“Eu nasci com o samba, no samba me criei, do danado do samba nunca me separei”. Com mais de 30 anos de carnaval, os versos se encaixam perfeitamente na vida da carioca Selminha Sorriso, 50 anos, porta-bandeira da Beija-Flor de Nilópolis. Hoje, após vários obstáculos superados e com o passar dos anos, Selma de Mattos Rocha, esbanja alegria, simpatia e encanta por onde desfila. Ela é a personagem do “Lugar de Fala” nesta semana e recebeu o site CARNAVALESCO para o bate-papo. Os primeiros passos da sambista foram conduzidos por dona Jacira de Matos, mãe e grande mentora das escolhas da filha desde pequena, quando ela frequentava a quadra da Unidos de Lucas (1986-1991).

Selminha também passou no Império Serrano (1991-1992), Estácio de Sá (1992-1995) e desde 1996 é a porta-bandeira da Beija-Flor com o mestre-sala Claudinho. A parceria surgiu após um convite de Anísio Abraão David e de Laíla.

“Me encantei, porque eu já tinha esse perfil de dançar, de ser muito vaidosa, estava no sangue. Comecei aos oito anos, depois passei pra ala das passistas, me encantei com a porta-bandeira e disse que era essa função que eu queria exercer”.

A visão clara dos objetivos, a competência e dedicação para comunidade justificam o apoio dos fãs. O talento incomparável de Selminha a consagrou entre uma legião de pessoas que amam a festa e participam intensamente antes, durante e depois dos desfiles.

“Eu sou muito feliz quando eu ganho muitos afilhados, filhos, sou abençoada por ter essa fama de madrinha. Isso já acontece há anos, e o que eu puder fazer para contribuir, seja qual idade for, se precisar eu estarei sempre às ordens”, conta a porta-bandeira, que é mãe do jovem Igor Rocha.

Mulher, negra, trabalhadora e porta-bandeira. Cada conquista foi alcançada na base da disciplina, estudo e preparo para cumprir com os compromissos pessoais e profissionais, dinâmica essa que ela tira de letra ao acordar cedo, sorrindo. Com todo esse brilho ela leva alegria, ânimo e esperança, mostrando que não resume apenas ao dia do desfile, mas durante um ano inteiro de trabalho, planejamento e organização. Ao ser questionada sobre a importância da cultura na própria vida, Selminha não esconde a paixão.

“O samba deu voz ao povo negro. Nós conseguimos ser ouvidos, de certa maneira ser respeitados. Como mulher negra, de origem humilde, encontrei no samba toda projeção que eu não teria se não fosse sambista. A minha gratidão por essa manifestação popular é muito grande”.

Essa declaração dialoga com a proposta apresentada no livro da autora Djamila Ribeira na qual ela diz: “O lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas”. Ou seja, as sensações e os sentimentos que embalam os sambistas são de fato diferentes, únicas, sendo capazes de contagiar aos que vivenciam de forma intensa. Sobre as oportunidades proporcionadas, Selminha, não esconde as lutas para alcançar e compartilha com orgulho.

“Por ser porta-bandeira e sambista, portas se abriram. O samba é muito agregador. E, ao longo dos anos, com a sua postura, sua maneira de se comportar, de tratar os seus semelhantes, mostrando que você tem competência para exercer determinada função, não abusando dos benefícios que essa tal função te traga, você sempre vai encontrar forças para se posicionar e se manter de pé”.

Ela ainda afirma que os maiores desafios vem da pessoa, e cabe a cada um ter o controle sobre a interferência do próximo na vida pessoal.

“Quando você não permite que te magoem, você não vai se magoar, ninguém te põe pra baixo se você não permitir”

Mesmo com o autocuidado há divergências no cenário social. Os padrões sustentados por status, poder aquisitivo, posição e vaidade, influenciam na escolha de quem pode estar em determinados lugares onde a minoria está presente e o capital fala mais alto. Tal situação ocorre em diversas áreas da vida de uma pessoa e com frequência, devido às desigualdades que só em 2018 atrasou em 20% o progresso do desenvolvimento humano de acordo com o índice da ONU. Nesse quesito a porta-bandeira diz não ter sofrido ou presenciado qualquer tipo de discriminação e desabafa:

“Uma coisa que eu percebo, em algumas pessoas, e não é só de pessoas brancas para as pessoas negras, são as coisas do ser humano, se você tem um certo papel, ou uma certa condição social, financeira, o preconceito é bem menor. E eu nunca presenciei, graças a Deus, de verdade, algo que fosse me incomodar tanto, mas eu vejo o quanto é diferente, quando você tem projeção social, artística, visibilidade, benefícios. Tem que ser legal, por ser legal, humilde e educado com todos”.

Essa postura vem dos antepassados que, Selminha, não esconde o poder e a interferência até hoje. Ter referências no carnaval pode ser importante para auxiliar na jornada, porém, os mais de 30 anos de carreira, trazem um número incontável de contribuições. Sem falar dos aprendizados adquiridos no Corpo de Bombeiros, na maternidade, como ser humano, que impulsionam o desenvolvimento pessoal formando uma mulher forte, madura, premiada dentro e fora da avenida. Ouvir a voz da experiência é uma escolha que pode render bons frutos aos que escutam com atenção, no mundo do samba também não é diferente, em muitos integrantes das escolas é comum encontrar os famosos “griôs”, pessoas mais velhas que compartilham as experiências da vida com o objetivo de ajudar o próximo.

“A mulher negra continua caminhando, progredindo, prosperando, se mostrando forte, com fibra. Essa mulher dos dias de hoje é muito mais empoderada, decidida, Tem mais voz, imagem. Isso tudo é uma construção ao longo de muitos anos não é de uma hora para outra”

Esse entusiasmo contribui para o autodescobrimento e a verdadeira essência da vida. Quando perguntada sobre ter tido algum caso de abuso ou assédio sexual, Selminha, negou ter sofrido qualquer tipo de violência física, mas relatou um tipo de opressão comum sofrida entre as mulheres: a psicológica.

“Vivi um relacionamento onde eu permiti ficar trancada em uma caixinha e só saia da quando eu recebia essa permissão. Você acaba se permitindo e nem percebe, acho que muitas mulheres já passaram por isso. A gente confunde, amor, proteção, com autoritarismo e excesso de domínio, perdendo algo que seja prazeroso como a liberdade, respeito, carinho”

Novos projetos são almejados, assim como os planos de buscar o aperfeiçoamento, iniciativa básica para quem deseja se lançar em outros mares.

“Meu projeto é continuar me movimentando em prol do carnaval, compartilhando os meus humildes saberes principalmente para crianças e jovens interessados na nossa cultura, tentando mostrar para o meu filho, que ele pode ter um futuro muito melhor, mediante aos seus esforços. Além de valorizar a minha casa que é o meu castelo, e eu preciso manter esse castelo com trabalho, com amor, união, sempre zelando por todos, então eu sempre vou procurar crescer, nunca vou estacionar, nunca vou me acomodar”, finaliza a porta-bandeira.

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