Samba dos Gaviões da Fiel levanta arquibancada mesmo de manhã e comissão de frente impressiona

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Por Matheus Mattos. Fotos: Magaiver Fernandes

Mesmo com o dia amanhecendo, o público permaneceu em peso nas arquibancadas e interagiu com o canto constantemente proporcionado pela qualidade do samba. A escola de samba Gaviões da Fiel trouxe uma reedição de 1994, através do enredo: “a saliva do santo e o veneno da serpente”, porém com leitura nova e detalhes diferentes da original. Clima arrepiante da largada, interação da arquibancada, coreografia surpreendente da comissão de frente e ritmo da bateria foram os destaques positivos. Queda no domínio do quesito evolução foram um dos pontos negativos.

Comissão de Frente

Coreografada pelo Edgar Júnior, a comissão de frente contou a história do surgimento do tabaco através de uma lenda lúdica. Santo Antão, devoto de Cristo, teria dedicado sua vida a levar a mensagem religiosa por todo norte da África. O Santo se deparou então com uma cobra debilitada, fraca, e a pegou pra cuidar. Restabelecida, a cobra o traiu e picou seu braco. Santo Antão se livrou da serpente, chupou o veneno do local da ferida e cuspiu no solo infértil, surgindo assim ramos de tabaco. A comissão de frente foi um grande destaque da escola, sendo considerada até uma das que melhor passou no grupo especial. O tripé representou uma grande escultura do Santo Antão, tendo interação de um componente fantasiado de cobra e mordendo o braço. Momentos marcantes, como o aparecimento de Cristo e da cobra, e a batalha entre anjo e demônio, impressionou o quesito, que surpreendia a cada instante.

Mestre-sala e Porta-bandeira

O primeiro casal, Wagner Lima e Adriana Mondjan, representou o “Encontro de Cristão do deserto e Muçulmanos da África”. Contam os árabes que após o episódio de Santo Antão, o profeta Maomé passou naquele mesmo local e se deparou com os ramos de tabaco. A dupla trouxe esse encontro de cristãos com muçulmanos. A dupla efetuou uma apresentação bem espontânea e destreza em cada movimento. Ambos trouxeram um figurino suntuoso, de cores Vermelho e dourado, sem exageros no gigantismo. O mestre – sala adotou uma postura no qual ele praticamente deslisasse no bailado, sem preder o sorriso presente durante toda passagem.

Harmonia

O canto da escola foi empolgante e forte. Os componentes contaram com a ajuda direta dos foliões nas arquibancadas, quem além de cantar, também movimentavam os braços imitando quem desfilava. O apagão feito pela bateria foi bem correspondido e destacou positivamente o quesito.

Evolução

Segura nos quesitos inicias, como comissão de frente e casal, a escola pecou em algumas partes no andar. Diferente dos ensaios técnicos, a entrada no recuo foi um drama, isso porque a ala da frente não esperou o movimento total da bateria, deixando buraco e fazendo as alas correrem pra preencher o vazio, ato visto no minuto 30. Após isso “padrão” imposto no começo do desfile não foi mais notado, e a variação de velocidade era visível. Um destaque positivo ficou por conta da ala coreografada que trazia mulheres fantasiadas de cobra. As palmas durante o segundo refrão foi feito por toda a escola, demonstrando boa organização e sincronismo com andamento do samba. A falta do sincronismo no quesito voltou a ser notado com mais intensidade no minuto 40, especificamente em frente ao recuo. Os passos no refrão principal deu a sensação de escola mais leve e solta.

Alegorias

O geral das alegorias dos Gaviões foi satisfatório, esculturas bem acabadas, e plástica com fácil interpretação e dentro do enredo, apenas com alguns detalhes prejudiciais em acabamento.

O abre-alas surpreendeu pela grande escultura da cobra, onde seu corpo atravessava toda a alegoria. A figura do Gavião veio logo acima, e com o som animal. O elemento trabalhou com base na cor dourada, dando mais ênfase à proposta árabe do setor.

A segunda alegoria trouxe detalhes luxuoso e minuciosos nas laterais. Na terceira o que cativou foi a imagem do São Jorge em cima da lua. Já na quarta pode ser visto uma maior interação humana, porém o carro demonstrou falta de acabamento na parte de cima do local que representava o cabaré, ferro foi ser visto. A última alegoria foi a surpresa do carnavalesco, contrariando a proposta de encerramento do desfile de 1994, ele defendeu que cada é dono dos seus atos, por isso a imagem do juiz. Um cérebro também foi visto, que significou que a mente humana tende a ter vícios, como o de fumar.

Bateria

A batucada inovou com a montagem. Adotada também Mocidade Alegre, os leves vieram atrás, e a linha de frente era formada por cuícas, seguida pela cozinha. Após o recuo o posicionamento voltou ao normal. A bateria não realizou muitas bossas, mas arranjos dos timbales e xequeres foi efetuado em toda passagem do samba. Um destaque emocionante ficou por conta da roupa dos diretores e mestre, a imagem do diretor Wilsinho, que faleceu durante o ensaio da escola, esteve estampada no figurino.

Samba-enredo

O samba funcionou muito bem, sendo considerados o que mais empolgou a arquibancada em comparação a todos os desfiles do grupo especial. O time de cordas realizaram arranjos pontuais no segundo refrão, enriquecendo a melodia clássica da canção. O intérprete Ernesto Teixeira demonstrou que a idade não é empecilho, e também se destacou.

Enredo

Os Gaviões da Fiel reeditaram um enredo de 1994, que contou a história do tabaco, erva do cigarro. A escola começou contando o surgimento através de uma lenda antiga, toda a importância que o tabaco tem pra história também esteve presente no desfile, como o uso de remédio pela rainha Carolina de Médici. A escola também abordou os costumes e manias que o uso do cigarro traz, e finalizou com uma sátira, diferente do desfile de 25 anos atrás.

Fantasias

As fantasias dos Gaviões da Fiel foram satisfatória, sem nenhum problema aparente. O primeiro setor trouxe uma estética árabe muito forte, além da representações que tema pedia. As alas foram bem desenhadas, deram a sensação de leveza mas sem perder a suntuosidade.

Outros destaques

Na contramão da maioria das escolas que colocam suas crianças em alegorias, os Gaviões destinaram um espaço no chão só para os pequenos sambistas, ala que contou também com uma menina cadeirante logo à frente. A Velha-Guarda, que também desfilou na avenida, mostrou muita animação, e até sambavam quando o público os aplaudia. A ala de convidados foi um ponto bastante curioso, isso porque eles vieram em grande número e foi eles que mais cantaram o samba, porém os convidados não podem ser julgados.

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