Em busca do tão sonhado título, que já não vem a 11 carnavais, o Salgueiro é mais uma escola, nesta safra de bons enredos, a buscar dentro de si a inspiração para a valorização da cultura do negro e para uma mensagem de resistência. No desfile, a escola lembrará que foi pioneira na introdução da temática africana nos desfiles das escolas de samba, seguindo na contramão das “narrativas oficiais” da história do país, dando voz e palco para personagens, heróis e protagonistas pretos, como Xica da Silva, desfile de 1963, que ficou como inspiração depois para o filme de 1976 dirigido por Cacá Diegues e estrelado por Zezé Motta.

“Resistência” é assinado pelo carnavalesco Alex de Souza que vai para o quarto carnaval à frente da Academia do Samba. Torrão amado, “o lugar onde eu nasci”, como diz na letra do samba, é simplesmente o morro do Salgueiro, daí a valorização de suas próprias origens dentro de um enredo que trará o Salgueiro como um griô que transmitiu ao longo dos anos histórias riquíssimas através de seus carnavais, se consolidando como elemento ativo no processo de resistência cultural e de luta contra o racismo institucional, como é citado na própria sinopse.

Desta forma, com este enredo, o Salgueiro quer resistir lembrando de sua história, de um legado deixado pelos povos que viviam nos quilombos, garantindo o direito a fé, em especial em relação às religiões de matriz africana tão perseguidas, destacando os valores civilizatórios e culturais presentes na cozinha, na dança, valorizando a arte e os festejos introduzidos pelos negros, pois afinal de contas como é apresentado na própria sinopse, resistir é existir.

Foto: Leandro Ribeiro/Divulgação TV Globo

O samba é uma composição de autoria de Demá Chagas, Pedrinho da Flor, Leonardo Gallo, Zeca do Cavaco, Joana Rocha, Renato Galante e Gladiador. Leonardo Gallo explica que o samba valoriza justamente a resistência que o próprio Salgueiro tem feito ao longo de sua história.

“Nosso samba foi escrito em primeira pessoa, sendo que o próprio Salgueiro é que narra a história, o samba em si. E o fio condutor, eu diria que é a própria história do Salgueiro, que sempre valorizou a cultura do preto, foi o primeiro a faze enredo colocando o negro como protagonista, daí tivemos Zumbi, Xica da Silva”, afirma o compositor.

O site CARNAVALESCO dando continuidade à série de reportagens “Samba Didático”, pediu ao compositor Leonardo Gallo para explicar os significados e as representações por trás de alguns versos e expressões presentes no samba do Salgueiro para o carnaval de 2022.

“UM DIA MEU IRMÃO DE COR/CHOROU POR UMA FALSA LIBERDADE/KAO CABECILÊ SOU DE XANGÔ/PUNHO ERGUIDO PELA IGUALDADE”

“Iniciamos essa narrativa afirmando que a assinatura da lei áurea deveria em tese, “em tese”, abolir a escravidão, porém libertos continuamos escravos da miséria, discriminados e marginalizados. Então nesse momento, evocamos a proteção de Xangô, nosso orixá, o orixá do Salgueiro, o orixá da justiça, padroeiro da escola e do morro do Salgueiro. Ele é capaz de combater as mazelas impostas pela exclusão que nós estamos vivendo, a exclusão social, e com isso, conclamamos nossos irmãos a resistir com o punho erguido, a lutar pela tão sonhada igualdade”.

“HOJE CATIVEIRO É FAVELA/DE HERDEIROS SENTINELAS/DA BALA QUE MARCA, FEITO CHIBATA/VERMELHO NA PELE DOS MEUS HERÓIS/LUTARAM POR NÓS, CONTRA A MORDAÇA”

“Passados 133 anos da abolição, ainda continuamos aprisionados a um sistema cruel onde o preto luta diariamente por respeito. Vivendo aprisionados em favelas, sob condições precárias, assentadas por políticas públicas ineficientes, isolado hereditariamente, e aterrorizados por constantes tiroteios que extingue sonhos. Assim como a chibata marcava com cicatrizes uma era de heróis que com seu sangue combatiam a intolerância racial. E hoje, sentinela são os policiais, o poder público que entra nas favelas e não quer saber quem está na frente. E com as balas, elas matam, mas elas deixam marcado também quem está vivo. Porque a lembrança fica e nunca tem fim. Então isso fica marcado com sangue”.

“Ê MÃE PRETA, MÃE BAIANA/DESCE O MORRO PRA FAZER HISTÓRIA/ME FORMEI NA ACADEMIA/BACHAREL EM HARMONIA/EIS AQUI O MEU QUILOMBO, ESCOLA”

“Nossas mães, as mães pretas, de quem foi criado no morro, passaram por tanta humilhação para que os filhos pudessem seguir um caminho digno. E começam a viver um tipo de vida de privações, provocações e muito trabalho. E foi com esse seu suor e aprendizado, que consegui me formar, e me formar na academia do samba representando a minha cultura e arte precedida por minhas raízes e pela história de vida dos meus ancestrais. E que história. E aí tem algumas curiosidades. Como no caso em que a representante da ala das baianas é a Tia Glorinha, moradora ainda lá do morro. Que desceu né. A escola desceu o morro e realmente fez história como baiana. Aí vem também o trecho, ‘bacharel em harmonia, eis aqui o meu quilombo’, quando a escola foi formada o Geraldo Babão já dizia né, ele fez um samba exaltação que foi o primeiro samba da escola, que foi exaltação que diz ‘vamos balançar a roseira’, nela tem uma frase sobre os diretores de harmonia, o próprio Laíla criado no morro do Salgueiro, e o próprio Calça Larga, a família Calça Larga, e o Salgueiro sempre foi bacharel em harmonia”.

“Ê GALANGA Ê… REI ZUMBI OBÁ/PRETA AQUI VIROU RAINHA XICA/SOU A VOZ QUE VEM DO GUETO/RESISTÊNCIA NO TAMBOR/PILÃO DE PRETO VELHO EU SOU”

“Ao som dos nossos tambores, tivemos a responsabilidade e o pioneirismo de introduzir a temática africana no carnaval do Rio de Janeiro para o mundo, e com isso criamos diversos enredos que ratificam a nossa história: ‘Chico Rei’, chamado de Galanga, ‘Zumbi dos Palmares’, ícone da resistência preta, ‘Xica da Silva’, coroada em nosso chão. Personagens que deram voz aos excluídos, dignificam a nossa história de resistência. A resistência do tambor é o nosso próprio pavilhão. É o próprio pavilhão do Salgueiro. Está lá representado pelos tambores. E neste caso, nós estamos falando do nosso pavilhão. E o pilão de preto velho, eu sou, é o pilão que é bem resistente, onde os pretos velhos vão macerar as ervas para tirar todo mal, e o próprio desfile de 1992, aquela imagem para todo Salgueirense é lembrado até hoje no ‘soca no pilão preto velho mandingueiro’. Vem isso tudo em uma levada e nós temos o nosso preto velho como a própria resistência”.

“NO RIO BATUQUEIRO/MACUMBA O ANO INTEIRO/NÃO NEGO MEU VALOR, AXÉ/GINGADO DE MALANDRO/KIZOMBA E CAPOEIRA/CAXAMBU E JONGO, FÉ NA REZADEIRA/TEMPERO DE IAIÁ, NÃO TENHO MAIS SINHÔ/E NUNCA MAIS SINHÁ”

“O Rio de Janeiro é a terra do malandro batuqueiro e é o próprio enredo do Salgueiro de 2016. E da macumba, todo mundo é um pouco de macumbeiro. Resistir é assentir nossa fé, é não ter medo, receio de expor nossas crenças, é dançar, é jogar. Este momento do Rio de Janeiro que nós estamos passando, muitas vezes aparece na televisão, notícia corriqueira, da intolerância religiosa que tem atingido as religiões afros. E, assim, temos que mostrar a nossa força. Temos o Jongo, o Jongo da Serrinha, o caxambu, no próprio morro do Salgueiro, são resistências. A própria rezadeira hoje quase não tem como antigamente, de levar uma criança para a rezadeira. Hoje quase já não tem valorização delas. O tempero de ‘Iaiá’ é todo o tempero que veio já lá da África que foi disseminado aqui no Rio, no Brasil, na nossa culinária. É uma resistência. Então não tem mais essa de ‘sinhô’, nem de ‘sinhá’”.

“SAMBO PRA RESISTIR/SEMBA MEUS ANCESTRAIS/SAMBA PELOS CARNAVAIS/TORRÃO AMADO O LUGAR ONDE EU NASCI/O POVO ME CHAMA ASSIM”

“Aí, nós temos o samba como elemento cultural de forte resistência histórica frente ao escravismo, a colonização e as tentativas de supremacia cultural branca. O samba sempre foi voz das periferias. O samba me ensina, me encoraja, me liberta, me apresenta ao mundo. O samba me define. ‘Semba, meus ancestrais’, é as nossas origens, e ‘samba pelos carnavais’, as próprias escolas de samba que são resistentes a todos os sistemas. ‘Torrão amado’ é o próprio Salgueiro, o ‘torrão amado’ é como é conhecida a nossa escola, o morro em si. E pouca gente sabe disso. Quem é Salgueiro, esse é um lema nosso. Para quem nasceu, o morro é o ‘Torrão Amado’. E o Salgueiro nasceu no Morro do Salgueiro. O povo na Sapucaí espera o Salgueiro, o Torrão Amado”.

“SALGUEIRO… SALGUEIRO…/O AMOR QUE BATE NO PEITO DA GENTE/SABIÁ ME ENSINOU: SOU DIFERENTE”

“Esse trecho está mostrando a escola que é hoje o Salgueiro, graças ao Seu Djalma (Sabiá). Já que ele foi de tudo um pouco na escola. É a nossa referência no mundo do samba. O nosso maior baluarte. E nada mais grandioso do que reverenciar esse ícone do samba dando voz a resistência do Morro do Salgueiro, da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, na Sapucaí. Nada mais justo que homenagear esse grande homem representando todos os outros que também já partiram, a todos os grandes salgueirenses e muito respeito por ele. E cantar ‘Salgueiro, Salgueiro’ é uma forma que o salgueirense tem de exaltar seu pavilhão, é o que mais o salgueirense sabe fazer, é cantar, cantar, cantar de qualquer forma, que seja o nome da sua escola. Então quando a gente fala Salgueiro e depois canta de novo, a gente reafirma o poder da nossa escola, claro sempre respeitando todas as coirmãs. Mas é o Salgueiro, a força da escola é cantar”.

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