Sambistas revelam as dificuldades de fazer carnaval na Série A em 2019

1677

Por Diogo Cesar Sampaio

O carnaval carioca vive um dos piores momentos de sua história. A ausência e saída de patrocinadores, aliado aos cortes e atrasos em repasses de verba por parte da prefeitura do Rio, marcam os preparativos para os desfiles de 2019. Um drama que atinge a todas as agremiações, de todos os grupos. No entanto, a Série A ainda enfrenta também outras questões. Várias escolas foram despejadas de seus barracões na Zona Portuária, durante o segundo semestre de 2018, e ainda não conseguiram um novo espaço para trabalhar, às vésperas da festa. Uma situação delicada, agravada pela falta de apoio e negligência dos órgãos e instituições públicas com uma das maiores manifestações culturais do país, além de grande fonte econômica e turística para a cidade e o estado do Rio de Janeiro.

O site CARNAVALESCO ouviu alguns artistas da Série A durante o Grito de Carnaval que ocorreu no último sábado na quadra da Viradouro. Eles relataram um pouco da experiência de como é fazer carnaval em meio a um ano repleto de adversidades, além de comentarem da importância de um evento como o Grito de Carnaval para valorizar as agremiações da Série A e o sambista em geral.

“Esse evento é muito importante para mostrar que nós temos força. Por mais que tentem acabar com o carnaval, não vão conseguir. Nós somos unidos. Carnaval é alegria, respeito, diversidade. Um evento como esse é para mostrar para o estado do Rio de Janeiro, para a prefeitura, que nós somos sim o maior espetáculo do mundo. É lastimável essa situação que a Série A se encontra. É muito triste. Até porque nós lutamos tanto, para chegar hoje e ver que, aos poucos, estão tentando destruir o que conquistamos. Cada dia vai dificultando mais ainda o trabalho das escolas de samba. Mas uma coisa que nós temos é fé. Fé, garra, união e força para mostrar para eles que nós temos condições sim de manter a Série A viva. A palavra desistir não está no samba”, declarou Cintya Santos, primeira porta-bandeira do Porto da Pedra.

Intérprete de uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, Serginho do Porto também teve um posicionamento crítico similar ao da porta-bandeira. E mesmo com todos os problemas, ele se mostrou otimista com o que a Estácio de Sá vai apresentar na avenida em 2019:

“Se na atual situação já está difícil no Especial, que dirá no Acesso. Todo mundo vai ter que tirar da cabeça o que não tem no bolso. Aos trancos e barrancos a comunidade está se unindo ao trabalho da Estácio e vamos lá. Se Deus quiser, vai dar tudo certo. Com todas as dificuldades, com tudo que a prefeitura do Rio renegando o carnaval do Rio de Janeiro, uma das festas mais bonitas do mundo… Uma hora isso vai acabar. Esse prefeito (do Rio de Janeiro) não vai ser eterno”, comentou.

Diretor do Cubango, Daniel Katar, afirmou que apesar da escola receber um apoio da prefeitura de Niterói, a verde e branca não se encontra em situação de vantagem em relação às outras. Segundo ele, a agremiação enfrenta os mesmos problemas que as demais co-irmãs da Série A.

“É muito difícil. Carnaval está cada vez mais complicado. Não é somente a Cubango. Alguns falam que a Cubango está com uma situação mais privilegiada, mas que não é verdade também. A gente também está lutando, temos dívidas e dívidas, além de outras situações que nos levam a ter tantas dificuldades tanto quanto os outros. É trabalho de super-herói, superman. Cada um tem que botar a roupa de super-herói e botar a mão na massa, senão não saí o carnaval. Infelizmente, todas estão passando por isso. Mas eu acho que mesmo assim a Cubango vai surpreender a todos positivamente de novo, se Deus quiser”, manifestou.

A Alegria da Zona Sul foi uma das escolas despejadas de seu barracão, e até hoje vive uma situação dramática. Igor Vianna, voz oficial da escola, foi esperançoso em sua fala mesmo diante do cenário adverso enfrentado, e ainda salientou a importância do Grito de Carnaval do Sambista nesse momento de crise.:

“Um evento como esse é como um ressurgimento do carnaval para o povo. É uma reentrega do samba e do carnaval ao seu verdadeiro dono, que é o povo. Se não fosse o povo, não tinha carnaval. É muito difícil fazer carnaval. A Alegria (da Zona Sul) está sofrendo muito, como todas as outras. Todas as escolas da Série A estão tendo um ano muito complicado, mas vão fazer com honra o seu carnaval. Isso todos podem ter certeza”, assegurou.

Daniel Silva, intérprete oficial do Império da Tijuca, reconheceu o momento complicado e, assim como Igor Vianna, se mostrou confiante que as escolas da Série A vão apresentar outro grande espetáculo esse ano.

“Na atual conjuntura do campeonato, de tudo que o mundo do samba, que o carnaval está passando, um evento como esse (o Grito de Carnaval do Sambista) só mostra que o carnaval está forte. O carnaval é unido. Tem que dar a voz para gente sim, tem que esperar tudo do bom e do melhor da gente, que nós somos uma festa gigantesca e temos de ser respeitada. É complicado o momento atual da Série A, mas o amor pelo carnaval, o amor pelo samba, transcende qualquer dificuldade. A gente bota nosso suor, o nosso amor ali, e com um jeitinho brasileiro conseguimos fazer um desfile maravilhoso como vocês viram esses últimos anos aí na avenida”, afirmou.

À frente do microfone oficial da Renascer desde 2014, Diego Nicolau enxerga na crise atual uma oportunidade do carnaval voltar as suas raízes. Para o cantor, o momento é das escolas se voltarem para suas comunidades e valorizarem o samba, ao invés de focarem no aspecto visual.

“O momento é controverso mesmo, mas a Série A sempre foi o carnaval que precisou lidar com isso. É claro que todo e qualquer corte, para quem já tem pouco, é de muita valia. Porém a gente precisa mais ainda que os artistas sejam criativos, e que a parte musical e do povo seja mais ainda valorizada: bateria, canto, samba-enredo… Que o desfilante seja o foco, e não a parte plástica, que a parte cara do carnaval. Infelizmente (a parte plástica) vai ser o pouco na criatividade. Não vai ter como a gente buscar o luxo na Série A. Então que todas as escolas possam, dentro de seus orçamentos, fazer um grande espetáculo para o público”, disse o cantor.

Comentários