Escola de Samba lá do gueto, lá de Nilópolis, ele resistiu, ele resiste até hoje e vai continuar resistindo eternamente, que é uma característica nossa”.

“CADA CORPO UM ORIXÁ! CADA PELE UM ATABAQUE”

“Esse trecho mostra que unidos, a gente consegue muita coisa. A gente, não só os negros, mas a humanidade no total precisa estar unida para conseguir algumas coisas. E, em especial nesse samba, nesse enredo, em especial ao personagem principal da obra que são os negros, a gente cita que cada negro dessa falange que vai em busca do conhecimento, cada um está com seu orixá, com seu atabaque, com sua fé”.

“CANTA BEIJA FLOR! MEU LUGAR DE FALA/
CHEGA DE ACEITAR O ARGUMENTO”

“A Beija Flor é uma escola que sempre se impôs no sentido de transmitir para o mundo, já que nós estamos falando de uma festa que é assistida por todo o planeta, e a Beija Flor ela toma sempre esse lugar de se impor nos temas que são latentes na humanidade. Nesse trecho eu digo que a nossa escola, o nosso quilombo, a nossa casa, que é tanto a nossa quadra, o nosso mocambo, tanto a Marquês de Sapucaí, elas são os nossos lugares de fala, os lugares onde a gente vai colocar para fora e se impor, e a gente não vai mais aceitar o argumento contrário disso, já chegou a hora do reconhecimento chegar”.

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