“Volta pro seu lugar” é um dos versos do samba da Imperatriz Leopoldinense para 2022. De volta ao Grupo Especial, a escola sabe da dificuldade de se manter na elite desfilando como primeira no domingo de carnaval, mas ainda assim sonha em um futuro próximo afirmar não só a sua presença no Grupo Especial, mas retornar ao seu protagonismo nos desfiles do grupo mais importante da folia carioca. Campeã pela última vez em 2001, a escola traz de volta sua última carnavalesca vitoriosa para falar de um enredo que é a própria história da Imperatriz.

Arlindo Rodrigues foi o carnavalesco que trouxe elementos da cenografia do Teatro Municipal, uso de espelhos nos carros alegóricos, etc… Suas contribuições vão além da Imperatriz, mas são fundamentais para a história da escola que conheceu seu primeiro campeonato justamente com Arlindo, responsável pelo desfile de 1980.

Para 2022, o samba, desenvolvido para o enredo “Meninos, Eu Vivi… Onde Canta o Sabiá, Onde Cantam Dalva e Lamartine”, é de autoria solo do compositor Gabriel Mello. Gabriel conta que o samba busca ressaltar esse casamento entre Imperatriz e Arlindo que foi tão feliz para o carnaval carioca.

“O Arlindo fala para essa juventude, para essa nova geração da Imperatriz Leopoldinense da história dele com a escola, com essa construção da Imperatriz que a gente conhece. É um samba que vem falar para a Imperatriz que vem falar sobre esse amor, sobre esse casamento carnavalesco maravilhoso, sobre essa caraterística, porque Imperatriz? Porque tão bela, porque tão necessária, porque tão alinhada, tão bem arrumada, romântica em seus enredos. Porque a renda, porque o luxo, porque a costura, porque ser Imperatriz, e não se curvar a outro estilo e não tentar ser aquilo que está fora de sua essência”, entende o compositor.

Foto: Leandro Ribeiro/Divulgação TV Globo

O site CARNAVALESCO dá continuidade à série de reportagens “Samba Didático” pedindo ao compositor Gabriel Mello para esclarecer um pouco mais dos significados e das representações por trás dos versos e expressões presentes no samba da Imperatriz Leopoldinense para o carnaval de 2022:

“EU AINDA ERA MENINO/À LUZ DE UM NOBRE DESTINO/O DOM DE TOCAR CORAÇÕES”

“O samba enredo parte dessa conversa do Arlindo com a Escola.Ele era um menino que começava a se descobrir pra vida chegando no teatro municipal descobrindo seu dom, porque Arlindo era auto de data, Arlindo não fez faculdade nem cursos. Arlindo tinha o dom natural de costurar, de criar, de desenhar”.

“E VOCÊ ERA MENINA, SUSPIRANDO POESIAS/ENTRE VERSOS E ESTAÇÕES/QUANDO A MÃO DO GRANDE PROFESSOR/NOSSO CAMINHO EM OURO ENFEITOU”

“É exatamente neste momento, final dos anos 50, em que Arlindo desabrocha para vida. Descobre sua vocação em que a Imperatriz também está sendo formada, em que ela está nascendo no subúrbio carioca, com seus primeiros sambas, com seus primeiros sambas de roda, com as primeiras reuniões daquela turma que fez a fundação da escola. Então, o destino dos dois se cruza pela primeira vez. Fernando Pamplona se torna amigo de Arlindo Rodrigues no teatro municipal e leva Arlindo para fazer as decorações de rua do carnaval. Arlindo e Fernando Pamplona são os responsáveis, curiosamente, pela decoração de rua do primeiro carnaval em que a Imperatriz tem um grande resultado. Depois, Arlindo, como jurado, vai colaborar para o primeiro campeonato da Imperatriz dos grupos de acesso”.

“FUI DA RIBALTA À AVENIDA/VOCÊ TÃO LINDA, FOI CENÁRIO DE AMOR (LÁ LÁ LÁ LÁ LAUÊ)”

“Ele vai do teatro para as folias carnavalescas e a Imperatriz começa a se desenhar como a escola dos sambas românticos. Como a Romântica do Subúrbio. Com seus enredos monárquicos e históricos, que vão ter como ápice o desfile de 1972 do Martin Cererê”.

“FIZ DA ORQUESTRA DA FOLIA/O MANEQUIM DAS FANTASIAS/QUE JOÃO NOUTRO TEMPO RASGOU”

“Ele chega ao carnaval carioca fazendo revolução, levando todo esse conhecimento que ele tinha de trabalhar com o guarda roupa e com a cenografia do Teatro Municipal para dentro das escolas de samba. Ele veste pela primeira vez a bateria com fantasia, transforma batuqueiros e passistas em manequins para desfilar as fantasias daquilo que a gente chama de protótipo e cria esse carnaval clássico, com essa estética clássica que hoje a gente chama de Barroco e tradicional. Ele é o pai do barroco no carnaval. Aí, João, que era assistente dele, cria dele dentro do barracão, é o seu filho pródigo, o filho rebelde. Eu faço essa menção no samba porque é neste momento, quando Arlindo está no Salgueiro, que João começa a se envolver com carnaval. E, depois, ele sucederia o próprio Arlindo no Salgueiro e se tornaria uma febre do carnaval moderno”.

“PEGA NA SAIA RENDADA! PRA VER O QUE EU VI/NO ESPELHO DA RAÇA ENCARNADA… XICA E ZUMBI! E DESCOBRIR /NOVOS BRASIS NA IDENTIDADE/CANTA SALGUEIRO, Ô, SALVE A MOCIDADE!”

“A gente vai brincar com esse capricho do Arlindo, com essa marca que o Arlindo imprime nos desfiles. Com as rendas, com os bordados. O uso dos espelhos que é muito importante, que foi ele que introduziu isso para substituir as luzinhas que eram muito usadas no carnaval e que davam muitos problemas aos carros alegóricos. E ,essa frase ‘Espelho da raça encarnada’, ela se refere não só ao uso do espelho, mas também da visualização da raça, porque Arlindo participa desse momento em que se introduz os personagens populares, as figuras pretas dentro dos enredos. E que personifica pessoas como Isabel Valença, como Mercedes Batista, que vão incorporar grandes personagens. Xica e Zumbi, talvez os mais famosos aí, que vão ser vividos nesse tempo de Salgueiro. E, esse Brasil que é descoberto no Salgueiro, vai ganhar uma tônica muito grande na Mocidade porque o Arlindo chega a Mocidade em 1972 fazendo enredos brasileiríssimos e conquista o primeiro campeonato da Mocidade em 1979 com um enredo sobre o descobrimento do Brasil que ele já havia feito no Salgueiro. Mas, ele traz uma nova versão para o enredo com novas hipóteses, com novas informações sobre a história do Brasil. Esse desfile é a síntese dos enredos que o Arlindo fez”.

“LEMBRO QUE O IMPERADOR/ME LEVOU PRA SER REI EM SUA ASSÍRIA/AMANHECEU E NÓS DOIS/FOMOS UMA SÓ VOZ NO ALTAR DA BAHIA

Então, Luizinho Drummond, que era chamado, pelos jornais da época, de imperador, convence o grande arquiteto do carnaval, o grande elaborador dos grandes carnavais a ser o rei, a ser o mentor da sua Ramos, da sua Assíria, do seu Império. O casamento se concretiza. Arlindo desenvolve “O que a Bahia tem” que é um carnaval emblemático, a escola é campeã no sol da manhã com um desfile esfuziante, dos mais bonitos da história, em um dos casamentos mais importantes da história do carnaval carioca, do glamour e do luxo, do romantismo do Arlindo com o glamour e o luxo da Imperatriz Leopoldinense.

“BRILHEI… NO SEU PALCO ILUMINADO/DANCEI… SABIÁ CANTOU MEU APOGEU”

“Então, ele brilha no palco iluminado da Imperatriz com o desfile de Lamartine que vai torná-lo consagradíssimo. Quando a gente fala em brilhar, a gente se refere ao próprio desfile, a abertura deste desfile talvez tenha sido uma das aberturas mais impactantes em termos de brilho da época por conta do uso dos espelhos e pela incidência de luz solar. Sabiá cantou meu apogeu é uma referência ao desfile de 1982 que é considerado um dos mais bonitos da história, auge do Arlindo em termos de figurino e de estética”.

“NUMA DERRADEIRA SERENATA/SONHEI COM DALVA E FUI MORAR COM DEUS”

“Derradeira serenata porque é a última e o Arlindo depois de 1983 quando ele faz Chica da Silva e o Rei da Costa do Marfim ele tem várias idas e vindas com a Imperatriz. E, em 1987 ele tem seu último encontro de amor com a Imperatriz. Ele morreu logo depois do desfile da Dalva de Oliveira, que também era um espetáculo que estava no Teatro João Caetano. Arlindo era muito amigo de Dalva, muito fã de Dalva. Então, ele parte, mas deixa a marca da estética dele na Imperatriz. Essa marca vai ser replicada por outros carnavalescos. Todos aqueles que vão passando pela escola, vão respeitando, tanto Max, quanto Viriato, como a própria Rosa Magalhães, então se diz que houve uma ligação que permaneceu incólume por um tempo”.

“SEU SAMBA NASCENDO NO MORRO/ECOA DO POVO E RESSOA NO CÉU/DESPERTO EM SEUS BRAÇOS DE NOVO/NO MAIS BELO TRAÇO DA FLOR NO PAPEL/SE A SAUDADE É CERTEZA/UM DIA A TRISTEZA SERÁ CICATRIZ/ETERNA SEJA! AMADA IMPERATRIZ!”

“ Nessa parte, faz-se a passagem da Dalva de Oliveira para o celeste. A música Ave Maria do morro diz que quem mora mais em cima do morro, vive mais perto do céu. E a Imperatriz é a escola do complexo do Alemão, a escola cercada pelos morros do subúrbio. Arlindo ainda se conecta com essa gente, com esses sambistas, todas as vezes que o seu pavilhão é empunhado. E que ele desperta nesses traços de Rosa Magalhães, neste ano, Rosa, sua mais aplicada pupila, talvez a grande continuadora de sua obra e de seu estilo, pra mostrar que laços de afeto são eternos. Independente da saudade que exista, a Imperatriz deve ser eterna. A escola de samba permanece, ela fica, ela deixa seu legado histórico”.

“VEM ME ENCANTAR!/VOLTA PRO SEU LUGAR!/SEU MANTO É MEU BEM QUERER/E LÁ DO ALTO O PAI MAIOR MANDOU DIZER/QUEM VIVEU PRA TE AMAR, SEGUIRÁ COM VOCÊ”

“Ele pede que ela o encante, que ela o faça vibrar de novo, de volta ao seu lugar, que não é simplesmente voltar ao Especial, é voltar ao protagonismo do Grupo Especial. Se declara sobre o bem-querer e manda uma mensagem do céu. De que aqueles que viveram para amar seguirão para sempre com a escola. É uma mensagem de esperança, de amor e de carinho, de abraço a todos aqueles que perderam as pessoas e a Imperatriz sofreu perdas muito importantes. A família que perdeu seu Luizinho, a escola como um todo que perdeu seu Luizinho, que foi seu grande líder, seu grande patrono, grande patriarca. Mas a todos aqueles que passaram por esse ano tão difícil, e que precisam encontrar forças para continuar. É uma mensagem do Arlindo evoluído, iluminado que traz essa noção de que seremos para sempre aquilo que construímos. O que nos faz imortal é o legado que deixamos”.

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