Em 2020, a Grande Rio bateu na trave, a escola obteve a mesma pontuação que a campeã Viradouro e perdeu no desempate pelo quesito evolução. Ainda mais sedenta por conquistar o título inédito, a agremiação de Duque de Caxias vai apostar mais uma vez em um enredo cultural com forte temática religiosa, pregando mais uma vez a mensagem sobre a tolerância religiosa e principalmente o respeito às religiões de matriz africana.

O enredo “Fala Majeté! Sete Chaves de Exu” assinado pela dupla de carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora vai levar para a Marquês de Sapucaí histórias e manifestações culturais ligadas a simbologia dessa entidade tão complexa, múltipla e presente no universo das escolas de samba. A Grande Rio será a quinta escola a desfilar na segunda-feira, curiosamente, no dia da semana dedicado a Exu.

Na leitura dos carnavalescos, o enredo vai tratar de coisas muito próximas à vida cotidiana como a rua, a feira, o carnaval, o lixo se desdobrando em sete chaves de interpretação que abrem infinitas outras portas: “Exu princípio de tudo[…]; Exu que se faz caboclo, poeira, na cruza, em brasa, chão de terreiro[…];Exu de proezas tantas, pelejas,orikis[…];Exu Caveira, Capa Preta[…]; Exu potência e gingado[…];Exu de tinta e de sangue[…];Exu que não é o diabo do teatro colônia[…]Todo lugar tem uma rainha, lá no lixo também tem…”, como é citado na sinopse.

Foto: Leandro Ribeiro/Divulgação TV Globo

O samba, um dos mais elogiados da safra de 2022, é de autoria de Gustavo Clarão, Arlindinho Cruz, Jr. Fragga, Claudio Mattos, Thiago Meiners e Igor Leal. O compositor Claudio Mattos conta que a obra buscou seguir à risca a divisão do enredo realizada pelos carnavalescos com as Sete Chaves de Exú.

“O resumo do enredo é que você pode enxergar Exu em todas as coisas. Exu não está em uma única coisa. Exu é energia, é movimento, é a mensagem. É a voz das ruas. Ele está em tudo. Então, o enredo são sete momentos em que você consegue enxergar o Exu, são sete chaves. Então não bastava a gente fazer um samba com uma única mensagem. Acho que os carnavalescos querem mostrar isso, um Exu complexo, um Exu que está em tudo”, explicou o compositor.

O site CARNAVALESCO dá continuidade à série de reportagens “Samba Didático” pedindo ao compositor Claudio Mattos para esclarecer um pouco mais dos significados e das representações por trás de alguns versos e expressões presentes no samba da Grande Rio para o carnaval de 2022:

“BOA NOITE, MOÇA; BOA NOITE, MOÇO…/AQUI NA TERRA É O NOSSO TEMPLO DE FÉ/“FALA, MAJETÉ!”

“O começo do samba é o Exu baixando na Terra, ele está chegando para o desfile cumprimentando todo mundo. Mas se você olhar no final “eu levo fé nesse povo que diz…” já dá uma outra conotação , o que mostra que o tempo do Exu é cíclico. Ele não tem início, meio e fim. O tempo se renova”.

“FAÍSCA DA CABAÇA DE IGBÁ/NA GIRA… BOMBOGIRA, ALUVAIÁ!/NUM MAR DE DENDÊ… CABOCLO, ANDARILHO, MENSAGEIRO”

“Na visão do enredo, a primeira chave seria Calunga, como essa fé cruzou da África para o Brasil. E veio parar aqui, nesta terra, em que há uma grande ancestralidade, onde essa fé foi bastante desenvolvida, onde surgiu até a umbanda. Toda a energia que eles atravessaram esse mar é vista como um mar de dendê”.

“DAS MÃOS QUE RISCAM PEMBA NO TERREIRO/RENASCE PALMARES, ZUMBI AGBÁ!”

“Aí já entra na segunda chave porque os carnavalescos enxergam Exu como a energia de Zumbi de Palmares. Na luta, na força dele, você consegue enxergar Exu nas mensagens, nas histórias de Zumbi”.

“EXU! O IFÁ NAS ENTRELINHAS DOS ODUS/PRECEITOS, FUNDAMENTOS, OLOBÉ/PREPARA O PADÊ PRO MEU AXÉ”

“No terceiro setor, a gente fala um pouco do destino, dos Odus e termina entrando na parte da feira, onde as pessoas vão na feira para comprar as comidas para fazer as oferendas para Exu. A gente bota isso em modo “padê” que é a comida preparada para o Exu”.

“EXU CAVEIRA, SETE SAIAS, CATACUMBA/É NO TOQUE DA MACUMBA, SARAVÁ, ALAFIÁ!/SEU ZÉ, MALANDRO DA ENCRUZILHADA/PADILHA DA SAIA RODADA… Ê MOJUBÁ!/SOU CAPA PRETA, TIRIRI, SOU TRANCA RUA/AMEI O SOL, AMEI A LUA, MARABÔ, ALAFIÁ!/EU SOU DO CARTEADO E DA QUEBRADA/SOU DO FOGO E GARGALHADA… Ê MOJUBÁ!”

“É a parte que a gente consegue mostrar, acho, que a energia da melodia passa completamente a energia de Exu. É exatamente o que a gente queria. É a energia do movimento, de ele estar em tudo. A gente cita a parte dos Exus catiços, a gente cita diversas entidades. Acho que a energia da melodia desse samba é transcendental. Quando todo mundo espera que venha um bis a gente muda as entidades e muda a melodia, lembrando muito um ponto”.

“Ô LUAR, Ô LUAR… CATIÇO REINANDO NA SEGUNDA-FEIRA/Ô LUAR… DOBRA O SURDO DE TERCEIRA/PRA SAUDAR OS GUARDIÕES DA FAVELA/EU SOU DA LIRA E MEU BLOCO É SENTINELA

“Na segunda parte do samba, ainda fazendo a melodia em cima de pontos, a gente entra na parte das festas. Você consegue enxergar Exu nas festas. A gente começa com um ponto de Tranca Rua que já foi citado em samba da Grande Rio, o de 1993, “ô luar, ô luar”. A gente fala dos catiços reinando na segunda-feira que é o dia de Exu, fala do sete da lira com surdo de terceira, entra bem nesse sentido das festas”.

“LAROYÊ, LAROYÊ, LAROYÊ!/É POESIA NA ESCOLA E NO SERTÃO”

“A gente entra na melodia de um outro ponto que é o “Laroyê, laroyê, laroyê”. Aí, a gente entra mais na parte da arte mais escrita. Em que você pode enxergar Exu como Macunaíma, você pode enxergar Exu nas escolas em vários livros, um livro do Dimas por exemplo, em diversos personagens da literatura, em diversos poetas”.

“A VOZ DO POVO, PROFETA DAS RUAS/TANTAS ESTAMIRAS DESSE CHÃO”

“Aí já entra no sétimo setor que é a parte onde tem a sétima chave que fala sobre o Exu estar em tudo, estar nas pessoas, nas ruas, em cada morador de rua, em cada retalho, no farrapo, na Estamira que é uma moradora de rua, trabalhava no lixão de Gramacho. Está no Bispo do Rosário, está no “Olímpia”, em Stella, e é a energia que se passa principalmente de Maria Mulambo. Pode ser muito comparada com a dessas pessoas. E assim como todo lugar tem uma rainha lá no lixão também tem. A Estamira é o principal fio condutor deste enredo que até o título do enredo fala mais em cima de como ela se apresentava com as pessoas na Rua “Fala Majeté”. Exi é posto como um espelho da Estamira, que ela era de perto da quadra, lá de Caxias”.

“LAROYÊ, LAROYÊ, LAROYÊ!/AS SETE CHAVES VÊM ABRIR MEU CAMINHAR/À MEIA-NOITE OU NO SOL DO ALVORECER… PRA CONFIRMAR”

“A partir daí a gente solta um pouco das sete chaves e começa a preparar a finalização. A gente repete a melodia do ponto “Laroyê, laroyê, laroyê”. À meia noite ou no sol alvorecer é para confirmar o título para Caxias”.

“ADAKÊ EXU, EXU Ê ODARÁ!/Ê BARA Ô, ELEGBARÁ!/LÁ NA ENCRUZA, A ESPERANÇA ACENDEU/FIRMEI O PONTO, GRANDE RIO SOU EU!”

“Adakê Exu significa Rei Exu. Vem abrir os caminhos para um novo tempo, um tempo de título para Caxias. Um novo tempo para a humanidade depois dessa pandemia. Nada melhor do que Exu para abrir os caminhos de uma nova vida, de um novo carnaval após dois anos em que ficamos em casa, muita gente com dificuldade para arranjar emprego, para retomar a vida, e Exu é essa energia para retomar e abrir os caminhos”.

“ADAKÊ EXU, EXU Ê ODARÁ!/Ê BARA Ô, ELEGBARÁ!/LÁ NA ENCRUZA, ONDE A FLOR NASCEU RAIZ,/EU LEVO FÉ NESSE POVO QUE DIZ:

“Exu também é Grande Rio, Exu é o povo de Caxias, a Grande Rio é Exu na Avenida e é essa energia que a Grande Rio vai trazer. Lá no Bis tem a repetição que fala dessa flor que seria Exu abrindo caminhos para um novo tempo, onde não tem início, meio e fim e o samba começa de novo “Eu levo fé nesse povo que diz, Boa noite moça, boa noite moço”.

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