Por Victor Amâncio

“Foi na roça da Goméia, aos pés de uma gameleira, que João da Pedra Preta firmou o seu Candomblé”. Com o enredo “Tata Londirá: O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias”, o carnaval da Grande Rio em 2020 promete emocionar a Sapucaí apresentando uma das figuras mais folclóricas do Brasil, o rei do Candomblé, Joãozinho da Goméia. Tendo a tolerância religiosa como mensagem e um dos caminhos do enredo, a dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora vai contar a história desse personagem tão relevante para o Candomblé e levarão uma mensagem de paz e esperança para um país que sofre com a intolerância. O samba que passará na Sapucaí é uma obra dos compositores Derê, Robson Moratelli, Rafael Ribeiro e Toni Vietnã.

O site CARNAVALESCO dando continuidade à série de reportagens “Samba Didático” entrevistou o carnavalesco Gabriel Haddad e o compositor Rafael Ribeiro para saber mais sobre os significados e as representações por trás dos versos e expressões presentes no samba da tricolor de Caxias para o carnaval de 2020. Confira abaixo a análise feita pelos entrevistados dos versos e trechos do samba:

É Pedra Preta! / Quem risca ponto nesta casa de caboclo
Chama Flecheiro, Lírio e Arranca-Toco / Seu “Serra Negra” na Jurema, Juremá

“É Pedra Preta um dos patronos da casa de Joãozinho da Goméia, ele é quem abre os trabalhos e chama a falange de Caboclos para o Candomblé. ”, explica Rafael. “Pedra Preta é o caboclo de Joãozinho da Goméia, sendo o patrono do terreiro, e nesse início do samba chama a Falange dos Caboclos para a gira. Jurema, além de ser uma cabocla é uma erva usada no rito da Jurema Sagrada no candomblé de caboclo, que Joãozinho trouxe de Salvador para o Rio de Janeiro. ”, defende Haddad.

Pedra Preta! / O assentamento fica ao pé do dendezeiro
Na capa de Exu, caminho inteiro / Em cada encruzilhada um alguidar

“A abertura das giras de candomblé é feita para Exu, o samba inicia com a benção dos Cablocos e da Exu para abençoar os caminhos da escola, assim como abençoou o caminho de Joãozinho. Da Goméia foi um grande andarilho, e por esses caminhos, a vida dele foi composta por diversas encruzilhadas. Dendezeiro é uma árvore sagrada para o povo de axé, onde também são colocadas as oferendas para esses caboclos. ”, explica o carnavalesco. “O Dendezeiro, árvore tão significativa para o rito do Candomblé, estava ali na roça da Goméia guardando os assentamentos sagrados dos orixás. Neste momento é Exu quem abre os caminhos para contarmos o histórico tão mágico, genial e o controverso destino de João. ”, completa o compositor.

Era homem, era bicho flor / Bicho homem pena de pavão
A visão que parecia dor / Avisando salvador, João!

“Esse trecho mostra a ambiguidade do pai de santo, que podia ser homem, bicho, flor. Dando dimensão da figura múltipla que poderia ser. O trecho representa as visões que da Goméia tinha durante a juventude, as quais ele não sabia identificar e acreditava ser uma mistura de pássaro e homem. O pavão é o pássaro que representa o orixá Oxóssi, e no samba remete a ele. E a dor citada no samba seria o prenúncio que, o ainda jovem, João teria que fazer o santo, a iniciação no candomblé. A dor que ele sentia, e o medo se transformam no caminho dele para Salvador. ”, reitera Gabriel. Declarando ser um dos seus trechos favoritos no samba, Rafael Ribeiro disserta: “O menino João era frequentemente visitado nas noites por um clarão, um vulto, uma visão: Era homem? Era bicho? Eram vozes dos devaneios indicando o desenredo entre asas e penas.  Foram estas aparições, quase uma dor, que indicaram ao menino o tempo de seguir em frente.

No Camutuê Jubiabá / Lá na roça a gameleira
“Da Gomeia” dava o que falar / Na curimba feiticeira

“Faz referência a Salvador, quando João chega na adolescência levado pela madrinha ao terreiro de Jubiabá. Camatuê é a cabeça do filho e santo e Jubiabá foi o pai de santo que iniciou Joãozinho na religião. Gameleira é a árvore sagrada do candomblé de Angola associada ao Orixá Tempo. Os dois últimos versos lembram o terreiro de Joãozinho que fez sucesso, dando o que falar, atraindo artistas e pessoas com relevância, como Dorival Caymmi e Jorge Amado. ”, explica Haddad. Na capital do estado da Bahia coube ao velho pai de santo, Jubiabá, raspar a cabeça do moço e foi preciso sabedoria e cuidado com um Camutuê tão coroado, que iria dar muito que falar na giras e mandingas feiticeiras.

Okê! Okê Oxóssi é caçador / Okê! Arô! Odé!
Na paz de zambi, ele é mutalambo! / O alaketo, guardião do agueré

O refrão do meio do samba é dedicado ao orixá de cabeça do homenageado, Oxóssi, e lembra a linha da falange de caboclo. Zambi e Mutalambo, o criador e o deus da caça, respectivamente, no rito de Angola.  O Alaketo é o título dado ao rei de Ketu, Oxóssi, e agueré o ritmo sagrado, o som que o orixá dança. O refrão é mestiço e mostra as duas faces de João, que transitava tanto em Ketu e Angola.

É isso, dendê e catiço / O rito mestiço que sai da Bahia / E leva meu pai
mandingueiro / Baixar no terreiro Quilombo Caxias

“Chegada de João em Caxias, quando João traz o axé e seus fundamentos na bagagem e firma seu terreiro na baixada. Catiço remete a Exu por novamente mexer com os caminhos do Babalorixá. Quilombo no sentido de ser espaço de acolhimento de todas as manifestações culturais da Baixada Fluminense”,declara Haddad. “Perseguido por suas crenças, o já afamado João da Goméia, sai de Salvador, na Bahia, e chega ao Estado do Rio de Janeiro, mais precisamente em Duque de Caxias para descer no terreiro do Quilombo de Caxias com seus Caboclos, Orixás, Dendê e Catiço. ”, completa Rafael.

Malandro, vedete, herói, faraó / Um Saravá pra folia

“O carnaval é peça fundamental para compreender Joãozinho, que foi um apaixonado pela folia carioca e vivenciou com afinco. Participou de bailes de concursos de fantasias, no Teatro Municipal, e dos bailes do João Caetano, que eram bailes de transformismo, os bailes gays, onde o pai de santo apareceu vestido de vedete. Nos desfiles das escolas de samba, João, foi destaque de luxo do Império da Tijuca, Império Serrano e Imperatriz Leopoldinense, interpretando personagens centrais. No Império Serrano, no enredo Heróis da Liberdade, ele interpreta Gangazumba; no Império da Tijuca, ele vem de Omulu, um dos primeiros orixás a desfilar; Na Imperatriz, Chico Rei, Dom João VI. Nos bailes do Municipal vestia figurinos inspirados em realezas míticas, ele foi Vulcano, Netuno, e realezas egípcias. ”, explica o carnavalesco.

Bailam os seus pés / E pelo ar o bejoim
Giram presidentes, penitentes, yabás
Curva se a rainha / E os ogans batuqueiros pedem paz

Saímos da rua, do espaço carnavalesco e vamos para os palcos. João, bailarino exímio, cria com suas filhas de santo um grupo de balé afro e com esse grupo ele vai se apresentando nos palcos da cidade do Rio e do Brasil, se apresentou no Cassino da Urca, no Copacabana Palace. “E pelo ar o bejoim” faz referência a junção da dança com os espaços africanos. Bejoim é uma erva africana, e o seu aroma, poeticamente conduzido pelo samba, atraiu pessoas de relevância social, como os presidentes, as rainhas do rádio e até mesmo a rainha da Inglaterra, ainda princesa na época.

Salve o candomblé, Eparrei Oyá / Grande Rio é Tatalondirá
Pelo amor de Deus, pelo amor que há na fé / Eu respeito seu amém
Você respeita meu axé

“É uma grande saudação, uma celebração do candomblé e das religiões de matrizes africanas. O refrão cita e faz uma saudação a Iansã, que vai ocupando a cabeça de Joãozinho da Goméia no final de sua vida, mesmo não sendo a orixá da raspagem, acaba sendo a sua segunda orixá de cabeça. Tatalondirá, que é o título do enredo, é o nome dele no candomblé. O samba encerra com esse grande pedido de respeito, igualdade, valorização da fé e da cultura popular. ”, concluiu Gabriel Haddad. “Eparrei! Senhora dos ventos! Vivemos um momento difícil, onde atos de intolerância não são a exceção da regra, onde o noticiário demonstra, principalmente em Duque de Caxias, através de progressivos e descabidos ataques a fé e ao patrimônio cultural do Candomblé, dia a dia, o quanto precisamos defender e aceitar o credo do próximo como se fosse a nossa própria fé. Pois os caminhos que levam a Deus podem ser diversos, mas o objetivo é um é o mesmo. Eparrei, Oyá! Salve o Candomblé! Nesta festa de atabaques e folhas, festa de negras vitórias onde ecoam o canto do Caboclo Pedra Preta, a Grande Rio é Tatá Londirá, que significa o nome de Joãozinho no Candomblé de Angola, Tatá significa pai. ”, encerra Rafael Ribeiro.

Grande Rio 2020
Nona colocada no carnaval de 2019, o Acadêmicos do Grande Rio vai em busca, em 2020, do seu primeiro título no Grupo Especial, com o enredo “Tata Londirá: O Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias”, dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. A tricolor de Caxias desfila no domingo de carnaval e será a quinta escola a desfilar pela Marquês de Sapucaí, dia 23 de fevereiro.

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